O Polo Industrial de Manaus reúne empresas, universidades, institutos, recursos de PD&I e problemas concretos à espera de solução. O próximo avanço depende de transformar encontros ocasionais em uma política permanente de cooperação, com metas, prazos e resultados medidos nas fábricas e na economia regional.
O Amazonas precisa enfrentar uma contradição com serenidade e urgência. Nas últimas décadas, formamos universidades, ampliamos a pós-graduação, instalamos institutos de ciência e tecnologia, qualificamos profissionais e construímos um dos maiores parques industriais do país. Também criamos, por meio da Lei de Informática da Zona Franca de Manaus, uma fonte contínua de recursos para pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Ainda assim, a aproximação entre academia e setor produtivo permanece aquém das necessidades do Polo Industrial de Manaus. Há experiências valiosas e resultados expressivos, mas também dispersão, descontinuidade e pouca visibilidade. Muitas vezes, a universidade desconhece o problema tecnológico da linha de produção; a empresa ignora a competência científica disponível a poucos quilômetros; e o poder público não consegue reunir esses atores em torno de prioridades regionais duradouras.
Os números dimensionam essa oportunidade. Segundo indicadores preliminares da Suframa, as obrigações de investimento em PD&I previstas na Lei nº 8.387 chegaram a R$ 1,58 bilhão em 2024, crescimento acumulado de 36% desde 2020. Foram executados 410 projetos, com 185 protótipos, 130 processos inovadores, 367 programas de computador, 37 produtos, 32 depósitos de patentes no Brasil e no exterior e mais de 30 mil profissionais formados ou capacitados.
São resultados relevantes, mas suscitam uma pergunta: quanto desse esforço se converteu em tecnologia incorporada à produção, empresas de base tecnológica, propriedade intelectual explorada no Amazonas, fornecedores locais mais fortes e menor dependência externa?
O desafio começa depois do convênio
Em 2024, cerca de 73% dos investimentos declarados foram executados em projetos com instituições científicas e tecnológicas, o equivalente a aproximadamente R$ 1,12 bilhão. A ponte formal existe. A questão é a qualidade da travessia.
Um convênio atende a uma exigência administrativa. Uma parceria tecnológica madura resolve problemas, acumula competências e deixa capacidade instalada na região. Essa diferença deveria orientar a próxima etapa da política de inovação do PIM.
As empresas trabalham com ciclos curtos e pressão por custos, produtividade, qualidade e lançamento de produtos. As universidades seguem calendários acadêmicos, regras públicas, processos de contratação e critérios de avaliação ligados a publicações e formação. Também há entraves relacionados ao sigilo industrial, à propriedade intelectual, à prestação de contas e ao tempo de aprovação dos projetos.
Nada disso é insolúvel. São necessários interlocutores permanentes, contratos claros, governança compartilhada e equipes capazes de traduzir a necessidade da fábrica em pergunta de pesquisa e o conhecimento científico em aplicação industrial.
Há ainda uma assimetria recorrente. Grandes companhias contam com departamentos técnicos, jurídicos e financeiros para formular projetos e acessar recursos. Pequenas e médias indústrias, fornecedores locais e empreendedores da bioeconomia quase sempre têm menos estrutura. Sem portas específicas para esses atores, parte importante do tecido produtivo ficará fora da transformação tecnológica.
Os bons exemplos mostram o caminho
O Amazonas já possui experiências que comprovam a viabilidade dessa cooperação. A parceria entre a Samsung e a Universidade do Estado do Amazonas sustenta iniciativas como o Samsung Ocean e a Academia STEM. A UEA informa que o Ocean, inaugurado em 2014, já qualificou mais de 71 mil pessoas em mais de três mil atividades, combinando formação tecnológica, empreendedorismo e criação de startups.
Na Universidade Federal do Amazonas, a renovação da cooperação com a Samsung abriu quatro projetos que unem inteligência artificial, dispositivos vestíveis e saúde, com aplicações no acompanhamento de diabetes, Alzheimer, Parkinson e pacientes cirúrgicos. O exemplo conecta computação, engenharia, medicina e hospital universitário a tecnologias presentes no mercado.
Outra pesquisa da Ufam desenvolveu e validou, em uma linha de montagem de rádios automotivos do PIM, um sistema inteligente de controle do estoque em processo. A solução reuniu simulação computacional, sensores, microcontroladores e dispositivos mecânicos para enfrentar gargalos reais de produtividade. Esse é o tipo de relação que interessa ao Amazonas: um problema industrial chega à universidade, mobiliza pesquisadores e estudantes e retorna à fábrica como solução testada.
Mais recentemente, o CIEAM e o Polo de Inovação do IFAM iniciaram um mapeamento conjunto de laboratórios, competências, automação e processos industriais. A iniciativa começa por uma providência essencial: conhecer a infraestrutura disponível e aproximá-la das demandas das empresas.
Esses casos precisam deixar de ser ilhas. A cooperação não pode depender apenas da disposição de um professor, executivo ou gestor universitário. Quando essas pessoas mudam de função, projetos promissores muitas vezes perdem ritmo. A relação deve pertencer às instituições.
O PIM precisa apresentar seus problemas
Uma agenda prática poderia começar com um inventário público e atualizado das competências existentes na Ufam, UEA, IFAM, Inpa, Senai e demais instituições credenciadas. Laboratórios, pesquisadores, equipamentos, linhas de pesquisa, patentes, serviços tecnológicos e projetos disponíveis precisam ser apresentados às empresas em linguagem objetiva.
O setor produtivo deve organizar uma carteira de desafios tecnológicos do PIM. Automação acessível, inteligência artificial aplicada à manufatura, eficiência energética, armazenamento de energia, novos materiais, logística durante as secas, reciclagem, rastreabilidade, redução de resíduos, cibersegurança, aproveitamento da biodiversidade e formação de fornecedores são alguns dos campos prioritários.
Cada desafio deve ter empresa interessada, instituição executora, orçamento, cronograma, indicador e possibilidade de escala.
Um fórum permanente, coordenado por uma governança que reúna empresas, universidades, institutos, Suframa e governo estadual, poderia acompanhar essa carteira. O encontro anual ajuda a divulgar resultados, mas a cooperação tecnológica amadurece com reuniões técnicas frequentes, decisões documentadas e correção de rumos.
Também é necessário medir o que importa. Além do volume aplicado e do número de cursos ou projetos, devemos acompanhar tecnologias adotadas, economia gerada, produtividade alcançada, patentes licenciadas, startups que chegaram ao mercado, fornecedores incorporados às cadeias do PIM, pesquisadores contratados e empregos qualificados criados no Amazonas.
Tecnologia também é uma política de permanência
Durante muito tempo, tratamos a tecnologia como dimensão complementar do modelo. Ela se tornou condição de permanência. A indústria mundial avança em inteligência artificial, robótica, manufatura aditiva, gêmeos digitais, novos materiais, sistemas autônomos e descarbonização. O PIM concorre em cadeias globais nas quais produtividade, velocidade e domínio tecnológico pesam tanto quanto custo e escala.
O Amazonas dispõe de um patrimônio singular para responder a essa transição: parque fabril diversificado, conhecimento científico sobre a floresta, instituições de ensino e pesquisa, incentivos legais e recursos regulares de PD&I. Poucas regiões brasileiras reúnem esses elementos. Falta fazê-los trabalhar como sistema.
Essa integração também deve alcançar o interior. Formação tecnológica, soluções para cadeias agroindustriais, piscicultura, manejo florestal, energia descentralizada, conectividade e processamento de produtos da biodiversidade podem ampliar os benefícios do conhecimento para além de Manaus. A aproximação entre academia e economia ganha sentido regional quando ajuda a produzir renda onde vivem as populações e onde estão os recursos que desejamos valorizar com a floresta em pé.
O próximo salto do Polo Industrial de Manaus será construído menos pela multiplicação de discursos sobre inovação e mais pela capacidade de organizar problemas, competências e recursos em torno de missões comuns. A base já existe: há dinheiro, pesquisadores, empresas, laboratórios e experiências bem-sucedidas. A urgência é transformar essa soma de ativos em uma estratégia compartilhada, contínua e verificável.
Depois de quase seis décadas de industrialização, o Amazonas não pode aceitar que academia e fábrica continuem se encontrando apenas em projetos isolados. Elas precisam planejar, assumir riscos e avaliar resultados juntas. Dessa relação cotidiana poderá surgir um PIM mais produtivo, autônomo e capaz de gerar tecnologia amazônica para o Brasil e o mundo.