Fogo, mesmo amigo, queima

Destas estranhas posições do governo federal, o país mereceria esclarecimentos que talvez possam justificá-las ou retratações delas, em nome da responsabilidade que o tema enseja e especialmente por serem de onde se originaram.

Por Juarez Baldoino da Costa
_______________________________

Muita gente em Brasília até pode querer ajudar a ZFM, mas parece que nem sempre sabe como. No caso da redução geral de IPI em 35%, o secretário especial de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia, Alexandre Ywata, em entrevista ao programa A Voz do Brasil em 29/07/2022, pontuou estranhos aspectos em relação aos reflexos da medida tanto para o Brasil como um todo como em relação ao PIM – Polo Industrial de Manaus.

Disse o secretário que “Este decreto busca uma proposta de baixar os impostos de todos os produtos do país, e por outro lado, proteger a ZFM”.
Neste caso, “proteger a ZFM” pressupõe fortalecer as razões de sua sustentação, que se resumem em principalmente isentar de IPI os produtos nela fabricados tornando-os mais baratos do que se produzidos fora das ZFM.

A proteção é, portanto, um tipo de escudo com o nome de IPI; quanto mais elevada a alíquota, mais robusto é o escudo e consequentemente, maior a sua proteção. Com a redução do IPI, o secretário, membro do governo federal que é o criador da ZFM, talvez sem ter se apercebido, defende uma estranha e inexistente proteção, e que é na verdade uma ação enfraquecedora do escudo.

Assista a entrevista a baixo:

Noutro aspecto, o BACEN – Banco Central vem implantando há meses uma política de aumento gradual e constante da taxa SELIC, agora em 13,75% a.a., para reduzir o consumo e tentar conter a inflação. Estranhamente, o secretário Ywata, do mesmo governo que responde pelo BACEN, declarou na mesma entrevista que a redução de IPI deve estimular o consumo. Um setor do governo estimula a economia concomitantemente ao desestimulo perseguido por outro setor do mesmo governo.

Se a SELIC aumenta o custo dos produtos via aumento de juros, e o IPI reduzido diminui este custo, o que ocorre é a transferência do valor equivalente de IPI que não mais será arrecadado, para o balanço dos agentes financeiros, sem que o consumidor veja o benefício, evidentemente guardadas as relações SELIC/alíquotas do IPI/produto. Embora o BACEN deva ser independente do executivo, para o Brasil não é saudável que o executivo produza intervenções econômicas que contrariam a direção da intervenção do BACEN. É um esforço cruzado mutuamente anulatório.

fogo

Disse ainda o secretário que a redução do IPI permite maior competitividade da indústria nacional. Se é uma competição, decerto é com a indústria do exterior. Ocorre que a indústria do exterior ao exportar para o Brasil também paga o mesmo IPI na entrada do produto no país, e também terá a mesma redução de 35% que a indústria nacional terá. A competitividade neste caso é anulada.

Destas estranhas posições do governo federal, o país mereceria esclarecimentos que talvez possam justificá-las ou retratações delas, em nome da responsabilidade que o tema enseja e especialmente por serem de onde se originaram.

Este fogo de Brasília, mesmo amigo, queima.

Juarez Baldoino da Costa 2
Juarez Baldoino da Costa é Amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia – UFAM, Economista, Professor de Pós-Graduação e Consultor de empresas especializado em ZFM.

[email protected]
Juarez Baldoino da Costa
Juarez Baldoino da Costahttps://brasilamazoniaagora.com.br/
Juarez Baldoino da Costa é Amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia – UFAM, Economista, Professor de Pós-Graduação e Consultor de empresas especializado em ZFM.

Artigos Relacionados

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Mineração sustentável é possível? Avanços tecnológicos enfrentam limites ambientais, pressão sobre ecossistemas e desafios da transição energética.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...