Trump, Milei e o preço da diplomacia aos gritos

Há uma curiosa convergência entre Donald Trump e Javier Milei que vai além das afinidades ideológicas, das fotografias sorridentes e da admiração declarada do presidente argentino pelo americano. Os dois parecem compartilhar uma concepção bastante particular de política externa: a diplomacia como prolongamento do palanque.

O adversário externo passa a cumprir uma função doméstica. Serve para mobilizar seguidores, produzir manchetes, reafirmar identidades e alimentar a sensação de que existe permanentemente alguém do outro lado da fronteira tentando prejudicar a nação.

Durante algum tempo, essa política pode funcionar.

Trump construiu boa parte de sua força política em torno da promessa de recuperar a capacidade americana de impor condições ao restante do mundo. Tarifas, ameaças comerciais, pressões sobre aliados e adversários e uma política externa deliberadamente imprevisível passaram a compor sua gramática de poder.

Mas existe uma diferença importante entre demonstrar força e conseguir transformar força em prosperidade percebida pela população.

Quando tarifas chegam aos preços, guerras pressionam combustíveis, mercados incorporam incertezas e parceiros começam a procurar alternativas, a política externa deixa de ser uma abstração distante. Ela entra no supermercado, no posto de gasolina, no investimento das empresas e na expectativa das famílias.

preço da diplomacia aos gritos

A percepção internacional sobre Trump também se deteriorou. Pesquisa do Pew Research Center realizada em 36 países encontrou uma mediana de apenas 23% de confiança em sua liderança nos assuntos mundiais. Em vários países, a própria imagem dos Estados Unidos sofreu desgaste. 

Há nisso uma contradição que merece atenção. Uma política externa concebida para demonstrar poder pode, quando exercida continuamente pela coerção, reduzir um dos ativos mais importantes de uma potência: sua capacidade de convencer.

Joseph Nye chamou esse patrimônio de soft power. Os Estados Unidos construíram uma parcela extraordinária de sua influência mundial combinando poder militar e econômico com universidades, ciência, tecnologia, cultura, instituições, alianças e capacidade de atração.

Quando quase toda relação internacional passa a ser apresentada como uma queda de braço, alguma coisa desse patrimônio se perde.

A Argentina não dispõe do dólar, do Pentágono, do mercado consumidor americano nem da capacidade financeira de Washington. Sua interdependência com os vizinhos, particularmente com o Brasil, recomenda historicamente uma diplomacia pragmática, qualquer que seja a orientação ideológica de quem ocupe a Casa Rosada ou o Palácio do Planalto.

É por isso que o episódio recente envolvendo Lula talvez diga mais sobre a sociedade argentina do que sobre seus presidentes.

Pesquisa da consultoria Zuban Córdoba, realizada entre 8 e 10 de agosto, mostrou que 70,5% dos argentinos desaprovam os ataques de Milei ao presidente brasileiro. Apenas 20% os aprovam. Mais revelador ainda, 88,9% dos entrevistados consideram o Brasil importante para a economia argentina.

Brasil e Argentina podem eleger governos de esquerda, direita ou centro. Continuarão compartilhando uma fronteira de mais de mil quilômetros, cadeias industriais, comércio, infraestrutura, energia, Mercosul e interesses estratégicos na América do Sul.

Presidentes passam. A geografia permanece. É precisamente nesse ponto que Trump e Milei oferecem um experimento político interessante para nosso tempo.

Ambos perceberam com enorme competência eleitoral a força da indignação. Transformaram insatisfação social em linguagem política, romperam convenções e estabeleceram comunicação direta com parcelas da população que já não confiavam nas instituições tradicionais.

A política do confronto permanente possui rendimentos decrescentes. Para conservar a mesma capacidade de mobilização, cada conflito precisa ser maior que o anterior, cada adversário mais perigoso, cada frase mais agressiva.

Enquanto isso, a população continua fazendo contas. É aí que a inflação costuma ser mais persuasiva do que a ideologia.

O fenômeno merece atenção também no Brasil. Temos uma longa tradição diplomática construída justamente sobre uma premissa diferente. Desde Rio Branco, com todas as mudanças históricas posteriores, o país procurou ampliar sua influência por negociação, multilateralismo e capacidade de conversar simultaneamente com interlocutores incompatíveis entre si.

Para uma potência intermediária como o Brasil, inserida numa economia mundial fragmentada entre Estados Unidos, China, União Europeia e novas coalizões do Sul Global, preservar canais talvez seja uma das formas mais concretas de soberania.

A região está no centro das disputas deste século: minerais críticos, biodiversidade, água, energia, alimentos, carbono, conhecimento genético, segurança climática e soberania territorial. Estados Unidos, China e Europa observam esses ativos com crescente interesse estratégico.

Seria ingenuidade imaginar que essa aproximação ocorrerá apenas em nome da preservação ambiental.

Há interesses econômicos gigantescos sobre a mesa.

O Brasil precisará negociar com todos eles sem entregar a nenhum deles a definição de seu próprio projeto amazônico.

Essa é uma das lições que o desgaste político de Trump e Milei começa a oferecer. A agressividade produz enorme visibilidade e ainda conserva capacidade eleitoral considerável. Mas existe uma diferença entre conseguir atenção e construir influência duradoura.

Em algum momento, o eleitor pergunta o que recebeu em troca. E, sem a menor sombra de dúvidas, esta é a pergunta mais antiga na camada política.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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