ZFM e o mau exemplo da desinformação

Venha passear na floresta, senhor Pastore, venha testemunhar o que fazemos com essa discreta fatia de isenção tributária ao movimentar 85% da economia do Amazonas e dinamizar toda a economia regional com emprego e renda.

Antônio Silva
__________________

As declarações do economista Affonso Celso Pastore – porta-voz de política econômica do ex-juiz ministro da Justiça do governo Bolsonaro, Sérgio Moro – contra o programa Zona Franca de Manaus, considerando-o um “mau exemplo de política fiscal”, são a ponta do velho iceberg de preconceitos, maledicências e má-fé contra o Norte do Brasil. É provável que as ilações do ex-presidente do Banco Central estejam baseadas nos gráficos dos gastos fiscais da Receita Federal, onde o programa ZFM figura com menos de 8% de incentivos no bolo fiscal do Brasil. Outra referência, muito comum aos palpites sobre nossa economia na Amazônia, é a do “ouvi dizer”. Uma ou outra referência padecem de fundamentos consistentes e não condizem com a prudência e consistência que o assunto requer.

Em clima de caça e captura de eleitores, a tática em voga é a mesma de sempre: atacar um segmento, uma política de estado, ou um acerto da gestão pública, para ficar de boa com seus opositores. Isso é mais complicado pelo fato de não termos registro da presença do economista Affonso Celso Pastore nas searas amazônicas onde resiste o programa ZFM, gerando 500 mil empregos entre diretos e indiretos, de acordo com o IBGE e a RAIS, a partir do Polo Industrial de Manaus. Como julgar políticas de Estado sem conhecer o tecido social que a executa? Sim, a dinâmica desta modelagem de política de Estado, não de governo, para redução das desigualdades regionais, chamada ZFM, se deu numa região remota, onde não há Porto público, conexão rodoviária, e os pilares de infraestrutura competitiva são precários e onerosos.

Affonso Celso Pastore Imagem Wilton Junior Estadao Conteudo
Affonso Celso Pastore – Imagem: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo

E foi neste cenário adverso de infraestrutura capenga que a Constituição do Brasil reafirmou em 1988 nosso mecanismo de compensação fiscal. Aquilo que o economista rotula de “mau exemplo de política fiscal” é exatamente o que a União Europeia e a Organização Mundial do Comércio aplaudem, respeitam e consideram um extraordinário acerto de desenvolvimento com proteção ambiental. O mau exemplo tem vindo, ironicamente, da gestão fiscal do país que historicamente confere mais de 50% do bolo fiscal ao Sudeste, a região mais próspera do Brasil. E o que é pior, a União Federal coleta em torno de 75% – dados da RFB – dos recursos aqui gerados, na contramão do dispositivo constitucional, que autoriza compensação fiscal para regiões remotas com a condição de que a receita daí originada seja aí investida para redução das desigualdades regionais.

Venha passear na floresta, senhor Pastore, venha testemunhar o que fazemos com essa discreta fatia de isenção tributária ao movimentar 85% da economia do Amazonas e dinamizar toda a economia regional com emprego e renda. Esta é a única modelagem tributária de desenvolvimento regional do planeta, conhecida, por ignorância ou má-fé, como paraíso fiscal que, na verdade, foi transformada pelo país no paraíso do Fisco. Por isso, ainda não conquistamos a dispensa dessa tímida compensação de impostos.

Venha conhecer a UEA (Universidade do Estado do Amazonas), a maior academia multi-campi do país, presente em 62 municípios, integralmente paga pela indústria da ZFM, formando gerações de jovens que estão construindo um paradigma da sustentabilidade na instalação da prosperidade social na Amazônia. Nosso maior adversário, Sr. Pastore, é a intriga e a desinformação, além das facções criminosas do narcotráfico, vindas de Rio de Janeiro e São Paulo, que também torcem por nossa desconstrução, para oferecer emprego e renda de origem criminosa para a juventude que, do nosso ponto de vista e conduta, pode e deve dirigir com mais afinco e preparo a Amazônia e o Brasil. Estamos de portas e braços abertos e temos muito a oferecer para a reconstrução do Brasil, sua sustentabilidade e prosperidade geral.

Antonio Silva
Antônio Silva presidente da FIEAM e vice presidente da CNI
Antônio Silva
Antônio Silva
Antônio Silva é administrador de empresas, empresário e presidente da Federação das Indústrias do estado do Amazonas e vice presidente da CNI.

Artigos Relacionados

O rio além da draga – PARTE II – Antes da concessão, o rio e seus habitantes – Coluna Follow-Up

A concessão de uma hidrovia amazônica começa muito antes do leilão. Começa pelo reconhecimento de que o rio já possui usuários, economias, culturas e regras de convivência construídas ao longo de gerações. Um contrato pode organizar investimentos e cobrar por serviços comprovadamente entregues, mas sua legitimidade dependerá da capacidade de proteger a vida que precede a concessão e continuará no território depois dela.

Manaus, a cidade no coração da floresta que desaprendeu a respirar

Fumaça volta a cobrir a capital, expõe crianças e...

Trump já está interferindo na eleição brasileira?

“Da pressão sobre o STF às articulações bolsonaristas em...

O rio além da draga – PARTE I – Coluna Follow-Up

A mobilização das entidades do Amazonas para trazer os atores federais ao debate logístico merece ser reconhecida. Durante muito tempo, a navegação amazônica foi tratada em Brasília como uma facilidade concedida pela geografia: rios largos, extensos e aparentemente inesgotáveis dispensariam a disciplina de planejamento reservada às rodovias, ferrovias e portos. As secas de 2023 e 2024 expuseram o preço dessa ilusão. A presença recente do Ministério de Portos e Aeroportos, da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação e do DNIT abre uma oportunidade que a região não deve desperdiçar. Para aproveitá-la, será preciso qualificar o debate e distinguir uma obra necessária em certos pontos de uma política capaz de organizar todo o sistema.