O revés político de Donald Trump reacende a esperança de reconstrução democrática nos Estados Unidos e de recuperação do multilateralismo. Para o Brasil e a Amazônia, o desafio é transformar essa possibilidade em cooperação, desenvolvimento sustentável e respeito à soberania dos povos.
Coluna Follow-Up
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos recolocam uma questão fundamental no centro da política internacional: até onde pode avançar um projeto de poder quando a sociedade e suas instituições decidem estabelecer limites?
O resultado eleitoral representa uma contestação importante ao governo de Donald Trump e à orientação política que marcou sua trajetória. Mais do que uma disputa entre democratas e republicanos, expressa a capacidade de reação de uma sociedade diante de práticas de governo que aprofundaram divisões internas, produziram insegurança internacional e submeteram princípios de convivência democrática à lógica permanente do confronto.
A reação merece ser saudada. Mas seria um equívoco depositar as esperanças de reconstrução na possibilidade de uma conversão democrática do próprio presidente norte-americano.
A democracia não pode depender da conversão de seus adversários
A trajetória pública de Donald Trump oferece escassos fundamentos para esperar uma mudança substantiva de comportamento. Seu exercício da liderança política tem sido marcado pela personalização do poder, pela hostilidade aos mecanismos de controle institucional, pelo nacionalismo confrontacional e pela utilização da pressão econômica como instrumento de imposição internacional.
Não há, em seu percurso, demonstrações consistentes de compromisso com a fraternidade entre os povos, com a cooperação internacional como princípio de desenvolvimento ou com o multilateralismo como expressão de responsabilidade compartilhada.
Esperar que uma derrota eleitoral produza espontaneamente essa transformação seria substituir a análise política por uma expectativa sem sustentação histórica.
A contribuição que Trump poderá oferecer à reconstrução democrática será, portanto, predominantemente involuntária. Seus excessos, suas contradições e a resistência que despertam podem fortalecer a consciência pública sobre a necessidade de preservar instituições, ampliar mecanismos de fiscalização e impedir que a autoridade presidencial se converta em poder sem limites. É nessa capacidade de reação que reside a esperança.
A democracia dispõe de instrumentos para conter o autoritarismo sem depender da disposição de seus protagonistas para reconhecer os próprios equívocos. O Congresso, o Judiciário, a imprensa independente, as organizações da sociedade civil e, sobretudo, os cidadãos constituem os fundamentos dessa resistência.
O desafio norte-americano consiste em transformar a reação eleitoral em reconstrução institucional duradoura.
A grandeza de uma democracia está em sua capacidade de corrigir os próprios desvios
A história dos Estados Unidos reúne conquistas extraordinárias e contradições profundas. A tradição constitucional, a defesa das liberdades individuais, os movimentos pelos direitos civis, a independência judicial e a vitalidade de suas universidades e instituições científicas contribuíram decisivamente para a formação do mundo contemporâneo.
Essa história também foi atravessada pela escravidão, pela segregação racial, pela violência contra povos indígenas e por intervenções internacionais incompatíveis com os princípios de autodeterminação que o próprio país ajudou a difundir.
A experiência democrática norte-americana deve ser compreendida à luz dessas contradições.
Sua contribuição civilizatória mais importante talvez esteja na capacidade de produzir mecanismos de correção, reconhecer direitos anteriormente negados e permitir que a sociedade questione seus governantes.
O resultado das eleições de novembro poderá representar uma nova manifestação dessa capacidade histórica.
Entretanto, a recuperação do equilíbrio entre os poderes não será suficiente se não vier acompanhada de respostas às dificuldades econômicas e sociais que alimentam o ressentimento político, a radicalização ideológica e a desconfiança nas instituições.
A democracia precisa demonstrar que pode melhorar a vida das pessoas, reduzir desigualdades, oferecer oportunidades e recuperar a confiança no futuro.
O mundo precisa reencontrar o caminho da cooperação
A comunidade internacional acompanha esse processo com uma expectativa que ultrapassa as fronteiras norte-americanas.
O unilateralismo, as ameaças tarifárias, a instrumentalização de relações comerciais e a desconfiança em relação às instituições multilaterais produziram um ambiente de instabilidade que compromete investimentos, enfraquece compromissos internacionais e dificulta a construção de respostas coletivas.
Nenhuma potência, por mais expressiva que seja sua capacidade econômica, tecnológica ou militar, dispõe de condições para enfrentar isoladamente os grandes desafios contemporâneos.
As mudanças climáticas, a insegurança alimentar, os deslocamentos populacionais, as crises sanitárias, a transformação tecnológica e a proteção da biodiversidade exigem cooperação, solidariedade e responsabilidade compartilhada.
O multilateralismo representa uma conquista civilizatória precisamente porque reconhece a necessidade de estabelecer regras de convivência entre países com interesses, capacidades e histórias diferentes.
Não se trata de ignorar as insuficiências das organizações internacionais. A ONU necessita de reformas, os mecanismos de financiamento climático permanecem aquém das necessidades e a participação dos países em desenvolvimento continua limitada em importantes espaços de decisão.
Essas dificuldades exigem aperfeiçoamento, representatividade e compromissos efetivos.
A recuperação do multilateralismo dependerá menos de eventuais mudanças de disposição pessoal de Donald Trump e mais da capacidade das sociedades democráticas, dos parlamentos e das lideranças internacionais de estabelecer limites ao unilateralismo e reconstruir espaços de negociação.
A paz e a cooperação precisam voltar a ocupar o centro da diplomacia.
O Brasil e a responsabilidade de construir pontes
Nesse cenário, que inclui a aclamação democrática da comunidade internacional em torno das eleições no Brasil, o país empresta condições singulares para contribuir com a reconstrução do diálogo internacional.
Nossa experiência democrática recente demonstrou a importância da resistência institucional, da legitimidade eleitoral e da preservação da ordem constitucional diante de movimentos que questionaram seus fundamentos.
Essa experiência autoriza indiretamente atribuir ao Brasil influência saudável sobre o resultado das eleições norte-americanas. E permite reconhecer uma convergência histórica entre sociedades que enfrentam os riscos da radicalização política e procuram reafirmar a legitimidade das instituições democráticas.
A contribuição brasileira se destacou ainda mais relevante no campo diplomático.
A tradição de negociação, a defesa da solução pacífica de controvérsias, o compromisso com a autodeterminação dos povos e a disposição para dialogar com países de diferentes orientações políticas constituem ativos importantes de nossa política externa.
A participação brasileira no G20, no BRICS, nas Nações Unidas e nas negociações climáticas oferece oportunidades para defender uma ordem internacional mais equilibrada, inclusiva e cooperativa.
O Brasil pode contribuir para aproximar agendas frequentemente apresentadas como incompatíveis: crescimento econômico e proteção ambiental, soberania nacional e cooperação internacional, desenvolvimento tecnológico e inclusão social.
Essa contribuição exige autonomia diplomática, consistência institucional e capacidade de transformar compromissos em resultados.
A defesa do multilateralismo será tanto mais convincente quanto maior for nossa capacidade de praticá-lo, respeitando diferenças, construindo consensos e oferecendo soluções concretas.
A Amazônia como território de uma nova cooperação
Para a economia da Amazônia, a possibilidade de reconstrução do diálogo internacional possui um significado especialmente importante.
A Amazônia reúne condições extraordinárias para demonstrar que a cooperação entre os povos pode produzir resultados simultaneamente econômicos, sociais, científicos e ambientais.
A maior floresta tropical do planeta constitui um patrimônio natural de relevância mundial, mas também um território habitado por milhões de brasileiros que reivindicam oportunidades de desenvolvimento, infraestrutura, educação, saúde, segurança e acesso aos benefícios da modernidade.
Nesse contexto, há 60 anos, uma indústria marcada pelo crivo da sustentabilidade tomou forma, identidade e responsabilidade Para gerar empregos, Oportunidades e efetividade na proteção florestal. Uma escolha que busca caminhar ao lado da valorização das populações que nela vivem.
A experiência acumulada nas negociações climáticas, especialmente no processo recente da COP30, realizada em Belém, oferece uma base para ampliar os compromissos internacionais de financiamento, pesquisa científica, transferência tecnológica e valorização dos serviços ambientais.
O desafio consiste em transformar esses compromissos em investimentos concretos, capazes de fortalecer cadeias produtivas sustentáveis, ampliar a presença da ciência e gerar oportunidades econômicas no interior da região.
A floresta em pé precisa constituir uma alternativa economicamente consistente, socialmente inclusiva e ambientalmente responsável.
No Amazonas, essa perspectiva se consolida e encontra uma base importante na experiência da Zona Franca de Manaus. Sua estrutura industrial, tecnológica e de geração de empregos contribui para uma nova era de desenvolvimento regional, articulando indústria, universidades, institutos de pesquisa, bioeconomia e produção sustentável.
O adensamento das cadeias produtivas, a incorporação de matérias-primas regionais, a valorização da biodiversidade e a ampliação da infraestrutura de conhecimento são caminhos para aproximar a economia industrial das oportunidades oferecidas pela floresta.
A cooperação internacional poderá acelerar esse processo, desde que respeite a soberania brasileira e reconheça o protagonismo das instituições, empresas, pesquisadores e comunidades amazônicas.
A Amazônia precisa participar da definição de seu próprio futuro.
Novos ares dependem de novas responsabilidades
A reação democrática nos Estados Unidos oferece motivos para esperança, mas não elimina as forças políticas, econômicas e culturais que sustentaram a ascensão do trumpismo.
O resultado eleitoral poderá limitar iniciativas do governo, ampliar a fiscalização institucional e reduzir o espaço político para decisões unilaterais. Não assegura, entretanto, uma mudança imediata na orientação internacional de Washington.
A reconstrução da confiança será gradual e dependerá de compromissos que ultrapassem disputas partidárias.
Para a comunidade internacional, a prioridade deve ser fortalecer as instituições de cooperação, recuperar a previsibilidade das relações diplomáticas e reconhecer que a segurança e a prosperidade de cada país estão profundamente associadas ao destino coletivo da humanidade.
O Brasil tem responsabilidades e oportunidades nesse processo.
Nossa contribuição poderá ser decisiva na defesa de uma diplomacia orientada pela paz, pela sustentabilidade, pela cooperação científica e pelo respeito à soberania das nações.
Para a Amazônia, abre-se a perspectiva de respirar novos ares, desde que essa esperança seja acompanhada de políticas públicas, investimentos, inovação e compromissos efetivos com o desenvolvimento regional.
A mensagem mais importante das urnas norte-americanas provavelmente esteja na reafirmação de um princípio essencial: as sociedades democráticas não precisam esperar que os governantes mudem de convicção para estabelecer limites ao poder e corrigir os rumos da história.
A humanidade necessita de instituições capazes de conter os excessos, lideranças comprometidas com o diálogo e mecanismos internacionais que transformem interesses divergentes em responsabilidades compartilhadas.
A Amazônia, com sua extraordinária biodiversidade, sua riqueza cultural e seu potencial científico e produtivo, pode tornar-se um dos grandes territórios de demonstração dessa nova responsabilidade civilizatória.
Que a democracia recupere seu vigor, que o multilateralismo reencontre sua força e que a Amazônia seja reconhecida como espaço de construção de um futuro comum, no qual a floresta em pé e a dignidade humana sejam fundamentos inseparáveis do desenvolvimento.
A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br