Com perdas bilionárias e aumento de desastres naturais, eventos climáticos extremos começam a redefinir a lógica de risco do setor de seguros e a expor os impactos econômicos da crise climática.
O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos já começa a alterar profundamente o funcionamento do mercado global de seguros. Em apenas um semestre de 2025, incêndios florestais, tempestades severas e outros desastres naturais geraram cerca de US$ 84 bilhões em perdas seguradas, segundo relatório da corretora de resseguros Gallagher Re.
Desse total, aproximadamente US$ 81 bilhões estão associados diretamente a fenômenos climáticos e meteorológicos, tornando o período o mais caro já registrado para esse tipo de evento no primeiro semestre de um ano. A projeção da consultoria é que as perdas globais consolidem o que o relatório descreve como uma “nova realidade” para o setor.
Entre os episódios mais impactantes estão os incêndios florestais que atingiram o sul da Califórnia em janeiro, considerados alguns dos mais destrutivos já registrados no Condado de Los Angeles. O desastre levou milhares de moradores a reconsiderar permanecer em áreas cada vez mais expostas a riscos crescentes e recorrentes de eventos climáticos extremos.
A seguradora State Farm General, maior do estado, informou ter recebido mais de 8.700 solicitações de indenização relacionadas aos incêndios e pago mais de US$ 1 bilhão em compensações. Diante da pressão financeira, a empresa solicitou às autoridades um aumento emergencial médio de 22% nas apólices residenciais.
As tempestades severas que atingiram o Meio-Oeste e o Sul dos Estados Unidos em março também contribuíram para o aumento das perdas. Tornados, ventos intensos e granizo provocaram cerca de US$ 33 bilhões em prejuízos segurados, incluindo um surto de tempestades entre os dias 13 e 16 de março que sozinho gerou quase US$ 8 bilhões em danos, o quarto evento mais caro desse tipo já registrado para o setor.
Fora dos Estados Unidos, os prejuízos segurados permaneceram abaixo de US$ 10 bilhões no primeiro semestre. O episódio mais significativo foi o terremoto que atingiu Myanmar e a Tailândia em abril, cujas perdas podem ultrapassar US$ 1 bilhão quando todas as indenizações forem processadas.
O aumento das temperaturas globais tem ampliado a intensidade de eventos climáticos extremos, elevando o risco sobre imóveis, infraestrutura e cadeias produtivas. Esse cenário começa a gerar uma crise de “segurabilidade” em regiões altamente vulneráveis.
Nos Estados Unidos, estados costeiros como a Flórida já enfrentam esse desafio. Diversas seguradoras privadas têm reduzido ou abandonado a oferta de seguros residenciais em áreas expostas a furacões e tempestades severas, obrigando consumidores a migrar para programas públicos ou seguradoras de última instância.
A tendência indica que, à medida que os desastres climáticos se tornam mais frequentes e caros, o setor segurador pode ser um dos primeiros a sentir os impactos econômicos diretos da crise climática.

