Quando a floresta é indústria, o Brasil vira potência verde

“No estado do Amazonas, onde mais de 95% da cobertura vegetal original está preservada, pulsa um modelo que há décadas prova que é possível produzir riqueza sem destruir a natureza”. 

Coluna Follow-Up

A COP30 em Belém será muito mais do que uma conferência climática para quem vive na Amazônia. Será uma chance rara de o mundo olhar para a Amazônia com olhos de respeito e da possibilidade de escuta. E o Brasil tem um trunfo singular nas mãos: a combinação improvável — e vitoriosa — de floresta em pé e indústria pujante.

Instalada no coração da Amazônia, essa plataforma industrial emprega direta e indiretamente cerca de 500 mil pessoas, mantém preservados mais de 95% dos estoques florestais do estado do Amazonas e responde por mais de 30% da atividade econômica da região Norte. É uma das raras experiências globais em que floresta e indústria caminham juntas. Um paradigma de desenvolvimento que, se adotado, pode representar uma tábua de salvação para a tragédia climática. 

Graças aos recursos assegurados neste modelo de desenvolvimento, Manaus ocupa o topo do ranking de intensidade tecnológica do país – com seu Polo Digital e seu Jaraqui Valley – e se movimenta na direção da Bioeconomia sustentável com um desafio na cabeça e uma tarefa coletiva: fazer da Bio&TIC a maneira mais digna e satisfatória de gerar riqueza e oportunidades protegendo a mata.

Essa economia deveria ocupar lugar central nos debates da COP30. Tanto por sua força econômica, como por representatividade de um paradigma de convivência entre desenvolvimento e conservação, produtividade e resiliência, inovação e e ancestralidade.

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foto: Agatha Valenca

E quem são os concorrentes desta economia? 

É necessário que se diga: a economia do crime avança em ritmo vertiginoso de destruição. Nas áreas onde não há alternativa legal de desenvolvimento, os ilícitos prosperam.

O garimpo ilegal, que contamina rios com mercúrio, envenena comunidades ribeirinhas e indígenas, corroendo a saúde, a cultura e a dignidade; os reflexos dessa informalidade instalada não dispõem de combate adequado e eficaz.

A tudo isso se junta à grilagem de terras públicas, premissa do  desmatamento, queimadas e loteamentos criminosos. De quebra, extração predatória de madeira, sem manejo, sem replantio, sem reinvestimento. Como terra de ninguém. E mais grave: a expansão do narcotráfico, que se infiltra em territórios desassistidos, reproduz violência, medo e desesperança.

É tempo de dar visibilidade — e aplauso — a quem gera empregos, paga tributos, investe em ciência, matem a maior universidade multicampi do país e mantém a floresta viva.

Enquanto o mundo discute modelos de transição, o Amazonas já opera uma equação de sustentabilidade que muitos ainda consideram utópica: bioma preservado como base de uma economia dinâmica. 

E agora, mais do que nunca, esse modelo começa a se expandir: para as áreas degradadas, para os campos abandonados, para os fundos de vale esquecidos. O retorno à natureza e ao esplendor do reflorestamento.

Iniciativas como a do empresário Denis Minev, que propõe blocos de reflorestamento de 50 mil hectares com espécies de alto valor comercial e financiamento estruturado via mercado de carbono, somam-se a políticas públicas como o Fundo das Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo governo federal, e às linhas de fomento à bioeconomia e restauração conduzidas pelo BNDES.

Trata-se de um movimento coordenado — ainda incipiente, mas já potente — para fazer da Amazônia o que ela sempre foi: resposta planetária.

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Foto-Joao-Medeiros/Semil-SP

É nesse espírito que se torna essencial a presença estratégica da indústria na COP30. Não como coadjuvante, mas como parte da solução. Uma indústria que respeita a floresta, que financia a produção do conhecimento. E mais:  gera renda onde o extrativismo predatório ameaça a esperança, que contribui com mais de 30% da atividade econômica da região Norte, e que pode ser, sim, o embrião de uma nova economia regenerativa.

Levar essa história a Belém é fazer justiça a quem trabalha pela floresta todos os dias — e não só nos discursos. É reconhecer que o enfrentamento da crise climática exige mais do que acordos: exige exemplos.

A COP será palco. E o Brasil tem o que mostrar. Tem quem mostrar.

Porque, no fim das contas, quem protege a floresta enquanto gera empregos está não apenas assegurando os serviços ambientais da Amazônia, mas reafirmando o valor civilizatório da vida e o direito das pessoas.

(*) Coluna Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal BrasilAmazoniaAgora 

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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