“Reconhecido internacionalmente, pesquisador do Inpa construiu uma trajetória que aproxima o conhecimento sobre os peixes da proteção da floresta, da segurança alimentar e das decisões sobre o futuro da região”
Anotações de Alfredo Lopes
O The Guardian destacou, em reportagem de Mac Margolis publicada neste 3 de novembro, as pesquisas de Adalberto Luís Val sobre peixes e mudanças climáticas. (theguardian.com) A atenção internacional oferece uma boa ocasião para observar, a partir da própria Amazônia, a dimensão de um trabalho construído durante décadas, com investigação, formação de pesquisadores e participação na vida das instituições científicas.
Há uma contribuição especialmente importante nessa trajetória. Ao estudar como os peixes vivem, respiram e respondem às alterações do ambiente, Val ajuda a compreender as condições que sustentam a biodiversidade amazônica e os limites de sua capacidade de adaptação. São conhecimentos com consequências para a conservação, a produção de alimentos e a vida de populações que dependem dos rios. A pesquisa básica, conduzida com persistência, alcança questões muito concretas do desenvolvimento regional. (gov.)
A escolha de dar visibilidade a esse trabalho merece reconhecimento. Na cobertura internacional da Amazônia, há espaço para ampliar a presença dos pesquisadores que vivem na região, acompanham suas transformações e produzem conhecimento a partir dela. Adalberto pertence a essa comunidade cuja contribuição precisa participar, com mais regularidade, tanto do debate público quanto das decisões de governo.
Uma trajetória enraizada em Manaus
Natural de Campinas, Adalberto chegou a Manaus em 1981, ao lado da pesquisadora Vera Maria Fonseca de Almeida-Val. No Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, realizou o mestrado e o doutorado em Biologia de Água Doce e Pesca Interior. Ingressou como servidor em 1982 e, com Vera, fundou o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular, que se tornaria uma referência no estudo dos peixes amazônicos. (abc.org.br)
Mencionar essa parceria permite compreender melhor a natureza de seu percurso. A construção de um laboratório envolve perguntas científicas, equipamentos, equipes e sucessivas gerações de estudantes. Seu alcance depende da continuidade do trabalho e da capacidade de compartilhar métodos, formar pessoas e manter a investigação em movimento.
Val também assumiu responsabilidades na gestão dessa estrutura. Dirigiu o Inpa entre 2006 e 2014 e coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Adaptações da Biota Aquática da Amazônia, o INCT Adapta. Suas áreas de atuação abrangem a qualidade ambiental, a ecotoxicologia e o uso sustentável dos recursos naturais, com uma conexão permanente entre o estudo dos organismos e os ambientes que os sustentam. (abc.org.br)
O que a vida dos peixes permite compreender
A especialidade de Val, a ecofisiologia, investiga como o funcionamento dos organismos se relaciona com as condições ambientais. Na Amazônia, isso significa estudar animais expostos a diferenças de temperatura, acidez e disponibilidade de oxigênio, dentro de uma dinâmica de cheias e vazantes que modifica os lugares de alimentação, reprodução e deslocamento.
Em revisão científica publicada com Chris Wood no Journal of Experimental Biology, Val examina como o aquecimento e outras pressões humanas podem alterar esse conjunto de condições. Os efeitos se combinam, e as respostas variam entre as espécies. A capacidade de sobreviver em águas naturalmente difíceis não representa uma garantia diante da intensidade e da velocidade das mudanças em curso. (journals.biologists.com)
Esse cuidado com as diferenças biológicas é essencial. A expressão “resiliência da Amazônia” pode sugerir uma resistência uniforme, quando cada organismo tem limites próprios e depende de relações particulares com seu habitat. Conhecer esses limites ajuda a avaliar vulnerabilidades que uma observação geral da paisagem dificilmente revelaria.
No Inpa, experimentos em ambientes controlados permitem investigar essas respostas. As instalações conhecidas como microcosmos simulam condições climáticas projetadas, possibilitando acompanhar seus efeitos sobre os organismos. Em 2014, a Fapeam já divulgava resultados preliminares do INCT Adapta indicando alterações no crescimento do tambaqui em cenários mais severos. A questão também alcança a piscicultura, a produtividade e o planejamento de uma atividade importante para a região. (fapeam.am.gov.br)
A floresta também depende de suas águas
Uma das consequências mais fecundas dessa abordagem é ampliar o entendimento da proteção florestal. Em texto conjunto, Adalberto e Vera explicam que peixes dispersores de sementes participam da manutenção da floresta e que mudanças em suas populações podem comprometer essas relações. Também mostram como a fragmentação dos ambientes e a perda de diversidade genética podem reduzir a capacidade de adaptação das espécies. (sbpcnet.org.br)
Para a gestão ambiental, a implicação é relevante. Proteger a floresta exige considerar a integridade dos rios, dos lagos e das áreas inundáveis, incluindo as conexões que permitem a circulação da vida. Uma política de conservação ganha precisão quando acompanha, além da cobertura vegetal, as condições dos ambientes aquáticos e das populações que deles dependem.
Essa é uma leitura prática do conhecimento produzido por Val e seus colaboradores. O monitoramento da temperatura e do oxigênio, a avaliação de contaminantes e o estudo das respostas biológicas podem orientar prioridades de pesquisa, prevenção e manejo. Sua aplicação exige equipes, séries de dados e diálogo com quem vive e trabalha nesses territórios.
Há também uma dimensão humana inseparável. Em entrevista ao CNPq, Val relacionou a escassez e a perda de qualidade dos peixes aos efeitos sobre a cultura, a economia e a saúde na Amazônia. Quando uma população de peixes é afetada, as consequências alcançam a alimentação, a renda e a continuidade de práticas que organizam a vida comunitária. (gov.br)
Um reconhecimento mundial com raízes coletivas
Em 2026, Adalberto tornou-se o primeiro brasileiro contemplado com a Medalha Le Cren, concedida pela Fisheries Society of the British Isles. A distinção reconhece contribuições duradouras para o conhecimento, a conservação e a compreensão pública dos peixes. Sua trajetória também reúne o Award of Excellence da American Fisheries Society, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Prêmio Fundação Bunge, na categoria Vida e Obra. (abc.org.br, twas.org)
O reconhecimento expressa uma atuação que circula entre diferentes instituições e países sem perder sua base amazônica. Val integra a TWAS, academia mundial de ciências voltada ao avanço científico nos países em desenvolvimento, e mantém colaboração internacional em pesquisa e formação. (twas.org)
No Painel Científico para a Amazônia, participou como autor principal dos relatórios de avaliação de 2021 e 2025 e de um documento dedicado à saúde e à conectividade dos ecossistemas de água doce. Essa atuação aproxima a pesquisa especializada das discussões sobre políticas públicas, conservação e sustentabilidade. (sp-amazon.org)
Ao comentar a Medalha Le Cren ao CNPq, o próprio pesquisador ressaltou o caráter coletivo da conquista, envolvendo estudantes, colegas, colaboradores e instituições. Dezenas de pesquisadores passaram por sua orientação. Essa formação constitui uma parte decisiva de seu legado, pois amplia a capacidade de a Amazônia formular suas perguntas e produzir as respostas de que necessita. (gov.br)
Conhecimento como condição de futuro
A trajetória de Adalberto Luís Val oferece conteúdo concreto ao debate sobre sustentabilidade. Seus estudos ajudam a reconhecer dependências ecológicas, avaliar riscos e compreender por que a proteção da biodiversidade exige decisões apoiadas em conhecimento. Também permitem enxergar os acervos de vida da Amazônia em sua complexidade, com funções, relações e possibilidades que ainda estamos aprendendo a conhecer.
O reconhecimento internacional dessa contribuição deveria encontrar correspondência na continuidade do apoio à ciência realizada na região. Laboratórios precisam de manutenção, pesquisadores precisam de condições de trabalho e estudantes precisam encontrar perspectivas para permanecer. A cooperação com instituições de outros países ganha alcance quando fortalece essa capacidade local.
Ao longo de mais de quatro décadas, Adalberto ajudou a construir, em Manaus, uma comunidade científica capaz de contribuir para questões de interesse mundial. Há muito a reconhecer nessa permanência. Parte do futuro da floresta depende de podermos compreendê-la com mais profundidade, enquanto seus rios, suas espécies e suas relações ecológicas ainda conservam a possibilidade de continuar existindo.