O suicídio hídrico do agronegócio brasileiro

Reduzir a reserva legal pode custar mais de R$ 100 bilhões em chuva por ano

Coluna Follow-Up

Voltou ao centro do debate ambiental no Congresso Nacional uma proposta que parece simplesmente administrativa, mas pode ter consequências climáticas profundas para o Brasil.

O Projeto de Lei 551/2019, de autoria do senador Mecias de Jesus, propõe permitir a redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50% em propriedades rurais localizadas em estados onde mais de 65% do território já esteja protegido por unidades de conservação, terras indígenas ou áreas federais.

Entrevista com senador Mecias de Jesus no estudio do portal Metropoles 6 scaled 1 1

Se aprovado, o projeto flexibilizaria uma das principais salvaguardas do Código Florestal para o bioma amazônico.

A justificativa apresentada pelos defensores da proposta parte de um argumento recorrente. Estados altamente preservados deveriam ter maior liberdade para desenvolver suas atividades produtivas. A medida seria uma forma de corrigir desequilíbrios regionais e estimular o crescimento econômico.

À primeira vista, a lógica parece razoável. O problema é que ela ignora um elemento central da economia brasileira.

A floresta amazônica não é apenas um patrimônio ambiental. Ela funciona como infraestrutura climática da produção agrícola do país.

Floresta amazônica com névoa, ilustrando o papel limitado da fertilização por CO₂ diante da baixa disponibilidade de nutrientes.
Foto: Federico Rios.

A fábrica de chuva da América do Sul

A Amazônia abriga a maior máquina natural de geração de umidade do planeta.

Por meio da evapotranspiração, bilhões de árvores retiram água do solo e liberam vapor na atmosfera. Esse vapor forma correntes atmosféricas conhecidas como rios voadores, responsáveis por transportar umidade por milhares de quilômetros sobre o continente.

Pesquisas indicam que a floresta libera cerca de 20 bilhões de toneladas de vapor d’água por dia, volume comparável ao fluxo diário do próprio rio Amazonas.

Essa massa de umidade atravessa o território brasileiro e alimenta as chuvas do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul. É justamente nessas regiões que se concentra o coração da agricultura nacional.

O agronegócio que depende da floresta

Grande parte da produção agrícola brasileira é realizada em regime de sequeiro, ou seja, depende diretamente da regularidade das chuvas.

Soja, milho, café, algodão, cana-de-açúcar e pecuária vivem sob o guarda-chuva climático alimentado pela Amazônia. Estudos indicam que os rios voadores contribuem para a formação de chuvas em até 80% das áreas agrícolas do Brasil.

Em termos econômicos, isso significa que uma parcela significativa da riqueza gerada pelo agronegócio nasce de um sistema natural localizado a milhares de quilômetros das lavouras.

Quanto vale a chuva da Amazônia

Pesquisas recentes tentaram medir o valor econômico desse serviço ambiental. Os resultados são expressivos. A precipitação gerada pela floresta amazônica pode representar mais de R$ 100 bilhões por ano em benefícios para a economia regional e para a agricultura sul-americana.

Esse valor inclui ganhos de produtividade, estabilidade climática e redução de perdas agrícolas.

Em outras palavras, a floresta amazônica funciona como uma espécie de infraestrutura hídrica natural da economia brasileira.

O paradoxo brasileiro

É nesse ponto que surge um paradoxo raramente discutido. A expansão da fronteira agrícola dentro da Amazônia pode comprometer justamente o regime de chuvas que sustenta a agricultura brasileira.

Menos floresta significa menos evapotranspiração. Menos evapotranspiração significa menos formação de nuvens. Menos nuvens significam chuvas mais escassas e irregulares.

O resultado pode aparecer na forma de secas mais intensas, ondas de calor e maior instabilidade nas safras. É como desmontar a caixa d’água para ampliar a plantação.

Área desmatada com árvores derrubadas à direita e floresta preservada à esquerda. Cenário pode se agravar com a sanção do PL da Devastação.
Desmatamento em área de transição entre vegetação preservada e solo exposto. A fragmentação da floresta compromete a biodiversidade e afeta o equilíbrio climático da região. Medidas como o PL da Devastação podem agravar esse cenário ao flexibilizar licenciamento ambiental. Foto: Iguiecologia.

A pergunta que o Brasil precisa responder

O país abriga duas potências convivendo no mesmo território. A maior floresta tropical do planeta. Uma das agriculturas mais competitivas do mundo. A primeira produz a chuva. A segunda depende dela.

Reduzir a proteção da floresta sem considerar essa relação pode não ser apenas um erro ambiental. Pode ser uma das decisões econômicas mais caras da história agrícola brasileira. Porque destruir a fábrica de chuva da Amazônia para expandir a fronteira agrícola pode não ser estratégia de crescimento.

Pode ser apenas o mais caro suicídio hídrico já cogitado pelo agronegócio brasileiro. 


Coluna follow-up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas quintas e sextas-feiras sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal Brasil Amazônia agora

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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