Emissões dos 1% mais ricos causarão quase US$ 53 trilhões em danos até 2050, estima Oxfam, que defende maior tributação dos grandes poluidores para enfrentar a crise climática.
A desigualdade econômica também determina quem mais contribui para a crise climática e quem sofre suas consequências. Segundo relatório da Oxfam, os 0,1% mais ricos do planeta, cerca de 8 milhões de pessoas, emitem mais carbono do que os 3,5 bilhões de habitantes mais pobres.
O estudo aponta que essa concentração de emissões contrasta com a distribuição dos danos. Enquanto populações vulneráveis perdem moradias e fontes de renda em eventos extremos, pessoas com grandes fortunas dispõem de recursos para se proteger e podem obter ganhos financeiros com atividades ligadas aos desastres.
De acordo com os dados reunidos pela organização, uma pessoa dos 0,1% mais ricos contribuiu quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém pertencente à metade mais pobre da população mundial.
A Oxfam estima que as emissões produzidas pelos 1% mais ricos em apenas um ano provocarão 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor. Países de renda baixa e média-baixa concentrariam 78% dessas mortes, embora respondam por somente 8% das emissões globais.
Na avaliação de Amitabh Behar, diretor executivo internacional da entidade, os grupos que menos contribuíram para a crise climática enfrentam perdas desproporcionais, enquanto os maiores emissores conseguem financiar sua própria proteção. “Aqueles que menos contribuíram para causá-la estão perdendo suas casas, suas colheitas e, cada vez mais, suas vidas”, afirmou.
Entre os exemplos citados estão a contratação de brigadas particulares contra incêndios, a aquisição de seguros privados e a construção de abrigos subterrâneos de alta tecnologia.
Ganhos com poluição e reconstrução
O relatório também examina empresas que obtêm receitas tanto em atividades responsáveis por agravar o aquecimento global quanto em serviços destinados a enfrentar suas consequências.
O índice Destroy & Rebuild, criado pela Oxfam, identificou 217 companhias com atuação simultânea nesses mercados. Seus negócios abrangem setores associados à crise climática e atividades de preparação para emergências ou reconstrução após desastres.
A organização alerta que situações de calamidade podem abrir espaço para medidas que aprofundam desigualdades. Entre elas estão a privatização de serviços públicos, a apropriação de terras e a concessão de benefícios fiscais aos mais ricos.
Segundo as projeções apresentadas, as emissões dos 1% mais ricos causarão quase US$ 53 trilhões em prejuízos econômicos até 2050. O documento também cita a estimativa de que os efeitos da crise climática possam deslocar até 1 bilhão de pessoas nesse período, principalmente no Sul Global.
Tributação e financiamento público
Para enfrentar esse cenário, a Oxfam defende uma redução acelerada das emissões dos maiores poluidores, acompanhada de maior tributação sobre riqueza e renda. Também propõe impostos sobre empresas de combustíveis fósseis e bens de luxo de alta emissão, como jatos particulares.
Outra recomendação é ampliar o financiamento climático ao Sul Global, com prioridade para recursos públicos e doações, evitando empréstimos que aumentem o endividamento dos países. A entidade defende triplicar os recursos para adaptação até 2035.
O fortalecimento dos serviços públicos e a construção de infraestrutura resistente a eventos extremos também integram as propostas. A organização recomenda ainda limitar o poder corporativo na resposta a emergências e na reconstrução, para conter a obtenção de lucros com desastres.