ZFM discute futuro ou passado, construção ou destruição?

Por cá, o orçamento para pesquisa em biotecnologia foi reduzido a zero, impactando também o futuro da ZFM. O Liberalismo real protege o seu país, liberando para a concorrência os produtos de maior valor agregado e de maior interesse, onde o próprio país é competitivo e não ao contrário. Nosso (pseudo) liberalismo entrega o valor agregado para estrangeiros, relegando-nos ao extrativismo.

Por Augusto Cesar Barreto Rocha
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Quando falamos sobre a Zona Franca de Manaus (ZFM) é muito mais frequente falarmos de ataques, destruições e desmontes. Pouco ou quase nada se delibera com respeito à sua evolução. Por qual razão uma área industrial de sucesso é tão atacada? Por que tantos tentam destrui-la e não se debate o enfrentamento de suas deficiências?

Uma hipótese de resposta é que a Amazônia não poderia conter atividades industriais modernas. Estaríamos fadados a ser o campo pobre, isolado, distante e não teríamos a altivez para ter um parque tecnológico moderno. Deveríamos nos voltar para a floresta e extrativismo. Muitas medidas apontam nesta direção: projetos extrativistas, minerais ou vegetais. Olhar a floresta como um almoxarifado para usar ou arruinar.

A análise antropológica, sociológica e política é complexa, como toda análise científica. Éemblemático quando se tomam medidas contrárias, afirmando-se que são favoráveis. É muito chocante perceber uma vantagem sendo retirada, dizendo-se que é para nosso bem. Quando a falácia é percebida, quem perpetra a medida se irrita.

O Liberalismo pregado por alguns países é bem diferente do que (achamos que) praticamos por aqui. Por exemplo, em 26/07/2022, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou uma lei que injeta US$ 280 bilhões para impulsionar a fabricação de semicondutores e a sua competitividade, para fazer frente à China. Se fosse por aqui, a ação seria reversa: vamos deixar a China produzir os semicondutores, para plantar mais soja, afinal os EUA são o segundo maior exportador global de soja e é apenas o quinto país do mundo no desenvolvimento de novas plantas de semicondutores.

ZFM

Como consequência, por lá, a lei investe diretamente em Pesquisa & Desenvolvimento, tendo como alvo campos como inteligência artificial, computação quântica, comunicações sem fio e agricultura de precisão. A National Science Foundation (espécie de FINEP deles) terá um orçamento extra US$ 20 bilhões, focado para acelerar o desenvolvimento de tecnologias críticas e um aumento de US$ 61 bilhões para suas atividades principais, financiando pesquisadores em universidades.

Por cá, o orçamento para pesquisa em biotecnologia foi reduzido a zero. O Liberalismo real protege o seu país, liberando para a concorrência os produtos de maior valor agregado e de maior interesse, onde o próprio país é competitivo e não ao contrário. Nosso (pseudo) liberalismo entrega o valor agregado para estrangeiros, relegando-nos ao extrativismo.

Qual o rumo da ZFM?

Vamos rumo ao interior profundo para desmatar (pauta do passado) ou vamos rumo à inteligência artificial (pauta do futuro)? Vamos para a indústria mais avançada, ou seguiremos com o Polo Industrial de Manaus, reduzido, fatiado, dividido, cada dia com menos e menos atividades industriais, até voltarmos para o campo, colhendo frutas e pescando?

Tudo é muito lindo, mas a questão que me interessa é o final da estrada que está sendo construída. Na largada pode até ter uma festa cheia de guloseimas, mas nada disso importa – precisamos estar atentos para onde vai a estrada que está sendo construída. Os reiterados decretos sobre IPI levam a um fatiamento da indústria do PIM, até ela ser inexistente. A redução de Imposto de Importação leva a um esvaziamento da indústria nacional, até a sua insignificância. É isso mesmo que queremos?

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Augusto Rocha é professor da UFAM e parceiro fundador do portal Brasil Amazônia Agora
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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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