Levantamento revela como o crime organizado na Amazônia conecta garimpo e tráfico a mercados internacionais, enquanto amplia a pressão sobre a floresta e comunidades indígenas.
O crime organizado na Amazônia está presente em 768 dos 1.310 municípios analisados, segundo levantamento de 2026 do Amazon Underworld. O resultado equivale a 59% das localidades pesquisadas em seis países e revela redes que combinam tráfico de drogas com exploração ilegal de recursos naturais.
O estudo abrange Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, seguindo a delimitação da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG). Em 33% dos municípios com atuação confirmada, há mais de um grupo. Nove organizações operam em pelo menos dois dos países pesquisados.
Segundo o relatório, essas redes conectam atividades ilegais a mercados formais e cadeias internacionais de fornecimento. Para as comunidades, especialmente indígenas, a expansão representa ameaças, recrutamento e restrições à circulação. Lideranças que resistem às atividades criminosas ficam expostas à violência.
Uma economia que vai além das drogas
Embora a cocaína continue sendo uma fonte importante de receita, o crime organizado na Amazônia mantém negócios diversificados. A exploração de ouro e a apropriação de terras convivem com extorsões e participação na cadeia do gado.
Parte dos produtos obtidos ilegalmente chega ao mercado por operações aparentemente regulares. Ouro de diferentes origens pode ser processado nas mesmas refinarias. Animais criados em áreas invadidas passam por intermediários antes dos frigoríficos, enquanto terras tomadas à força podem ser regularizadas e vendidas.
De acordo com os autores, o ouro já supera a cocaína em receita no mercado ilegal amazônico. O relatório estima que uma barra de um quilo valia aproximadamente US$ 135 mil em 9 de outubro de 2026. Além do preço, a facilidade de transporte e a dificuldade de rastreamento favorecem sua exploração criminosa.
O metal também serve à lavagem de dinheiro, já que recursos do narcotráfico podem financiar garimpos ou comprar ouro, dificultando a identificação da origem dos valores.
Rios ganham importância nas rotas internacionais
Os corredores fluviais têm papel estratégico para o crime organizado na Amazônia. O documento aponta maior utilização dessas rotas para transportar cocaína, com destaque para os rios Negro e Orinoco. As redes conectam áreas produtoras a portos brasileiros e das Guianas.
A partir desses pontos, carregamentos seguem pelo Atlântico em direção à África Ocidental e à Europa. Segundo os pesquisadores, trajetos antes utilizados de maneira eventual passaram a ocupar posição central no escoamento da droga.
As formas de ocultação também mudam. Na Bolívia, o relatório descreve o uso de cocaína líquida injetada em madeira para dificultar a identificação durante inspeções.
Outra frente envolve minerais críticos. O estudo relata extração ilegal de estanho, tungstênio, coltan e elementos de terras raras no Brasil, na Colômbia e na Venezuela. Em determinados territórios, a atividade teria participação do Exército de Libertação Nacional (ELN) e da Segunda Marquetalia, dissidência das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Na avaliação dos autores, a disputa entre China e Estados Unidos pelo acesso a recursos estratégicos amplia a importância desse mercado e reforça a necessidade de fiscalização das cadeias minerais.
CV e PCC seguem estratégias distintas no Brasil
No Brasil, o levantamento sobre o crime organizado na Amazônia aponta a expansão do Comando Vermelho (CV) por corredores fluviais e regiões de fronteira. A facção conecta rotas de países vizinhos a estruturas de transporte voltadas ao mercado internacional.
Na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, o relatório descreve uma mudança na atuação do grupo: da venda de drogas e cobrança por “proteção” para a participação direta no garimpo. O documento também associa a facção à extorsão e a empréstimos com juros abusivos.
O Primeiro Comando da Capital (PCC), por sua vez, teria perdido espaço relativo para o CV na Amazônia brasileira. Ainda assim, mantém posição importante em Roraima e presença em pontos logísticos de Rondônia, Tocantins e Maranhão, com atuação na distribuição de drogas e na lavagem de dinheiro.
Em Coari, no Amazonas, o relatório relaciona disputas entre as duas facções a um aumento de 91% dos homicídios entre 2022 e 2024. O dado indica agravamento da violência no período, sem permitir atribuir todas as mortes diretamente ao confronto entre os grupos.
Corrupção e tecnologia sustentam a expansão
A corrupção é apontada como um dos mecanismos que sustentam o crime organizado na Amazônia. Segundo os pesquisadores, os recursos acumulados pelas organizações ampliam sua capacidade de influenciar agentes públicos. No Amazonas, o documento relata pagamentos de propina em ouro a policiais militares ligados à proteção de dragas.
Em Roraima, agentes teriam recebido, por uma noite de proteção a pistas clandestinas, valores equivalentes a aproximadamente seis salários mensais.
No Peru, o levantamento cita investigações envolvendo 200 dos 250 funcionários eleitos localmente em cinco departamentos, com quase 3 mil supostos crimes. Para os autores, esses casos mostram por que o combate à corrupção precisa integrar as políticas de segurança.
A tecnologia também modifica a atuação do crime organizado na Amazônia. Na Colômbia, drones são empregados para monitorar rios e postos policiais, além de realizar ataques. Dados da organização ACLED citados no relatório registram dez ataques com esses equipamentos nos departamentos amazônicos colombianos entre julho de 2023 e março de 2026.
O recrutamento também ocorre pela internet. Segundo informação da Jurisdição Especial para a Paz da Colômbia, 44% dos menores recrutados em 2025 foram abordados pelas redes sociais. O estudo menciona ainda criptomoedas como mecanismo emergente de lavagem de dinheiro.
Autores defendem investigação financeira e alternativas de renda
Para enfrentar o crime organizado na Amazônia, o relatório questiona a concentração das respostas estatais em operações militares de curta duração. Na avaliação dos autores, essas ações podem deslocar grupos para outros rios ou países sem desarticular suas fontes de financiamento.
Como exemplo, o documento reúne relatos de moradores do Equador sobre a chegada de integrantes dos Comandos de la Frontera a novas áreas após operações em territórios próximos. A interpretação dos pesquisadores é que a repressão isolada pode transferir a atividade criminosa, preservando sua estrutura econômica.
As recomendações incluem ampliar a rastreabilidade dos produtos e investigar os fluxos financeiros. A apreensão de patrimônio e a responsabilização dos organizadores deveriam acompanhar o controle dos insumos que abastecem atividades ilegais, como combustível e mercúrio.
Os autores também defendem maior cooperação entre os países, com regras compatíveis para enfrentar crimes ambientais. Para as comunidades, propõem alternativas legais de renda e melhores condições de acesso aos mercados.
A conclusão do estudo é que reduzir o poder do crime organizado na Amazônia exige atingir suas conexões econômicas e institucionais. Sem enfrentar a lavagem de dinheiro e a inserção de produtos ilegais no comércio internacional, operações contra os integrantes armados deixam preservadas fontes de receita que sustentam a pressão sobre a floresta.