Mais importante que a disputa judicial da Zona Franca é a oportunidade de reconstruir os vínculos entre os polos econômicos do país, conectando indústria, biodiversidade, tecnologia e inteligência nacional em favor de um futuro comum.
Coluna Follow-Up
Porque o verdadeiro personagem desta prosa não é a Justiça. Não é a Fiesp. Não é a Zona Franca. É o Brasil tentando navegar para frente sem deixar nenhuma de suas margens para trás.A decisão da Justiça encerra um capítulo jurídico. Mas talvez abra uma oportunidade muito mais atraente para o país.
Durante décadas, Amazônia e Sudeste foram apresentados como polos concorrentes de uma disputa que nunca deveria ter existido. A realidade histórica conta outra história.
Na passagem do século XIX para o século XX, a riqueza produzida pela borracha amazônica ajudou a irrigar investimentos, infraestrutura, crédito e oportunidades que contribuíram para a expansão econômica do Sudeste brasileiro. Mais tarde, a industrialização paulista ajudaria a impulsionar a modernização produtiva do país inteiro, incluindo a própria Amazônia. Não há uma dívida a cobrar. Há uma história comum a reconhecer.
O Brasil contemporâneo vive uma circunstância semelhante. Os desafios mudaram, mas a necessidade de cooperação permanece.
A indústria instalada em São Paulo concentra conhecimento tecnológico, capacidade financeira, engenharia avançada, universidades de excelência e experiência industrial acumulada ao longo de mais de um século.
A Amazônia reúne ativos que se tornam cada vez mais estratégicos para o século XXI: biodiversidade, recursos hídricos, serviços ambientais, conhecimento tradicional, potencial bioeconômico, minerais estratégicos, capacidade de geração de energia limpa e uma posição geopolítica singular. Separados, esses ativos têm valor. Integrados, tornam-se uma potência.
A reconstrução da confiança entre os polos econômicos do país talvez seja uma das tarefas mais importantes desta geração. O Brasil já desperdiçou energia demais em disputas regionais que produziram ressentimentos, incompreensões e oportunidades perdidas.
A bioeconomia amazônica, por exemplo, não surgirá apenas da floresta. Ela dependerá de laboratórios, centros de pesquisa, engenharia genética, química fina, inteligência artificial, logística avançada, certificação e acesso a mercados globais. Trata-se de um campo em que a experiência industrial acumulada pelo Sudeste pode encontrar na Amazônia um dos mais promissores ambientes de inovação do planeta.
O mesmo raciocínio vale para a transição energética
O mundo procura novos materiais, baterias mais eficientes, minerais estratégicos, biocombustíveis avançados e soluções de baixo carbono. Nenhuma dessas agendas será resolvida por uma única região brasileira. Elas exigem cadeias produtivas integradas, conectando centros industriais, universidades, institutos tecnológicos e territórios ricos em biodiversidade e recursos naturais. Essa aproximação possui também uma dimensão de soberania.
Em um momento em que a Amazônia ocupa posição central nos debates globais sobre clima, recursos estratégicos e segurança internacional, fortalecer os vínculos entre a indústria brasileira e a região amazônica significa fortalecer a capacidade nacional de decidir seu próprio destino.
A soberania não é exercida apenas por quartéis, fronteiras ou diplomacia
Ela também se manifesta por meio da ciência, da inovação, da produção industrial, da ocupação econômica sustentável e da capacidade de gerar prosperidade para quem vive no território.
Da mesma forma, a cooperação entre universidades e centros de pesquisa do Sudeste e da Amazônia tem acelerado descobertas científicas em áreas como saúde, fármacos, cosméticos, alimentação, nanotecnologia, biomateriais e adaptação climática.
O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta e algumas das melhores instituições científicas da América Latina. O desafio não é criar essas capacidades. O desafio é conectá-las cada vez mais.
Existe ainda uma dimensão diplomática frequentemente negligenciada. O fortalecimento dessa parceria amplia a credibilidade brasileira nos fóruns internacionais de clima e desenvolvimento sustentável. Nenhum país será capaz de liderar a agenda climática global se mantiver conflitos internos em torno do destino de seus principais ativos ambientais.
O mundo observa com interesse crescente a Amazônia. A melhor resposta a esse interesse é demonstrar que ela não está isolada, mas integrada ao projeto nacional brasileiro.
Essa integração precisa, inclusive, ampliar a capacidade de atração de investimentos internacionais voltados para inovação, infraestrutura sustentável, economia de baixo carbono, mercado de carbono, tecnologia limpa e bioindústria.
Provavelmente o maior ganho seja simbólico
O Brasil precisa substituir a narrativa da disputa pela narrativa da complementaridade. A floresta não compete com a fábrica. A biodiversidade não compete com a tecnologia. Manaus não compete com São Paulo.
Quando compreendemos isso, percebemos que a verdadeira vantagem competitiva brasileira nasce justamente da combinação desses elementos.
A decisão judicial que agora reafirma a segurança jurídica da Zona Franca de Manaus pode ser lembrada apenas como uma vitória processual. Ou pode marcar o início de uma conversa mais ambiciosa.
Uma conversa sobre inteligência nacional, integração econômica, soberania compartilhada e a construção de um projeto de Brasil capaz de unir a força da indústria, da ciência e da floresta em favor de um futuro comum.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br