Levantamento revela que o garimpo ilegal na Amazônia impulsiona redes criminosas em seis países, ampliando ameaças aos povos indígenas e à biodiversidade da região.
A expansão do crime organizado na Amazônia tem transformado a exploração ilegal de recursos naturais em uma das principais fontes de financiamento de facções e grupos armados. Impulsionado pela valorização internacional do ouro, o garimpo ilegal na Amazônia passou a oferecer ganhos que superam os do tráfico de cocaína, segundo levantamento da organização Amazon Underworld.
O estudo identificou a presença de organizações criminosas em 768 dos 1.310 municípios analisados, o equivalente a 59% do total. O mapeamento abrange seis países: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
Além do narcotráfico, essas organizações ampliaram sua participação em atividades de mineração clandestina. A diversificação das fontes de renda fortalece redes criminosas e aumenta a pressão sobre territórios indígenas e comunidades tradicionais.
Exploração de ouro amplia danos ambientais
O crescimento do garimpo ilegal na Amazônia representa uma ameaça à biodiversidade regional. A abertura de áreas de extração provoca desmatamento, degradação dos ecossistemas e contaminação dos rios pelo mercúrio, substância tóxica utilizada na separação do ouro.
Em entrevista ao Mongabay, Bram Ebus, fundador da Amazon Underworld e autor do relatório, destacou que a expansão dessa atividade intensifica a destruição ambiental e coloca populações locais em situações de vulnerabilidade. “Os grupos os extorquem. Eles também os usam, muitas vezes sob coerção, como escudos humanos para proteger economias ilícitas e obstruir intervenções estatais. Isso deixa as comunidades expostas à repressão violenta por parte das forças governamentais”, afirmou.
Segundo o pesquisador, comunidades são submetidas a extorsões e, em determinados casos, obrigadas a colaborar com as organizações criminosas. A oferta de remunerações superiores às encontradas nas atividades econômicas legais também facilita o recrutamento de trabalhadores.
Outro mercado que desperta o interesse dessas redes é o de minerais estratégicos. Estanho, tungstênio e coltan estão entre os recursos explorados ilegalmente, especialmente em áreas do Brasil, da Colômbia e da Venezuela.
A procura internacional por esses materiais, utilizados em diferentes setores industriais e tecnológicos, cria novas oportunidades de lucro para organizações que atuam fora dos mecanismos legais de fiscalização.
Combate ao crime organizado enfrenta desafios
O relatório também questiona a eficácia de estratégias de segurança concentradas exclusivamente na repressão militarizada. Para os pesquisadores, o enfrentamento ao garimpo ilegal na Amazônia precisa combinar operações policiais com políticas capazes de combater as condições sociais e econômicas que favorecem a expansão das atividades criminosas.
A ausência de alternativas de renda e a presença limitada do poder público em regiões isoladas contribuem para a dependência de comunidades em relação às economias ilícitas. Nesse cenário, o enfrentamento ao crime organizado exige medidas de proteção territorial, fortalecimento das instituições e criação de oportunidades econômicas sustentáveis.
Operações atingem estruturas de garimpo na Amazônia
Duas ações realizadas em outubro de 2026 demonstram a dimensão da infraestrutura utilizada pelo garimpo ilegal na Amazônia. Na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, a Operação Flecha Noturna VII, realizada entre 8 e 19 de outubro, destruiu pistas de pouso clandestinas, uma balsa e estruturas de apoio à mineração irregular. A ação ocorreu nas regiões de Dicão e Noronha, com participação das Forças Armadas.
Em Rondônia, a Polícia Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizaram, em 27 de outubro, a Operação Nêmesis, no Rio Madeira, entre os distritos de Calama e São Carlos, em Porto Velho.
Durante a fiscalização, foram inutilizados 72 equipamentos e embarcações, além de 16 mil litros de óleo diesel. Os agentes também apreenderam três frascos de mercúrio e oito celulares.
Os resultados reforçam a dimensão do desafio, enfrentado pelos países amazônicos, de conter o avanço de redes criminosas que exploram os recursos naturais e ameaçam a segurança das populações locais, enquanto ampliam os danos ambientais na Amazônia.