Mais de 1.300 pedidos expõem lobby da mineração em terras indígenas

Relatório da APIB revela pressão de empresas e parlamentares para flexibilizar regras e expandir a mineração em terras indígenas, levantando riscos climáticos e violações de direitos.

A intensificação da atividade minerária sobre terras indígenas na Amazônia tem acendido alertas entre organizações indígenas e especialistas. Um relatório recente da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) aponta a existência de mais de 1.300 requerimentos minerários ativos na região, dos quais 390 incidem integralmente sobre territórios indígenas, cenário que evidencia o avanço da mineração em terras indígenas no país.

O documento, elaborado em parceria com a organização Cosmopolíticas, denuncia a formação de um sistema estruturado de influência que envolve os três Poderes da República. Segundo o relatório, empresas do setor de mineração e agentes financeiros têm recorrido a narrativas associadas à “sustentabilidade” e à “descarbonização” para legitimar a exploração de minerais considerados estratégicos para a transição energética global.

O estudo foi apresentado durante um seminário realizado no Congresso Nacional, dentro da programação do Acampamento Terra Livre. A publicação sustenta que esse movimento não ocorre de forma isolada, mas integra uma articulação política mais ampla voltada à flexibilização de regras ambientais e territoriais.

No Legislativo, a análise identifica a atuação coordenada de frentes parlamentares ligadas à mineração, ao agronegócio e a grupos religiosos. Essas frentes estariam impulsionando propostas que reduzem exigências de licenciamento ambiental e limitam direitos territoriais, incluindo iniciativas associadas ao marco temporal, ampliando as possibilidades de mineração em terras indígenas.

Indígenas participam de protesto do Acampamento Terra Livre em frente ao Congresso Nacional contra mineração em terras indígenas.
Manifestantes do Acampamento Terra Livre protestam em Brasília e pressionam por respeito aos direitos indígenas. Foto: Rafael Vilela.

Já no Judiciário, o relatório direciona críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente à criação de uma câmara de conciliação no âmbito da Corte. Para a APIB, esse mecanismo pode abrir espaço para a participação de interesses empresariais em debates sensíveis, prejudicando direitos como à consulta livre, prévia e informada, garantida constitucionalmente.

A controvérsia ganhou novo fôlego após decisão recente do STF que autorizou a exploração mineral em território do povo Cinta Larga, entre Rondônia e Mato Grosso. Na mesma decisão, foi estabelecido o prazo de 24 meses para que o Congresso regulamente a mineração em terras indígenas. Até lá, foram definidas condições provisórias, como a necessidade de consentimento das comunidades e participação nos resultados econômicos da atividade.

A APIB contesta o processo, argumentando que não houve demanda coletiva dos povos indígenas para a regulamentação da mineração em seus territórios. Segundo a entidade, o pedido que originou a ação partiu de uma única associação indígena, sem representar a totalidade do povo Cinta Larga.

Além disso, a organização afirma que não houve cumprimento adequado do direito à consulta prévia, livre e informada. Para a APIB, a imposição de uma futura legislação sobre o tema pode limitar a autonomia dos povos originários, retirando a possibilidade de rejeição da atividade minerária em seus territórios.

Diante desse cenário, a entidade apresentou uma série de reivindicações ao STF, dentre elas, a inclusão de especialistas para avaliação técnica da mineração, a incorporação dos impactos climáticos nas discussões e o reconhecimento da APIB como amicus curiae no processo, o que daria voz oficial à organização para contribuir com a decisão no tribunal.

O relatório também destaca a necessidade de ampliar o debate sobre os efeitos socioambientais da extração mineral, especialmente em um contexto de crise climática. Para as organizações indígenas, a decisão em curso pode estabelecer um precedente capaz de redefinir a política mineral em terras indígenas no Brasil, com impactos duradouros sobre territórios, culturas e ecossistemas.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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