O Brasil sob ataque: o tarifaço de Trump e o dever de proteger nossa base produtiva

“O tarifaço pode ser um catalisador para a transformação do modelo produtivo da Amazônia, sua diversificação, adensamento e interiorização, investindo com mais vigor na direção da biotecnologia, bioeconomia, energia limpa e soluções baseadas na natureza.”

Coluna Follow-Up

O que está em jogo não é uma tarifa. É o país. Faltando poucos dias para a entrada em vigor da sobretaxa de 50% imposta pelos EUA, o Brasil assiste, entre perplexidade e reação, à escalada unilateral do chamado “tarifaço de Trump”. A medida, com aparência técnica, carrega forte carga política e simbólica: representa não apenas uma ruptura diplomática, mas um ataque direto à espinha dorsal da nossa economia real — a indústria de base, geradora de empregos e valor agregado em território nacional. Segue uma lista preocupante que inclui mel, frutas e café. 

Para o Polo Industrial de Manaus, a ameaça não é uma abstração. Ainda que as exportações diretas para os EUA sejam modestas, a dependência de insumos e componentes norte-americanos torna o impacto profundo e imediato. Qualquer aumento de custo nas cadeias produtivas se transforma em instabilidade econômica e social em uma região que luta diariamente contra desigualdade, abandono e falta de infraestrutura.

O Brasil sob ataque: o tarifaço de Trump e o dever de proteger nossa base produtiva

O tarifaço pode ser um catalisador para a transformação do modelo produtivo da Amazônia, sua diversificação, adensamento e interiorização, investindo com mais vigor na direção da biotecnologia, bioeconomia, energia limpa e soluções baseadas na natureza.
foto: Sean Ferigan/Unsplash

Diplomacia é essencial, mas insuficiente

As medidas anunciadas pelo governo federal são bem-vindas: criação de comitês interministeriais, articulações com a OMC, promessa de crédito emergencial, mobilização diplomática e possível aplicação da Lei de Reciprocidade. Mas nada disso será suficiente se não vier acompanhado de ação urgente, estruturada e permanente. É preciso compreender que a soberania econômica do Brasil está sendo colocada à prova. E que, frente a isso, não podemos atuar com hesitação.

A Amazônia industrializada e em pé também está sob ataque

No caso da Zona Franca de Manaus, o tarifaço coloca em xeque um modelo constitucional de desenvolvimento regional que, por quase seis décadas, tem garantido geração de empregos, arrecadação para o país e preservação ambiental. O PIM é a maior política de combate ao desmatamento da Amazônia já realizada — porque oferece uma alternativa produtiva, legal e sustentável em meio à floresta. Ignorar o risco sistêmico do tarifaço é permitir que esse pacto seja corroído por dentro.

Por isso, é urgente que o Brasil adote cinco linhas de ação imediata, de acordo com o governo e as lideranças do setor privado, da academia e da diplomacia:

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1. Agilidade no crédito emergencial

Criar o fundo não basta. É preciso operacionalizá-lo com velocidade, desburocratizar acesso e priorizar empresas do Norte e da cadeia do PIM, em especial as pequenas e médias. Instituições financeiras, de fomento e de crédito devem

2Diversificação de fornecedores

Buscar insumos fora dos EUA — Ásia, Europa, América Latina — deve ser prioridade. Para isso, a SUFRAMA e os ministérios econômicos devem acelerar protocolos excepcionais de importação.

3. Parcerias estratégicas sul-sul

Avançar em acordos com África, Índia, China e América do Sul pode compensar o revés com os EUA e abrir novas frentes para exportação.

4. Inovação verde como resposta

O tarifaço pode ser um catalisador para a transformação do modelo produtivo da Amazônia, sua diversificação, adensamento e interiorização, investindo com mais vigor na direção da biotecnologia, bioeconomia, energia limpa e soluções baseadas na natureza.

5. Comunicação internacional

O Brasil precisa contar a verdadeira história: o tarifaço atinge a indústria que protege a floresta. Os consumidores americanos precisam saber que pagar mais por produtos brasileiros pode significar desemprego na Amazônia e incentivo à ilegalidade. O mundo precisa saber que esta agressão pode escalar e inviabilizar a economia e a vida. 

Afinal, prevenir é resguardar o futuro

Mais do que retaliação, o momento exige resiliência estratégica. O Brasil não pode agir como quem espera a tempestade passar. Deve se mover como quem se antecipa aos estragos, protege os seus e transforma a crise em oportunidade para um novo ciclo de desenvolvimento com soberania e inteligência. Não é hora de esperar. É hora de agir, unir, superar…

Coluna follow up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas-feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e Coordenação editorial de Alfredo Lopes, brasilamazoniaagora.com.br, consultor da entidade. 

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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