Zona Franca de Manaus e o risco da desindustrialização prematura

“Perceber o Brasil contemporâneo como um país igual, com necessidades tributárias ou de investimentos iguais não é somente estupidez, é também uma busca de mais privilégio para os já privilegiados. Este é o maior risco da reforma tributária em curso. A barbárie segue à espreita e pode ganhar força.”

Augusto Cesar Barreto Rocha
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Edgar Morin afirmou que “a política passa incessantemente pelo conflito entre realismo e utopia” – precisamos perseguir nossas utopias fundamentais, sem perder de vista os fatos. De cinturão da manufatura para o cinturão da ferrugem, foi o que aconteceu com os Estados norte-americanos de Ohio, Indiana, Illinois, Michigan e Pensilvânia. Em 20 anos experimentaram declínios econômicos e populacionais à medida que muitas empresas saíram da região. No outro lado do Atlântico, um severo processo de desindustrialização também atingiu o Nordeste da Inglaterra, uma das primeiras regiões industrializadas do Reino Unido. O Brasil tem sofrido problema semelhante, tendo sua indústria saído de 27,3% do PIB em 1986 para 11,3% do PIB em 2020.

Quando algo para de crescer, começa a morrer. Por isso, precisamos de ações que aumentem o vigor do Polo Industrial de Manaus, não só tapando os buracos visíveis, mas também por meio de ajustes nos discursos e interesses do país, no sentido de ampliar a industrialização que temos e acrescentar outras atividades. Por outro lado, a desindustrialização não é em si um fenômeno negativo. Estudos como o de Robert Rowthorn e Ramana Ramaswamy indicam este fenômeno como natural e consequência de um crescimento adicional nas economias avançadas. Acontece que ainda não temos esta realidade econômica no Amazonas, o que pode significar um grande retrocesso, sem compensações, agregado ao risco de um revés do estágio de emergente para subdesenvolvido.

Esta desindustrialização prematura é um perigo. A indústria representou 34,3% do PIB do Amazonas em 2020, segundo a CNI. Entender, respeitar e desenvolver esta importância é algo que precisa ser realizado. Os sobressaltos no ambiente em que a indústria de Manaus sobrevive leva a uma falta de confiança e a uma incerteza crescente. Deficiências não sanadas, vantagens comparativas dilapidadas, discursos contrários ao polo industrial são periodicamente realizados e não podem trazer outro efeito que não seja o que se verifica: uma falta de perspectiva clara sobre qual o rumo a ser tomado por esta indústria e se vislumbra seu encolhimento.

Se a desindustrialização no Amazonas for prematura terá sido um grande erro de gestão, mas parece ser um erro acalentado faz anos pelo Estado brasileiro. O constante arrocho fiscal que é buscado pelos governos, que sempre acham que recebem menos dinheiro do que gostariam, contra um contribuinte que entende que paga mais do que pode e ainda recebe menos do que merece, leva a uma condição de perda de todos. Enquanto não se aceitar que é possível e necessária a realização de ações para desenvolver o Norte do Brasil, seguiremos nestas medidas para conter o desenvolvimento da área com maior potencial no país. Perceber o Brasil contemporâneo como um país igual, com necessidades tributárias ou de investimentos iguais não é somente estupidez, é também uma busca de mais privilégio para os já privilegiados. Este é o maior risco da reforma tributária em curso. A barbárie segue à espreita e pode ganhar força.

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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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