Levantamento da InfoAmazonia analisa despesas de 2023 a junho de 2026 e mostra como cinco estados distribuíram recursos para gestão ambiental, adaptação e uso da terra.
Os governos de Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso e Pará empenharam R$ 6,4 bilhões em investimentos na agenda climática entre 2023 e junho de 2026, segundo levantamento da InfoAmazonia. O valor corresponde, em média, a cerca de 1,3% do total empenhado pelas cinco administrações no período, enquanto outros R$ 475 bilhões foram destinados às demais despesas.
A análise reúne gastos com gestão ambiental e categorias ligadas à adaptação e ao uso da terra, como Defesa Civil, saneamento e assistência aos povos indígenas. Os dados mostram diferenças entre os estados tanto na participação dessas despesas no orçamento quanto nas áreas que concentraram os recursos.
O balanço oferece uma referência para acompanhar as políticas estaduais e os compromissos apresentados nas eleições de 2026. Durante a campanha, candidatos ligados às administrações analisadas incluíram nos planos de governo propostas de prevenção a desastres, combate ao desmatamento, transição energética e bioeconomia.
Os números, porém, retratam as despesas das gestões desde 2023. Por isso, incluem períodos anteriores à posse de candidatos que assumiram o comando estadual durante o mandato e não podem ser atribuídos integralmente a cada um deles.
Acre tem maior proporção e Amapá, a menor
O Acre apresentou a maior participação de investimentos na agenda climática entre os estados analisados: aproximadamente R$ 1 bilhão, equivalente a 2,6% dos R$ 38 bilhões empenhados no período. No Amapá, foram R$ 210 milhões, ou 0,6% de um total de R$ 36 bilhões.
A Defesa Civil recebeu quase R$ 440 milhões no Acre entre 2023 e junho de 2026. No primeiro semestre de 2026, foram empenhados R$ 84 milhões, correspondentes a 42% das despesas estaduais classificadas como climáticas naquele intervalo.
No Amazonas e no Pará, o saneamento concentrou, respectivamente, 55% e 45% dos recursos incluídos no levantamento. A área envolve serviços essenciais para estados que enfrentam dificuldades de acesso à água e de tratamento de esgoto.
Outras categorias tiveram pouca ou nenhuma destinação em determinados anos. Entre elas, o levantamento destaca a assistência aos povos indígenas no Amazonas. No Pará, a reforma agrária ficou sem recursos em três dos quatro anos analisados.
Compromissos de campanha oferecem referência para cobrança
Embora os investimentos na agenda climática tenham representado uma parcela pequena dos orçamentos analisados, os planos apresentados nas eleições de 2026 contemplaram diferentes propostas para a área. No Acre, Mailza Assis Cameli (PP) propôs fortalecer a Defesa Civil, prevenir enchentes, secas e queimadas e incentivar fontes renováveis. No Amapá, Clécio Luís (União) incluiu a industrialização de produtos da biodiversidade, a ampliação da energia solar e obras contra alagamentos e erosões.
No Amazonas, Roberto Cidade (União) apresentou medidas de monitoramento climático, sistemas de alerta e incentivo à bioeconomia. Em Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos) propôs digitalizar o licenciamento e o Cadastro Ambiental Rural, estimular tecnologias verdes e prevenir incêndios.
No Pará, Hana Ghassan (MDB) incluiu adaptação para comunidades vulneráveis, pagamentos por serviços ambientais e combate ao desmatamento e às queimadas. Os compromissos registrados permitem acompanhar quais medidas serão incorporadas às políticas estaduais e se haverá mudanças nos investimentos na agenda climática nos próximos orçamentos.
Prevenção ao El Niño teve pouco espaço nas campanhas
O monitoramento Barômetro, da consultoria FALA, identificou menções a estratégias de prevenção aos impactos do El Niño em apenas 14 das 1.182 candidaturas acompanhadas na Amazônia Legal, o equivalente a 1,2%. Entre os 14 nomes, cinco concorriam a governos estaduais.
O levantamento acompanhou contas de Instagram e X de candidaturas registradas na Justiça Eleitoral. O resultado retrata a presença do tema nas publicações monitoradas, sem abranger necessariamente todos os compromissos ou ações dos candidatos.
Ouvido pela InfoAmazonia, o cientista político Ivan Silva, da Universidade Federal do Amapá, avaliou que os candidatos exploravam pouco a questão ambiental porque ela não vinha se mostrando decisiva nas urnas. Para Luci Maria Teston, professora da Universidade Federal do Acre, saúde, segurança, emprego, infraestrutura e produção rural tinham maior peso nas campanhas e nas decisões dos eleitores.
O que entra na conta dos gastos climáticos
Para calcular os investimentos na agenda climática, a InfoAmazonia considerou todos os gastos da função Gestão Ambiental, que abrange preservação, controle ambiental, recuperação de áreas degradadas, recursos hídricos e meteorologia.
A análise acrescentou nove subfunções ligadas à adaptação e ao uso da terra: Defesa Civil, Saneamento Básico Rural, Saneamento Básico Urbano, Ordenamento Territorial, Conservação de Energia, Reforma Agrária, Extensão Rural, Serviços Urbanos e Assistência aos Povos Indígenas.
Os dados de 2023 a 2025 vieram do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), do Tesouro Nacional, por meio da Base dos Dados. Para 2026, foram utilizados os Relatórios Resumidos da Execução Orçamentária dos estados referentes ao terceiro bimestre, com informações até junho.
O percentual foi calculado pela divisão das despesas selecionadas pelo total empenhado, excluindo despesas intraorçamentárias e linhas de totalização para evitar dupla contagem. Empenho é o compromisso orçamentário assumido pelo poder público e não significa, necessariamente, que o valor já foi pago.
A classificação reúne despesas que também atendem a outras necessidades públicas. Assim, o indicador mostra o peso das categorias selecionadas no orçamento, mas não mede, isoladamente, a qualidade ou o conjunto das políticas climáticas estaduais.