Mais do que um novo conceito, começa a ganhar forma uma nova maneira de compreender a relação entre conservação ambiental, ciência e desenvolvimento industrial na Amazônia.
Coluna Follow-Up
No desafio da construção do futuro, há momentos em que uma ideia nasce silenciosamente. Durante algum tempo, ela parece apenas mais um projeto, uma pesquisa ou uma experiência localizada. Até que, pouco a pouco, torna-se evidente que algo maior está em construção.
É muito possível que estejamos vivendo um desses momentos.
Nos últimos anos, a Amazônia passou a produzir um volume expressivo de conhecimento sobre carbono, biomassa, biodiversidade, recursos hídricos, regulação climática e serviços ecossistêmicos. O avanço da pesquisa científica ampliou significativamente a compreensão sobre as funções que a floresta desempenha para o equilíbrio ambiental, a economia e a qualidade de vida.
Ao mesmo tempo, esse novo conhecimento passou a dialogar com instrumentos econômicos e jurídicos, como os Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA), os mercados ambientais e as políticas voltadas à mitigação das mudanças climáticas.
Cada uma dessas iniciativas possui importância própria. Entretanto, observadas em conjunto, começam a apontar para uma direção mais ampla.
Os sinais indicam o nascimento de uma nova economia
Não uma economia baseada apenas na comercialização de créditos de carbono, nem restrita aos mecanismos tradicionais de compensação ambiental. Uma economia capaz de reconhecer, mensurar e valorizar os serviços ambientais produzidos por modelos de desenvolvimento que mantêm a floresta viva, funcional e produtiva.
Nesse contexto, a Amazônia oferece uma singularidade que dificilmente encontra paralelo em qualquer outra região do planeta.
Poucos territórios reúnem, simultaneamente, uma das maiores florestas tropicais do mundo e um parque industrial de alta complexidade tecnológica.
Durante décadas, esses dois universos foram apresentados como incompatíveis. A indústria aparecia como uma necessidade econômica. A floresta, como um patrimônio a ser protegido.
A experiência amazônica, entretanto, começa a sugerir uma leitura mais sofisticada.
Ao concentrar emprego, renda, tecnologia e arrecadação em um espaço urbano relativamente reduzido, o Polo Industrial de Manaus contribui para reduzir a pressão econômica sobre milhões de hectares de floresta. Essa floresta preservada continua produzindo água, regulando o clima, armazenando carbono, protegendo a biodiversidade e sustentando processos ecológicos que beneficiam muito além da Amazônia.
Floresta, Ciência e Indústria deixam, assim, de ser agendas paralelas para formar uma mesma arquitetura de desenvolvimento.
É justamente dessa reflexão que nasce uma proposta aberta ao debate.
Economia dos Serviços Ambientais Industriais
O conceito procura reunir duas agendas que, durante muito tempo, caminharam separadamente. De um lado, a produção industrial, a inovação tecnológica e a competitividade econômica. De outro, os serviços ambientais produzidos pela floresta amazônica.
Essa aproximação não pretende substituir conceitos consolidados nem reivindicar protagonismos exclusivos. Seu propósito é abrir uma nova agenda de pesquisa, governança, inovação e desenvolvimento, capaz de responder a uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, estratégica.
Como reconhecer o valor ambiental produzido por modelos industriais que contribuem para manter a floresta em pé?
Responder a essa pergunta exigirá ciência, indicadores, métricas, certificações, segurança jurídica e amplo diálogo institucional.
Os primeiros passos dessa agenda já começam a ser dados. Projetos desenvolvidos com a participação da SUFRAMA, do CIEAM, de universidades, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil vêm estimulando estudos e metodologias voltados à mensuração dos serviços ambientais associados ao desenvolvimento amazônico. Ainda são iniciativas em construção, mas revelam uma convergência institucional que merece ser acompanhada.
Nenhuma instituição construirá esse caminho sozinha
Será necessária a participação das universidades, dos centros de pesquisa, do setor produtivo, das organizações da sociedade civil, dos governos, dos organismos internacionais e das empresas que desejem compreender e demonstrar sua contribuição para um modelo de desenvolvimento ambientalmente responsável.
Mais do que uma nova expressão, estamos diante da construção de um novo campo do conhecimento.
Um campo em que a ciência produz as evidências, a floresta oferece os serviços ambientais, a indústria demonstra que desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos e as instituições constroem os instrumentos capazes de transformar esse conhecimento em políticas públicas, investimentos e oportunidades.
Se essa trajetória se consolidar, a Amazônia poderá oferecer ao mundo algo muito mais valioso do que uma experiência regional bem-sucedida.
Poderá oferecer uma nova maneira de compreender a relação entre desenvolvimento, indústria e natureza.
E, quem sabe, sua maior contribuição ao século XXI não esteja apenas na riqueza de seus recursos naturais, mas na capacidade de demonstrar que prosperidade econômica e conservação ambiental podem deixar de ser objetivos concorrentes para se tornarem partes inseparáveis de uma mesma estratégia de desenvolvimento.
No próximo capítulo: Economia dos Serviços Ambientais Industriais – Um conceito em construção.
Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br