Aurélio Michiles, o cineasta que fez da memória uma forma de resistência

Do encontro com Glauber Rocha às denúncias sobre a violência na Amazônia e dos anos de chumbo da ditadura militar, o diretor amazonense construiu uma filmografia em que cinema, história e compromisso político permanecem inseparáveis. Seu novo longa, “Honestino”, reafirma uma trajetória que o situa entre os grandes documentaristas brasileiros

Por Alfredo Lopes

Há cineastas que constroem suas obras ao redor de um estilo. Outros escolhem um território, um conjunto de personagens ou um período histórico. Aurélio Michiles percorreu todos esses caminhos, mas o fio que atravessa sua filmografia é outro: a necessidade de impedir que o esquecimento complete o trabalho iniciado pela violência, pela censura e pelo abandono.

Nascido em Manaus, em 1952, Michiles deixou o Amazonas ainda jovem para estudar no Instituto de Artes e Arquitetura da Universidade de Brasília, entre 1970 e 1973. Mais tarde, estudou montagem no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e artes cênicas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Sua formação ocorreu em um dos períodos mais duros da ditadura militar, quando universidades, movimentos culturais e o próprio cinema brasileiro viviam sob vigilância, censura e perseguição. (Videobrasil)

Aurélio Michiles, o cineasta

Foi nessa atmosfera que o jovem amazonense se aproximou de uma geração de artistas para a qual filmar significava também intervir na realidade. Glauber Rocha tornou-se uma referência estética e intelectual decisiva. O Cinema Novo, as experiências documentais latino-americanas e as discussões sobre colonialismo, dependência econômica e identidade cultural ajudaram a formar o olhar de um diretor que jamais trataria a câmera como instrumento neutro.

Em Michiles, o cinema nasce do incômodo diante das histórias que o poder prefere manter fora de quadro.

A região amazônica ocupa um lugar central em sua obra, mas aparece distante do exotismo que durante décadas condicionou sua representação no cinema e na televisão. Michiles procura observar a floresta a partir de seus conflitos, de seus povos e das forças econômicas que transformam território e natureza em mercadoria.

Em O Sangue da Terra, realizado na década de 1980, acompanhou a resistência do povo Sateré-Mawé diante das ameaças sobre seus territórios. Em A Agonia do Mogno, investigou o avanço da extração predatória de madeira e o funcionamento de uma cadeia econômica sustentada pela exploração ambiental.

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Esses trabalhos ajudaram a estabelecer uma perspectiva que permaneceria em seus filmes posteriores. A devastação da floresta não surge como episódio isolado. Ela integra um sistema histórico de apropriação territorial, violência contra povos indígenas, concentração econômica e apagamento cultural.

Essa investigação alcança uma de suas expressões mais densas em Segredos do Putumayo. O longa recupera os relatos do diplomata irlandês Roger Casement sobre o regime de escravidão, tortura e assassinato imposto a populações indígenas durante a exploração da borracha na fronteira entre Peru e Colômbia, no início do século XX.

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Baseado nos diários de Casement, o documentário reconstrói um modelo extrativista organizado sobre trabalho forçado e extermínio. A pesquisa e a realização do filme atravessaram aproximadamente 25 anos, sinal da persistência com que Michiles se dedica a histórias soterradas por interesses econômicos e conveniências diplomáticas. (Festival do Rio)

Segredos do Putumayo ultrapassa a reconstituição histórica. O filme examina a permanência de estruturas coloniais que ainda orientam grande parte das relações estabelecidas com a Amazônia. A borracha, a madeira, os minérios e outros recursos mudam de importância econômica ao longo do tempo, mas a disposição para explorar o território sem reconhecer plenamente os direitos de seus habitantes reaparece sob novas formas.

Ao recuperar essa história, Michiles insere a Amazônia no centro de uma discussão internacional sobre colonialismo, direitos humanos e responsabilidade histórica.

Outro eixo decisivo de sua filmografia é a memória da produção cinematográfica brasileira. Michiles dedicou parte expressiva de sua obra a personagens que filmaram, preservaram, exibiram e pensaram o cinema em condições frequentemente adversas.

Em Que Viva Glauber!, de 1991, revisitou a obra e o pensamento de Glauber Rocha, cineasta que modificou profundamente a linguagem do cinema brasileiro e sua relação com a política. Michiles não construiu apenas um retrato biográfico. Procurou compreender a energia criativa, as contradições e a radicalidade intelectual de um artista que via o cinema como interpretação do país.

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Poucos anos depois, realizou O Cineasta da Selva, dedicado a Silvino Santos, um dos pioneiros do registro cinematográfico da Amazônia. No início do século XX, Silvino transportou equipamentos pesados por rios e florestas, revelando uma região ainda pouco conhecida pelas imagens em movimento.

Ao contar sua história, Michiles recuperou também um capítulo fundamental da formação visual da Amazônia. Antes que a televisão, os satélites e as plataformas digitais multiplicassem imagens da floresta, Silvino Santos já tentava registrar sua vida econômica, social e cultural com os instrumentos disponíveis em sua época.

O filme aproxima dois cineastas separados por gerações, mas unidos pela mesma inquietação. Ambos compreenderam que filmar a Amazônia exige enfrentar distâncias geográficas, limitações técnicas e formas recorrentes de invisibilidade.

Em Tudo por Amor ao Cinema, Michiles voltou-se para Cosme Alves Netto, amazonense que dirigiu a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro entre 1965 e 1988. Cineclubista, programador e articulador cultural, Cosme protegeu filmes ameaçados pela censura e pela deterioração, ajudando a preservar parte relevante da memória audiovisual brasileira. (MAM Rio)

O documentário completa uma espécie de trilogia dedicada à própria história do cinema, formada também por Que Viva Glauber! e O Cineasta da Selva. Nela, Michiles observa três maneiras de enfrentar o desaparecimento: criar imagens, produzir pensamento e conservar aquilo que já foi filmado. (cinemaemovimento.com)

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Essa dimensão de sua obra ajuda a compreender por que o cinema, para ele, nunca se reduz ao filme concluído. O cinema depende de arquivos, salas de exibição, cinematecas, pesquisadores, técnicos, produtores e espectadores. Depende, sobretudo, de uma batalha cotidiana contra a precariedade e o esquecimento.

A passagem pela arquitetura também deixou marcas em sua maneira de observar espaços, cidades e instituições. Em Lina Bo Bardi, Michiles examinou o trabalho da arquiteta ítalo-brasileira responsável por obras como o Museu de Arte de São Paulo e o Sesc Pompeia.

A escolha de Lina dialoga com preocupações presentes em toda a sua filmografia. A arquiteta procurava aproximar o projeto moderno das formas populares de criação, valorizando objetos, técnicas e experiências culturais frequentemente desprezados pelas elites.

Em Teatro Amazonas, Michiles investigou um dos principais símbolos arquitetônicos do ciclo da borracha. O edifício aparece como expressão de riqueza e ambição cosmopolita, mas também como testemunho das contradições de uma economia que concentrou prosperidade em Manaus enquanto mantinha relações de exploração espalhadas pela floresta.

Seu olhar sobre a arquitetura não se limita à estética dos edifícios. Interessa-lhe o modo como cada construção incorpora uma época, uma estrutura social e uma determinada visão de mundo.

O enfrentamento ao autoritarismo acompanha Michiles desde sua formação. Seus filmes sobre conflitos sociais, disputas agrárias e personagens perseguidos pelo Estado situam a violência política brasileira dentro de uma história mais longa de desigualdade.

Em trabalhos como Brasil Caim e Davi contra Golias, o diretor observou conflitos em que a diferença de poder entre os envolvidos condiciona a própria possibilidade de justiça. O campo brasileiro surge como espaço marcado pela concentração fundiária, pela violência e pela dificuldade de acesso das populações vulneráveis às instituições do Estado.

Essa preocupação reaparece de maneira direta em Honestino, longa dedicado a Honestino Guimarães, estudante da Universidade de Brasília, dirigente estudantil e presidente da União Nacional dos Estudantes.

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Preso repetidas vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e permanece entre os desaparecidos políticos da ditadura. O filme combina documentos, cartas, poemas, imagens de arquivo, depoimentos de familiares e companheiros de militância com cenas interpretadas pelo ator Bruno Gagliasso. (Festival do Rio)

Estreado mundialmente no Festival do Rio, em outubro de 2025, Honestino terá lançamento comercial nos cinemas brasileiros em 13 de agosto de 2026. O filme devolve ao debate público uma história que ultrapassa a biografia individual de seu personagem. A ausência do corpo, a demora do Estado em reconhecer responsabilidades e a luta dos familiares por informação revelam como o desaparecimento político continua operando muito depois do fim formal da ditadura. (AdoroCinema)

Há também uma proximidade biográfica entre diretor e personagem. Michiles e Honestino passaram pela Universidade de Brasília em um momento de intensa repressão. Ambos pertenceram a uma geração que viu os espaços universitários serem invadidos e a liberdade de criação ser submetida ao controle policial.

Ao filmar Honestino, o cineasta revisita uma história nacional e, de algum modo, sua própria juventude.

Embora profundamente ligada à Amazônia, a obra de Aurélio Michiles nunca permaneceu restrita a uma classificação regional. Seus filmes partem de Manaus, dos rios, da floresta e de personagens amazônicos para tratar de questões centrais da experiência brasileira.

A violência contra os povos indígenas, o extrativismo predatório, a ditadura, os conflitos agrários, a fragilidade dos arquivos, a preservação do patrimônio e a resistência cultural compõem uma investigação continuada sobre a formação do paí

Sua Amazônia participa da história nacional. A exploração da borracha está ligada à industrialização mundial. A devastação do mogno envolve cadeias comerciais internacionais. A trajetória de Silvino Santos pertence à história do cinema. O Teatro Amazonas revela as contradições da modernização brasileira. Cosme Alves Netto conecta Manaus às cinematecas e aos movimentos cinematográficos da América Latina.

Esse movimento entre território e mundo talvez seja uma das principais singularidades de Michiles. Ele filma a Amazônia por dentro, conhecendo seus códigos e suas feridas, mas a coloca em diálogo com debates universais sobre memória, colonialismo, arte e liberdade.

Ao longo de mais de quatro décadas, construiu uma obra coerente sem se tornar repetitiva. Cada filme abre uma nova frente de investigação, embora todos pareçam responder à mesma inquietação: quem contará as histórias daqueles que foram empurrados para fora da narrativa oficial?

O reconhecimento de um cineasta não depende apenas da quantidade de filmes realizados ou da circulação alcançada por cada produção. Depende também da consistência com que sua obra atravessa o tempo e continua oferecendo instrumentos para compreender o presente.

Aurélio Michiles pertence a uma geração que precisou lutar para filmar, preservar arquivos, formar público e sustentar uma cinematografia nacional diante da censura, da instabilidade institucional e da escassez de recursos.

Sua contribuição permanece especialmente relevante porque une dimensões frequentemente separadas. Em seus filmes, a defesa da Amazônia encontra a defesa da democracia; a memória política se aproxima da preservação cinematográfica; a biografia individual conduz à investigação das estruturas sociais.

Michiles construiu, assim, uma obra que participa da história do documentário brasileiro e amplia a presença amazônica dentro dela.

Colocá-lo entre os grandes cineastas do país significa reconhecer mais do que a origem de um diretor nascido em Manaus. Significa compreender que parte importante do cinema brasileiro foi construída por um amazonense que fez da câmera uma ferramenta de pesquisa, testemunho e resistência.

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Depois de filmar Glauber Rocha, Silvino Santos, Cosme Alves Netto, Roger Casement e Honestino Guimarães, Aurélio Michiles reuniu uma constelação de personagens que enfrentaram, cada um à sua maneira, diferentes mecanismos de silêncio.

Ao preservá-los nas telas, preservou também uma parte essencial do Brasil.

Referências – Esta reportagem foi elaborada a partir de pesquisa em acervos da Cinemateca Brasileira, Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Festival do Rio, Itaú Cultural, Associação Cultural Videobrasil, Ancine, IMDb, Centro Técnico Audiovisual (CTAv), documentação histórica da Universidade de Brasília, relatórios de Roger Casement sobre o Putumayo, estudos sobre Silvino Santos e fontes documentais, entrevistas e registros públicos da trajetória de Aurélio Michiles, complementados por pesquisa e organização editorial do Brasil Amazônia Agora.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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