Zona Franca de Manaus: potencializando o futuro com a bioeconomia

Precisamos desenvolver a bioeconomia e a biotecnologia no país e a região amazônica é um local simbólico, o que a torna ótima candidata. Os números iniciais serão pífios frente ao brilho da indústria amazonense, em especial se seguirmos com a consideração de que a Zona Franca de Manaus será substituída pela biotecnologia, criando uma expectativa inalcançável, quando se comparam os números ou as estruturas produtivas

A criação da Zona Franca de Manaus (ZFM), no Decreto Lei 288, de 1967, começa com o texto “A Zona Franca de Manaus é uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento, em face dos fatores locais e da grande distância, a que se encontram, os centros consumidores de seus produtos”.

O Comércio pujante para além das populações locais só foi viável durante um período relativamente curto de restrições às importações. Após o governo Collor (1990-1992), houve um declínio generalizado desta atividade e do turismo associado a ela. O sucesso expressivo do polo industrial ofuscou as demais dimensões e talvez tenha feito esquecer os erros do passado. Há uma expectativa contemporânea de que a bioeconomia e a biotecnologia impulsionem a ZFM, em um aparato industrial que poderia usar a biodiversidade amazônica. Todavia, as condições até aqui postas estão muito distantes da necessidade para viabilizar um polo deste tipo.

Um dos desafios é que os empresários da região simplesmente não são deste setor. Por mais que exista o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), não há correlação da indústria instalada com esta atividade. A quase totalidade das empresas em Manaus são grandes multinacionais, com negócios em áreas distintas ao “bio”. O que se verifica é algo semelhante ao que se deu no passado, quando empresas do setor eletroeletrônico foram estimuladas a ter projetos agroindustriais. Será que a história se repete? 

zona franca de manaus
Indústria eletroeletrônico – Foto divulgação

O ajuste das políticas públicas representa um grande desafio para as sociedades. Transformar uma indústria focada em importações em uma exportadora é uma tarefa mais simples do que inserir uma empresa do setor eletroeletrônico na bioeconomia. Além de promover feiras que conectem Tecnologia da Informação e Biotecnologia, é fundamental implementar ações para influenciar a exportação e a atração de novos tipos de empresas, diversificando as atividades atuais.

A principal potencialidade são os insumos farmacêuticos ativos, que representam o início da cadeia produtiva da indústria dos medicamentos e é estimado um mercado global de US$ 209 bilhões em 2024 pela Fortune Business Insight, devendo chegar a US$ 359 bilhões em oito anos, em um setor dominado por sintéticos, enquanto aqui poderíamos centrar no nicho biológico. A América do Norte concentra o mercado e a Ásia e Pacífico são as áreas com grande crescimento projetado. 

1683308816195
Biotecnologia na Amazônia

Certamente precisamos desenvolver a bioeconomia e a biotecnologia no país e a região amazônica é um local simbólico, o que a torna ótima candidata. Os números iniciais serão pífios frente ao brilho da indústria amazonense, em especial se seguirmos com a consideração de que a ZFM será substituída pela biotecnologia, criando uma expectativa inalcançável, quando se comparam os números ou as estruturas produtivas. 

Leia o último artigo de Augusto Rocha aqui

https://brasilamazoniaagora.com.br/2024/bioeconomia-no-amazonas/

A grande oportunidade me parece ser ampliar o que temos com a correção das deficiências históricas com infraestrutura, nunca enfrentadas. Também é uma grande oportunidade seguir com ações científicas e tecnológicas, atraindo empresas próximas da natureza, do segmento de Ingredientes Farmacêuticos Ativos, semelhante ao que se faz em São Paulo para alimentos, com o instituto alemão Fraunhofer em conjunto com instituições nacionais, começando a transformar nossa riqueza potencial em realidade. Ou seja, com pequenos ajustes e várias instituições em rede, poderemos ter grandes ganhos para o país e para o mundo.

AUGUSTO

Augusto Rocha é Professor Associado da UFAM, com docência na graduação, Mestrado e Doutorado e é Coordenador da Comissão CIEAM de Logística e Sustentabilidade

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

Artigos Relacionados

Cobra com patas de 100 milhões de anos muda teoria sobre evolução das serpentes

Fóssil de cobra com patas encontrado na Argentina revela novas pistas sobre a evolução das serpentes e desafia teorias antigas.

O que são panapanás? Entenda o fenômeno das borboletas na Amazônia

Panapaná reúne milhares de borboletas na Amazônia e revela conexões entre ciclos dos rios, biodiversidade e mudanças climáticas.

Terras raras, soberania rara

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados...

Estudo na revista Nature revela que microplásticos no ar foram superestimados

Estudo revela que microplásticos transportados pelo ar vêm majoritariamente da terra e desafiam modelos globais sobre poluição.

Após 10 anos, Brasil atualiza lista de espécies aquáticas ameaçadas de extinção

Nova lista atualiza cenário das espécies aquáticas ameaçadas no Brasil e reforça medidas contra sobrepesca, poluição e perda de habitat.