Igarapé do Mindu, retrato dramático da civilização Manaó

O canudo predatório de refrigerantes já tem sucedâneo sustentável e as sacolas retornáveis, preferencialmente de retalhos, bem poderiam virar bandeira de iniciativa popular. Vamos encarar? Damos meia volta e esbarramos, sempre, no papel transformador da Educação, a começar pelos pais, em casa, desde o berço. O planeta, não esqueçamos, é o quintal e deve ser o jardim de nossa casa comum.

Alfredo Lopes
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Em frente de casa, em Manaus, corre, desfigurado e poluído, Igarapé do Mindu, prova cabal de que nós ainda concebemos nossas águas fluviais  como lugar privilegiado ( para quem?) de depósitos de toda ordem. Quando chove o nível das águas sobe, a correnteza se torna mais rápida, levando de assalto em direção ao Rio-Mar de Francisco Orellana, todo tipo de resíduo que se possa imaginar. Esta é a situação entre outros caudatários do Rio Negro, o afluente do Rio Amazonas que banha Manaus. Uma paisagem urbana dramática que volta e meia recebe promessas, ações e muitas frustrações de expectativas em relação ao poder público e de organizações não-governamentais. Triste história de um rio que tem tudo para começar a recuperar a autoestima de seus cidadãos.

Descaso coletivo e habitual

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Sábado, 20 de Março, Mindu para o Dia Mundial da Água. Foto Cristy Ellen Lopes

Neste fim-de-semana, uma Operação Limpeza deu uma penteada no deplorável senhor Mindu, para levá-lo ao festejo fúnebre do descaso coletivo e habitual. Tem sido este também o olhar estreito da gestão pública, com exíguas exceções, que olha a tragédia urbana com intervenções pontuais, diria, frequentemente eleitorais. Por que foi abortada a continuação do Corredor Ecológico do Mindu da gestão Serafim, 2005-2009?  Projetos, como o Prosamim, de urbanização sustentável, financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) não se fizeram acompanhar de campanhas educacionais agressivas, a partir das escolas e associações comunitárias. Só assim, disseminando a percepção no tecido social, especialmente e crianças e jovens, de que o bem público exige co-participação dos indivíduos porque lhe pertence, mudaríamos atitudes socioambientais pra valer. Ou haveria outro caminho para obter a mudança  na continuidade da depredação progressiva das águas que cortam Manaus? Nos portos regionais em frente da cidade, é lastimável a poluição, sobretudo de plásticos e outros detritos do consumo e da deseducação predatória.

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Publicidade pedagógica

Por que a justiça não obriga o poder público a utilizar verbas de publicidade para educação socioambiental? Ou nossos magistrados naturalizaram essa barbaridade urbana? As verbas publicitárias são costumeiramente de apologia política não de educação cívica nem contribuição para educação rumo a nova relação entre Natureza e Cultura. Isso fragiliza e depõe contra a  reputação do poder local e questiona a devolutiva sociocultural de cangalha de impostos de nossa economia. O lixo segue sem coletas seletivas de monta e os lixões ainda padecem de ordenamento e com utilização zero de seu potencial energético. Temos a maior reserva hídrica potável do planeta mas nosso desempenho na cultura da sustentabilidade ainda é desastroso.

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Parque 10 Igarapé do Mindu, a maior piscina natural do Norte, construída em 1940 – Manaus de Antigamente.

Economia de braços dados com Ecologia

Empresas como a MotoHonda apostam nas atitudes de seus 6.000 colaboradores para evitar o desperdício e outras ações de bons costumes e práticas. A água da chuva é tratada e aproveitada em banheiros e no resfriamento na rotina industrial, as nascentes dos Igarapés e de seu traçado são reflorestadas através de campanhas na comunidade com espécies nativas produzidas na fazenda da empresa em Rio Preto da Eva-AM, onde também foi criada uma RPPN, Reserva Particular do Patrimônio Natural. O exemplo é adotado por outras empresas e é um convite para o envolvimento geral de uma nova ordem onde Economia ande de braços dados com a Ecologia.

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Cena comum no cotidiano do Igarapé do Mindu

Quintal e jardim de nossa casa comum

Algumas empresas do Polo Industrial de Manaus estão procurando alternativas do plástico verde, que consiga enfrentar a concorrência chinesa e a performance predatória do plástico usual, num segmento que já empregou 14 mil trabalhadores e hoje recuou para menos de 6 mil. Uma legislação de 1976 estimula, com vantagens fiscais, a empresa que agregar insumos da biodiversidade, produzidos sustentavelmente, na produção de plástico biodegradável. A Embrapa Instrumentação de São Carlos-SP já produz embalagens de “plástico” comestíveis e colocou à disposição do PIM avanços de sustentabilidade como este. O canudo predatório de refrigerantes já tem sucedâneo sustentável e as sacolas retornáveis, preferencialmente de retalhos, bem poderiam virar bandeira de iniciativa popular. Vamos encarar?  Damos meia volta e esbarramos, sempre, no papel transformador da Educação, a começar pelos pais, em casa, desde o berço. O planeta, não esqueçamos, é o quintal e deve ser o jardim de nossa casa comum.

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Alfredo Lopes é consultor do CIEAM e editor-geral do portal  BrasilAmazoniaAgora
Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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