“O desafio agora é transformar a bioeconomia em uma realidade concreta, rompendo com a mentalidade extrativista de curto prazo e estruturando um modelo sustentável, baseado no conhecimento e na tecnologia.”
Por Alfredo Lopes e Carlos Koury
Coluna Follow-Up
O Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas, em processo de elaboração pelo governo estadual com suporte da Fundação Amazônia Sustentável, tem potencial para ser um marco no desenvolvimento sustentável da região. No entanto, considerando os 58 anos de avanços e percalços da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o sucesso da Bioeconomia dependerá da capacidade de transformar discurso em ação, exigindo mobilização e articulação ampla entre diferentes setores e níveis de governança.
Além disso, será fundamental uma revisão da política fiscal, garantindo que o Estado consolide um compromisso real com essa nova matriz econômica. O plano deve engajar atores já envolvidos com a bioeconomia, desde governos municipais e regionais até parceiros internacionais, promovendo ações coordenadas e eficazes.
Desafios históricos e a necessidade de mudança
Um dos grandes desafios do desenvolvimento sustentável no Amazonas tem sido a falta de alinhamento entre repasses de recursos públicos e o setor privado e a sociedade civil. Essa desconexão, que historicamente resultou em desperdício e baixa efetividade, precisa ser superada para garantir que o plano não se torne apenas mais um documento sem impacto real.
A construção de parcerias estratégicas deve ser prioridade. Experiências internacionais, como as da Costa Rica e de países asiáticos, demonstram que a bioeconomia tropical pode ser altamente competitiva quando há investimento em inovação e agregação de valor. Nesse contexto, instituições de pesquisa como o INPA e a Embrapa são ativos essenciais para transformar os bioativos amazônicos em produtos de alto valor agregado para o mercado global.

O papel da indústria e das comunidades amazônicas
O envolvimento do setor produtivo é crucial. Muitas indústrias do Polo Industrial de Manaus já utilizam — ou poderiam utilizar mais — insumos da biodiversidade amazônica, explorando, de forma sustentável, o banco de germoplasma da região. O Centro de Bionegócios da Amazônia pode desempenhar um papel estratégico nesse processo, fornecendo infraestrutura e suporte tecnológico.
Além disso, é essencial fortalecer a socioprodutividade no interior do Estado. Arranjos produtivos já existentes precisam ser aprimorados, ampliando oportunidades de agregação de valor na floresta e garantindo tecnologia e boas práticas para beneficiar produtores locais.
Se bem estruturado, o Plano Estadual de Bioeconomia pode transformar o Amazonas em uma referência mundial no setor, promovendo crescimento econômico sem comprometer a floresta em pé. Para isso, todas as partes interessadas devem estar envolvidas, assegurando um fluxo contínuo de investimentos, inovação e governança participativa.
Integração do conhecimento e a nova bioeconomia
Além do fortalecimento dos eixos já demonstrados, o plano precisa garantir a integração prática do conhecimento entre comunidades tradicionais, ciência & tecnologia e indústria. Essa aproximação deve ser promovida de maneira estruturada e duradoura, permitindo que a nova bioeconomia esperada se concretize de fato.
A bioeconomia não é um conceito novo. Desde que a humanidade começou a domesticar plantas como trigo e uvas para produzir pão e vinho, a exploração dos recursos naturais tem sido a base da economia global — nem sempre de forma sustentável.
No caso da Amazônia, o modelo econômico poderia ter sido muito diferente se, no passado, houvesse uma abordagem estratégica e contínua de valorização dos ativos naturais. Um exemplo clássico é a borracha: se a coroa portuguesa tivesse investido na seringueira com o mesmo interesse que os ingleses tiveram em suas colônias asiáticas, o Brasil poderia ter liderado a bioeconomia tropical muito antes da corrida atual.

O fracasso da gestão da borracha na Amazônia ensina uma lição crucial: sem planejamento e incentivo, as oportunidades se perdem. Durante o auge do ciclo da borracha, o setor representou 45% do PIB brasileiro, mas a falta de políticas estruturadas e governança eficiente resultou no seu declínio e no êxito da concorrência asiática.
Oportunidades e desafios da Zona Franca de Manaus
No século XX, a criação da Zona Franca de Manaus (ZFM) trouxe um novo ciclo de oportunidades para a região. O modelo de incentivos fiscais permitiu a criação de um parque industrial robusto, que gerou empregos, infraestrutura e avanços tecnológicos.
Contudo, a demora de 25 anos para definir um modelo de gestão claro e autônomo impediu que o setor de biotecnologia ganhasse competitividade no ritmo necessário. Isso reforça a necessidade de clareza e previsibilidade na formulação de políticas públicas para a bioeconomia, evitando a dependência de ciclos políticos de curto prazo.
Para que a bioeconomia seja um motor de desenvolvimento real, é necessário um planejamento sólido, baseado em três pilares fundamentais:
1. Papel do poder público – Criar um ambiente regulatório favorável, estimular investimentos em pesquisa e inovação, fomentar infraestrutura e garantir segurança jurídica para novos negócios. Uma nova Zona Franca para a Bioeconomia precisa ser estruturada.
2. Responsabilidade do setor empresarial – Investir em inovação, agregar valor aos produtos da biodiversidade, respeitar boas práticas ambientais e sociais e estabelecer parcerias estratégicas com instituições de pesquisa e comunidades locais.
3. Ciência & Tecnologia – Acelerar a pesquisa para novos ativos e aplicações, além de integrar conhecimento e inovação às cadeias produtivas, aumentando a competitividade da biodiversidade amazônica.
4. Povos e comunidades tradicionais – Garantir a proteção dos territórios e ampliar incentivos para produção sustentável, valorizando o saber ancestral como parte essencial da bioeconomia.
O Brasil diante da bioeconomia global
O Brasil, apesar de seus recursos naturais abundantes, ainda não consolidou políticas eficazes para transformar a bioeconomia amazônica em um motor real de desenvolvimento. Investimentos esporádicos e a falta de integração entre ciência, indústria e políticas públicas impediram que a economia da floresta se desenvolvesse de maneira estratégica.
Ainda há tempo para mudar esse cenário. O desafio agora é transformar a bioeconomia em uma realidade concreta, rompendo com a mentalidade extrativista de curto prazo e estruturando um modelo sustentável, baseado no conhecimento e na tecnologia.
Se o Brasil quiser liderar a bioeconomia global, precisa acelerar essa transformação – e, desta vez, sem patinar.
Alfredo Lopes é filósofo, consultor do CIEAM e editor-geral do portal BrasilAmazoniaAgora.
Carlos Gabriel Koury é engenheiro florestal formado pela USP, diretor técnico do Idesam e coordenador do PPBio.
Coluna Follow Up é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras no Jornal do Comércio do Amazonas sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes
