Crime organizado na Amazônia ameaça povo indígena na fronteira entre Brasil e Peru

Ameaças contra lideranças ashaninka revelam como o crime organizado na Amazônia avança sobre terras indígenas e desafia a segurança na fronteira com o Peru.

A entrada de homens armados em uma comunidade ashaninka no Acre aumentou o alerta sobre a presença do crime organizado na Amazônia e sobre a vulnerabilidade da fronteira entre Brasil e Peru. O episódio ocorreu no início de julho, na aldeia Apiwtxa, localizada na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, próxima ao território peruano.

Segundo as lideranças locais, cinco homens encapuzados, armados com metralhadoras e falando espanhol invadiram a comunidade. O grupo procurava representantes indígenas e ameaçou moradores. Francisco Piyãko, uma das principais lideranças ashaninka, afirmou à agência Associated Press que os invasores pretendiam assassinar membros da organização comunitária.

Os ashaninka ocupam um território que se estende das regiões próximas aos Andes até o Alto Juruá, no Acre. As comunidades mantêm vínculos familiares, culturais e territoriais dos dois lados da fronteira. Mais de 100 mil integrantes do povo vivem no Peru, enquanto aproximadamente 1.500 estão em território brasileiro.

A ameaça à aldeia ocorre em um contexto de expansão de redes vinculadas ao tráfico de drogas, ao garimpo e à retirada ilegal de madeira. Essas atividades aproveitam a extensão territorial da floresta, as dificuldades de fiscalização e as diferenças entre as legislações nacionais para circular por áreas remotas e rios fronteiriços. O avanço do crime organizado na Amazônia amplia a pressão sobre comunidades indígenas e sobre territórios com pouca presença permanente do Estado.

Uma das principais rotas utilizadas é o corredor fluvial do Solimões. Por essa rede de rios, parte da cocaína produzida no Peru, na Colômbia e na Bolívia chega ao Brasil. A droga passa por Manaus e segue por outros corredores logísticos até portos do Atlântico, de onde pode ser enviada ao mercado europeu.

O ouro extraído ilegalmente também movimenta essas organizações. Após deixar áreas de mineração clandestina, o minério pode receber documentos que indicam uma origem regular e entrar nas cadeias formais de comercialização, exportação e produção de joias. Os recursos obtidos com essas atividades ajudam a financiar grupos criminosos e ampliam a circulação de armas na floresta.

Diante das ameaças, representantes ashaninka foram a Brasília em busca de proteção e de medidas permanentes para a região. Na sexta-feira (24), o Ministério dos Povos Indígenas anunciou um memorando de entendimento com o Ministério da Cultura do Peru para ampliar a cooperação na defesa dos territórios indígenas fronteiriços.

Negociado desde 2024, o acordo prevê o compartilhamento de informações e a coordenação de ações entre os dois países, com atenção especial às áreas ocupadas por povos indígenas isolados. A medida busca fortalecer uma atuação conjunta em uma região onde as redes criminosas operam além das fronteiras nacionais.

Brasil e Peru integram a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, ao lado de Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Suriname e Venezuela. Apesar dos mecanismos de diálogo regional, a cooperação na área de segurança ainda enfrenta limitações e fragmentações.

As lideranças ashaninka cobram ações concretas para proteger a população, os territórios e os direitos indígenas reconhecidos pelas legislações brasileira e peruana e por acordos internacionais. Para as comunidades, conter o crime organizado na Amazônia dependerá de uma resposta coordenada capaz de reforçar a fiscalização e impedir que grupos armados avancem sobre terras indígenas.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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