ZFM diante do acordo UE–Mercosul: ou Manaus compra tempo com salvaguardas, ou paga a conta da pressa

“O alerta trazido pela FIEAM é direto (e tecnicamente coerente): se a desgravação tarifária para bens europeus ocorrer em ritmo inadequado, setores tradicionais do PIM podem perder espaço para importados com alta competitividade, marca e escala”.

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O acordo UE–Mercosul volta à cena como essas grandes promessas que atravessam décadas: quando parece “pronto”, é o mundo que muda; quando o mundo pede pressa, é a política que freia. Vamos acompanhar os finalmentes.

Neste contexto, para Manaus, a pergunta não é apenas “assina ou não assina”. A pergunta real é: se assinar, o Polo Industrial de Manaus entra como protagonista de uma nova economia de pacto — ou como vítima tardia de uma concorrência previsível? Porque o acordo não é só um mapa de oportunidades; ele é, também, um teste de maturidade da nossa política industrial regional.

A História ensina: acordos longos não morrem no texto, morrem no tempo

Negociado desde 1999, o acordo tem sido apresentado como base para uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, envolvendo algo na ordem de 700 milhões de pessoas quando se considera a escala agregada dos dois espaços econômicos e seus entornos de consumo.  Só que acordos assim não se decidem por entusiasmo: decidem-se por prazos, listas, exceções e salvaguardas — exatamente o vocabulário que agora volta ao centro.

E aqui a História da Zona Franca de Manaus entra com força. A ZFM não é um “polo qualquer”: ela é um instrumento econômico que ajuda a manter economia legal, emprego formal e densidade urbana numa região em que o vácuo produtivo costuma ser ocupado por economias predatórias. Quando se fala em “competitividade amazônica”, a floresta não é cenário: ela é variável econômica. Só que variável econômica também se protege com engenharia institucional.

Imagem aérea da Zona Franca de Manaus
Foto: Ministério Público do Amazonas.

Concorrência: a ameaça é simples, e é por isso que salvaguarda não é tabu

O alerta trazido pela FIEAM é direto (e tecnicamente coerente): se a desgravação tarifária para bens europeus ocorrer em ritmo inadequado, setores tradicionais do PIM podem perder espaço para importados com alta competitividade, marca e escala. Esse risco não é moral; é matemático. Se parte do diferencial do modelo depende de estrutura tributária e tarifária, mexer nessa estrutura sem fase de transição é mexer na base do preço final.

O Conselho da UE costuma negociar “travões” para seus agricultores; o Amazonas precisa negociar “travões” para seus segmentos industriais sensíveis. Isso significa: prazos estendidos, listas de exceção, cláusulas de revisão e mecanismos automáticos de correção quando houver choque de importação ou substituição acelerada de produção local.

O acordo, inclusive, já nasce com a lógica de cronogramas e etapas — e há documentação oficial sobre cronogramas de desgravação e compromissos do tratado, que pode ser usada tecnicamente na construção dessas proteções. 

Balança comercial do Amazonas

Os dados de comércio exterior do Amazonas ajudam a entender por que o impacto pode ser rápido. A dinâmica do Estado é fortemente impulsionada pelo PIM e por importações de insumos e componentes: em novembro de 2025, por exemplo, o Amazonas registrou US$ 1,2 bilhão na corrente de comércio, sendo US$ 98,72 milhões em exportações e US$ 1,10 bilhão em importações. 

Quando o sistema é dependente de importação para produzir, qualquer mudança de tarifa e competição externa altera o cálculo de investimento, mix de produto e permanência de linhas industriais.

Oportunidade: se houver salvaguarda, Manaus pode usar o acordo para “subir de liga”

O mesmo acordo que ameaça o “velho conforto” pode abrir espaço para a “nova competitividade”, se Manaus agir como polo que moderniza e não apenas “se defende”. O governo brasileiro, quando divulgou o texto em 2024, ressaltou justamente a expectativa de modernização do parque industrial e integração a cadeias produtivas europeias. 

Esse é o lado pouco explorado do debate: a ZFM pode capturar ganhos de tecnologia, bens de capital, processos, padrões e governança — e transformar isso em produtividade e acesso a mercados que pagam por conformidade.

Mas isso exige um reposicionamento: a UE não compra apenas produto; ela compra prova. Prova de origem, prova de conformidade, prova ambiental, prova social, prova de rastreabilidade. O “diferencial competitivo” do Polo industrial de Manaus — instrumentos econômicos conectados à proteção florestal — só vira vantagem se for mensurável e auditável.

Providências locais: um pacote mínimo para não transformar oportunidade em erosão

Se o acordo se materializar, Manaus precisa entrar no jogo com um plano objetivo — não com esperança genérica.

Agenda de Salvaguardas da ZFM (prazos + listas + gatilhos)

Um documento único, articulado com bancada, Suframa, Fieam/Cieam e governo estadual: quais segmentos são sensíveis, quais prazos são aceitáveis, quais exceções são indispensáveis, quais indicadores acionam proteção (importação, preço, emprego).

Infraestrutura e logística como política industrial

Sem previsibilidade portuária, aduana eficiente, conectividade digital e custo logístico sob controle, “acordo” vira só mais um anúncio distante. A UE opera com rotina e auditoria: confiabilidade é moeda.

Compliance e rastreabilidade em escala de Polo

Criar um “hub” local (público-privado) de certificação, testes, documentação, rastreio e padrões ESG. Isso reduz custo para cada empresa e aumenta a atratividade do território.

Energia e mitigação do carbono como produtividade

Eficiência energética, circularidade, redução de resíduos e pegada de carbono deixam de ser “agenda verde” e viram condição de competitividade e financiamento.Integração real com bioeconomia e ciência regional.

O PIM precisa de um braço de novos produtos:

 química fina, fármacos, materiais, dermocosméticos, tecnologias de floresta em pé. É aqui que o “pacto” vira futuro — e não só comércio.

Salvaguardas para comprar tempo

O acordo UE–Mercosul não deveria ser a vitória de um bloco sobre o outro. Ele deveria ser a prova de que comércio pode abandonar a lógica do saque e entrar na lógica do pacto. Para o Amazonas, isso significa: salvaguardas para comprar tempo — e, com esse tempo, uma ofensiva de modernização para que a ZFM não seja apenas preservada, mas elevada.

Se Manaus fizer só defesa, pode sobreviver cansada.

Se fizer defesa e salto, pode entrar no século XXI como aquilo que o mundo precisa ver: uma plataforma industrial capaz de gerar riqueza com floresta em pé — e não apesar dela.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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