Levantamento revela descompasso entre população e Congresso Nacional em relação à política climática no Brasil. Enquanto a maioria da sociedade defende ação climática, o Legislativo segue perfil associado a altas emissões.
Apesar de a população brasileira demonstrar amplo apoio à preservação ambiental, o Congresso Nacional tem se distanciado dessa pauta. Análise do Instituto Nacional de Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem) mostra que, entre 2019 e 2023, mais da metade dos deputados federais adotou posturas contrárias à agenda ambiental.
O levantamento, baseado no CO₂-Index — indicador que mede o impacto climático de ações parlamentares — aponta que parlamentares ligados à Frente Parlamentar da Agropecuária e a partidos de direita, como PL, PP e NOVO concentram os maiores índices de medidas que agravam emissões. Já legendas de perfil progressista, como PT, PSOL e REDE, figuram com índices mais baixos, indicando uma atuação mais alinhada à mitigação climática.

O cenário reforça o descompasso entre a opinião pública e a política climática no Brasil. Segundo a Pesquisa de Valores Ambientais e Atitudes sobre a Amazônia (PVAAA), 80% dos brasileiros acreditam que o aquecimento global deve ser “muito priorizado” pelo governo.
A rejeição a medidas como liberação de agrotóxicos, garimpo em terras indígenas e flexibilização do licenciamento ambiental é majoritária, ao passo que 56,5% apoiam políticas públicas voltadas a comunidades tradicionais, como a ampliação de terras indígenas e quilombolas.
A confiança em instituições ambientais da política climática no Brasil também é elevada: 83,2% da população identifica o IBAMA como órgão responsável pela fiscalização, e mais da metade afirma confiar nele.
Na Amazônia Legal, a percepção é marcada por contradições. Cerca de 82% rejeitam atividades como extração de madeira e mineração, mas 70% avaliam positivamente o agronegócio e 55,3% defendem ampliar a área permitida para agricultura.
Segundo os pesquisadores, os dados indicam que a política climática no Brasil, especialmente na Amazônia, precisa reconhecer essa aceitação social do setor produtivo e combinar conservação com práticas econômicas sustentáveis.
Outro desafio é o avanço da desinformação climática. Entre grupos com menor escolaridade, há maior propensão a acreditar e compartilhar conteúdos falsos sobre mudanças climáticas. Mas os amazônidas se mostraram mais críticos e menos propensos ao negacionismo climático, apresentando a menor taxa de compartilhamento em testes com vídeos negacionistas.
O estudo propõe ainda algumas ações. Dentre elas, um relatório anual de impacto climático legislativo, educação voltada a grupos vulneráveis e campanhas de comunicação baseadas em experiências reais da população, como enchentes e secas.
