Trump quer “rebaixar” maconha para a mesma  categoria de alguns analgésicos — e o mercado já comemorou

“Não por acaso, a notícia foi suficiente para fazer ações do setor dispararem — com analistas lembrando que, para parte do mercado, maconha sairia do “andar da heroína” e iria morar mais perto dos “esteroides e codeína”, o que muda o humor dos investidores mesmo antes de qualquer canetada final”

WASHINGTON / MONTEVIDÉU / MANAUS — O presidente dos EUA, Donald Trump, discute uma mudança federal que pode tirar a maconha do Schedule I (a prateleira onde o governo a empilha ao lado de heroína e LSD) e empurrá-la para o Schedule III, a mesma categoria regulatória de substâncias controladas como produtos com codeína, cetamina e testosterona. A medida, porém, não legaliza a cannabis no país inteiro — e tampouco a transforma, por decreto, em “analgésico aprovado”. 

Segundo o Washington Post, Trump discutiu o tema com o presidente da Câmara, Mike Johnson (cético), além de figuras do governo e executivos do setor, em conversas e reuniões na Casa Branca — um roteiro em que a palavra “medicinal” entra pela porta da frente, mas a planilha fiscal costuma sair pela porta dos fundos. 

O que muda (e o que não muda)

A passagem para Schedule III reconhece “uso médico aceito” e menor potencial de abuso do que Schedule I, mas não equivale a legalização nacional nem a “venda em farmácia como se fosse dipirona”. O próprio Washington Post destaca que o impacto imediato para o consumidor comum tende a ser limitado — enquanto o efeito para indústria e pesquisa pode ser grande. 

Por que o “business” aparece como motor da história

Aqui entra o ponto menos poético e mais contábil: a Seção 280E do fisco americano impede empresas ligadas a substâncias dos Schedules I/II de deduzirem despesas normais (salários, aluguel, marketing). O IRS já resumiu isso sem rodeios: 280E corta deduções para quem “trafica” substâncias dos Schedules I ou II. Se a cannabis for para o Schedule III, esse gargalo tende a cair — e a margem de lucro reaparece como mágica fiscal.

Não por acaso, a notícia foi suficiente para fazer ações do setor dispararem — com analistas lembrando que, para parte do mercado, cannabis sairia do “andar da heroína” e iria morar mais perto dos “esteroides e codeína”, o que muda o humor dos investidores mesmo antes de qualquer canetada final. 

Não por acaso, a notícia foi suficiente para fazer ações do setor dispararem — com analistas lembrando que, para parte do mercado, maconha sairia do “andar da heroína” e iria morar mais perto dos “esteroides e codeína”, o que muda o humor dos investidores mesmo antes de qualquer canetada final. 
Sátira do presidente estadunidense Donald Trump – foto: Jon Tyson/Unsplash

A ciência, no entanto, não assinou esse cheque em branco

A ironia do momento é que a discussão política anda em marcha acelerada enquanto a literatura científica segue pedindo freio e cinto: uma revisão recente na JAMA conclui que evidências de ensaios clínicos randomizados não sustentam o uso de cannabis/canabinoides para muitas condições para as quais ela é promovida (como dor aguda e insônia), defendendo triagem e cautela. 

Uruguai: quando o argumento foi “tirar do crime” — não “aliviar imposto”

Se Trump olha para a cannabis com lentes de categoria regulatória e efeito fiscal, o Uruguai entrou no tema por outra porta: a do Estado regulador tentando “arrebatar o mercado” do crime organizado — com controle, rastreabilidade e políticas de saúde. A Lei 19.172 (2013) estruturou o modelo uruguaio e criou registros e mecanismos de supervisão. 

Na prática, o sistema estabeleceu três vias de acesso (farmácias, clubes e autocultivo). E, segundo relatório oficial do IRCCA, em 30/06/2023 havia 86.207 pessoas habilitadas a acessar cannabis de forma regulada. 

Diferença-chave entre ambos: no Uruguai, a mensagem foi “vamos arrancar receita do tráfico e controlar riscos”; nos EUA, o enredo de 2025 soa mais como “vamos trocar de prateleira regulatória — e ver se a Receita e Wall Street param de tratar o setor como clandestino”. (O resultado pode até convergir em pesquisa e governança; o ponto de partida é que é bem menos “Pepe Mujica” e bem mais “IRS”.)

O que observar agora

Se Trump realmente emitirá ordem para acelerar o processo administrativo (ele não reclassifica sozinho).  

Se a mudança virá acompanhada de disputas sobre como o FDA e a DEA vão enquadrar o setor.

Se o discurso “medicinal” vai se sustentar frente ao lembrete da ciência: há usos sólidos em nichos; há exagero em massa no marketing. 

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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