Caroço de tucumã vira matéria-prima para plástico usado na construção civil

Com apoio de programa coordenado pelo Idesam, startup transforma resíduos amazônicos em peças industriais e substitui até 40% do plástico de origem fóssil por matéria-prima vegetal.

Resíduos de frutos amazônicos estão sendo incorporados à fabricação de peças plásticas para reduzir o uso de matéria-prima derivada do petróleo. Desenvolvido a partir de pesquisas na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o composto da startup Fipo Biopellet mistura fibras vegetais com polipropileno e já é utilizado em produtos para a construção civil. A iniciativa recebeu apoio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), coordenado pelo Idesam.

A tecnologia permite substituir entre 2,5% e 40% do plástico de origem fóssil por material vegetal, conforme a aplicação. Além do caroço de tucumã, a empresa aproveita resíduos de açaí e cupuaçu. Como a composição mantém polipropileno, o aproveitamento dessas fibras não significa, por si só, que o produto seja biodegradável.

A pesquisa começou com Antonio Claudio Kieling, aluno do professor Genilson Santana, ao observar o volume de resíduos gerado pelo consumo de tucumã. Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, aproximadamente 60% do material era descartado após a retirada da polpa.

As fibras funcionam como reforço das peças. Joelson Vieira, arquiteto e sócio da startup, afirma que testes de dureza, resistência e elasticidade apresentaram resultados superiores aos do plástico convencional. A empresa associa esse desempenho à possibilidade de prolongar a vida útil dos produtos.

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Da pesquisa ao mercado

O primeiro produto desenvolvido pela Fipo Biopellet foi um pedal de bicicleta. O financiamento inicial veio de uma fabricante do setor, por meio do PPBio. Idealizado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o programa conecta recursos de pesquisa e desenvolvimento das indústrias do Polo Industrial de Manaus a projetos de bioeconomia, sob coordenação do Idesam.

A chegada ao mercado, porém, enfrentou dificuldades. Os custos de produção do composto e de fabricação dos moldes industriais limitaram o avanço comercial. A startup passou então a diversificar seu portfólio, com copos, pregadores de roupas e componentes para motocicletas de pequeno porte.

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Na trajetória apoiada pelo programa coordenado pelo Idesam, a empresa encontrou uma oportunidade nos espaçadores para lajes. Essas peças ajudam a manter o posicionamento das armaduras durante a execução de estruturas de concreto e precisam suportar as condições de uso na obra.

Produzidos nas dimensões de 20 × 25 mm e 30 × 35 mm, os espaçadores receberam um desenho simplificado para reduzir os custos. Segundo Vieira, a versão da startup custa R$ 0,38 no atacado, enquanto a convencional é vendida, em média, por R$ 0,40 no atacado e R$ 0,80 no varejo. Os valores são apresentados pela empresa como referência de competitividade no mercado regional.

Renda com resíduos amazônicos

Os insumos vêm principalmente da comunidade Santo Antônio do Tracajá, no Amazonas, que também participa de ações de conservação do quelônio que dá nome à localidade. A compra dos resíduos cria uma fonte adicional de receita para as famílias, inclusive em períodos de entressafra. Para Genilson Santana, essa remuneração pode ajudar a reduzir pressões econômicas que favorecem atividades como desmatamento e exploração mineral ilegal. “Não vendemos apenas produtos; comercializamos as condições socioambientais necessárias para que uma comunidade não sofra pressões para derrubar a mata e explorar minério”, afirmou.

O projeto reúne duas frentes da bioeconomia promovida pelo PPBio, coordenado pelo Idesam: o aproveitamento de recursos amazônicos e a busca por aplicações industriais com mercado consumidor. A experiência também evidencia um desafio para iniciativas desse tipo: transformar resultados de laboratório em produtos competitivos. No caso da Fipo Biopellet, apoiada inicialmente pelo programa coordenado pelo Idesam, a simplificação das peças e a escolha de um novo segmento foram as estratégias adotadas para ampliar a viabilidade comercial.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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