BR-319 terá obra de R$ 362 milhões com construtora investigada por corrupção

Construtora Etam assume lote da BR-319 após aparecer em investigação da PF, enquanto a obra segue cercada por alertas ambientais e jurídicos.

A construtora Etam venceu um edital do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para executar obras no “trecho do meio” da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO). A homologação do resultado ocorreu na segunda-feira (25/5) e envolve o lote entre os quilômetros 469 e 590 da estrada.

A proposta apresentada pela empresa foi de R$ 362 milhões, valor inferior ao orçamento previsto pelo DNIT, estimado em R$ 430 milhões. A escolha, no entanto, reacendeu questionamentos sobre a obra, já cercada por controvérsias ambientais e fundiárias. Segundo reportagem de O Globo, a Etam foi alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de corrupção.

A construtora aparece em desdobramentos da Operação Ptolomeu, investigação que mirou a cúpula do governo de Gladson Cameli (PP), ex-governador do Acre. Cameli renunciou ao cargo para disputar uma vaga no Senado. Porém, em maio, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou o ex-governador a 25 anos e nove meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação.

De acordo com as investigações, houve desvios em contratos de obras de infraestrutura e manutenção de unidades de saúde e escolas no Acre. O pai de Gladson Cameli é sócio-administrador da Etam. Em 2023, a empresa chegou a ter suas atividades econômicas suspensas por 90 dias por decisão do STJ, como consequência das apurações.

Procurado, o DNIT afirmou que seus processos licitatórios seguem a Lei de Licitações e Contratos Administrativos, os princípios da administração pública e as orientações do Tribunal de Contas da União (TCU). O órgão também sustentou que os contratos em andamento tratam de “melhoramento” da rodovia e não de pavimentação.

Com a vitória da Etam, o DNIT concluiu dois dos quatro processos licitatórios lançados para intervenções na BR-319. O primeiro edital, referente ao Pregão nº 90129/2026, teve como vencedora a empresa LCM Construção e Comércio, de Minas Gerais.

O projeto também é criticado por não possuir licença ambiental para o trecho mais sensível e por não ter realizado a Consulta Prévia, Livre e Informada com comunidades indígenas afetadas, como determina a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A contratação da Etam acrescenta uma nova camada de controvérsia a uma obra considerada estratégica, mas vista por especialistas e organizações ambientais como uma das principais ameaças à preservação da Amazônia, caso executada sem governança.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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