A interlocução entre Amazonas e União pode aproximar os investimentos do PIM de uma estratégia que reúna bioeconomia, logística, pesquisa e beneficiamento industrial, com maior participação do interior.
Coluna Follow-Up
Encerrada a temporada eleitoral, o relacionamento entre os governos estadual e federal passa a ser medido pela capacidade de encaminhar problemas que exigem decisões compartilhadas. Para o Amazonas, uma interlocução mais próxima abre espaço para organizar investimentos, compatibilizar projetos e dar continuidade a iniciativas que frequentemente atravessam diferentes repartições sem encontrar uma coordenação capaz de conduzi-las até a execução.
Os projetos apresentados na 322ª reunião do Codam oferecem um ponto de partida. Há disposição empresarial para investir, diversificar produtos e ampliar operações. O passo seguinte seria aproximar essas decisões de uma estratégia regional, identificando o que as fábricas compram, quais competências precisam desenvolver e quanto dessa demanda poderia ser atendido por empresas, pesquisadores e trabalhadores do próprio Amazonas.
Da cooperação política ao trabalho conjunto
Um acordo de desenvolvimento produtivo entre Amazonas e União poderia começar por uma carteira enxuta de projetos, com responsáveis, orçamento, etapas e acompanhamento público. Sedecti e Suframa teriam condições de organizar a interlocução com empresas e municípios; as instituições de pesquisa ajudariam a selecionar os desafios tecnológicos; os agentes de financiamento participariam desde a preparação dos empreendimentos.
Essa organização permitiria trabalhar com entregas verificáveis. Uma unidade de beneficiamento no interior precisaria nascer acompanhada de fornecimento contratado, energia, assistência técnica, transporte e comprador. Um laboratório voltado a novos materiais deveria conhecer as especificações exigidas pela indústria. Uma obra logística ganharia prioridade conforme sua contribuição para reduzir custos, garantir abastecimento e atender populações.
A sintonia entre governos pode facilitar esse percurso. Seu resultado dependerá da qualidade dos projetos e da capacidade de manter a cooperação durante a execução, inclusive quando surgirem divergências sobre prioridades, custos e responsabilidades.
A bioeconomia precisa encontrar compradores
Já existem iniciativas que podem sustentar essa aproximação. O Programa Inova Bioindústria Amazônica, formalizado por MDIC, IEL, Centro de Bionegócios da Amazônia e Ação Pró-Amazônia, prevê 400 projetos de inovação aplicada e a inserção de 450 pesquisadores em empresas, associações e cooperativas ao longo de cinco anos. São metas que oferecem uma base para cobrar continuidade e resultados.
Uma agenda amazonense poderia selecionar algumas cadeias e acompanhá-las integralmente. Óleos vegetais, ingredientes alimentícios, fibras e outros produtos da biodiversidade demandam soluções diferentes, mas compartilham dificuldades de padronização, conservação, escala e acesso ao mercado. Caberia reunir, conforme cada projeto, competências do Inpa, da Embrapa, da Ufam, da UEA, do Ifam e do CBA, com apoio da Fapeam e dos instrumentos federais de fomento.
O contrato de compra teria papel central. Cooperativas poderiam negociar fornecimento com especificações e volumes definidos, enquanto unidades próximas às comunidades realizariam etapas de secagem, extração, conservação e controle de qualidade. Manaus concentraria parte das operações mais complexas, articulada a uma rede de produção e serviços no interior.
Nesse arranjo, a remuneração dos produtores e a repartição dos benefícios associados ao conhecimento tradicional precisariam integrar o desenho econômico desde o início. A estabilidade do fornecimento depende também de relações comerciais que permitam às comunidades investir e planejar.
Minerais, conhecimento e demanda industrial
O potencial mineral merece uma articulação igualmente cuidadosa. O diagnóstico divulgado pela Agência Nacional de Mineração em julho reconhece a importância da Amazônia Legal, mas registra que substâncias como terras raras ainda não tinham produção na região. Potencial geológico, reserva economicamente aproveitável e insumo industrial disponível correspondem a etapas diferentes, que exigem pesquisa e investimento próprios.
Uma cooperação entre o Serviço Geológico do Brasil, o Centro de Tecnologia Mineral, universidades e empresas poderia avaliar oportunidades de beneficiamento e transformação compatíveis com as condições regionais. O trabalho deveria partir de duas informações concretas: o que existe em depósitos suficientemente conhecidos e o que a indústria necessita comprar, em quais volumes, com que pureza e a que custo.
A partir desse encontro seria possível estudar rotas de processamento, plantas-piloto e formação profissional, respeitando a viabilidade ambiental, os direitos territoriais e as exigências de cada empreendimento. Também faria sentido examinar a recuperação de metais em resíduos industriais e equipamentos descartados, aproveitando a proximidade com o parque fabril.
O Amazonas poderia disputar participação nas etapas de maior conhecimento dessas cadeias. Isso inclui análise de materiais, desenvolvimento de processos, engenharia, manutenção e fabricação de componentes, conforme a viabilidade demonstrada em cada caso.
Transportar, conservar e conectar
Para o interior, essa agenda exige infraestrutura ajustada à geografia e às atividades de cada município. Terminais de pequeno porte, instalações de armazenamento, cadeia de frio, conectividade e energia confiável podem determinar se um produto chega ao comprador em condições comerciais.
Um planejamento compartilhado de transportes deveria reunir navegação, portos, acessos terrestres e monitoramento hidrológico, com preparação para períodos de águas baixas. A indústria também poderia participar dessa transformação, por meio do desenvolvimento e da fabricação de equipamentos para geração solar, armazenamento de energia, refrigeração, comunicação e acompanhamento das cargas, onde houver capacidade técnica e mercado.
O horizonte favorável começa a ganhar consistência quando os projetos do Codam são relacionados a essas necessidades. A expansão do PIM pode estimular fornecedores, serviços e pesquisa; a produção do interior pode encontrar novos compradores e incorporar etapas de beneficiamento. A maior interlocução entre Amazonas e União oferece uma oportunidade para organizar essas relações, com compromissos que sobrevivam ao calendário eleitoral e sejam reconhecidos nos resultados da economia e na vida dos municípios.
A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br