A Terra está perdendo seu escudo: por que os satélites obrigam a ciência a rever a velocidade do aquecimento global

Durante décadas, a discussão sobre mudança climática foi apresentada sobretudo como uma questão de temperatura. Quantos graus o planeta poderia aquecer até 2050 ou 2100? Quando seria ultrapassada a marca de 1,5°C? Que regiões sofreriam mais?

Os satélites estão acrescentando outra maneira, talvez ainda mais reveladora, de acompanhar o que acontece com a Terra. Em vez de observar apenas o termômetro, cientistas conseguem medir a contabilidade energética do planeta: quanta radiação solar chega, quanto dessa energia é refletido de volta para o espaço e quanto permanece armazenado no sistema climático.

É nessa contabilidade que apareceu um dos sinais mais inquietantes da ciência climática recente.

Medições do programa CERES, da NASA, mostram que o chamado desequilíbrio energético da Terra aumentou de forma pronunciada desde o início deste século. Dados apresentados pela equipe científica do programa em maio de 2026 indicam uma tendência de crescimento em torno de 0,46 watt por metro quadrado por década entre 2000 e fevereiro de 2026. A NASA considera alta a confiança de que o desequilíbrio energético esteja aumentando e estima que ele tenha mais que dobrado no período observado. (Ceres⁠)

Parece uma unidade pequena. Multiplicada continuamente pelos aproximadamente 510 milhões de quilômetros quadrados da superfície terrestre, porém, representa uma quantidade colossal de energia adicional retida no sistema climático.

A maior parte termina no oceano.

E é justamente por isso que olhar somente para a temperatura do ar pode oferecer uma fotografia incompleta da mudança em curso. O oceano funciona como a grande memória térmica da Terra. Ele recebe a maior parcela da energia excedente e a conserva durante períodos que podem chegar a décadas ou séculos.

aquecimento global

O efeito estufa permanece no centro da explicação. A concentração crescente de dióxido de carbono, metano e outros gases reduz a quantidade de radiação infravermelha que a Terra consegue devolver ao espaço.

Mas outro movimento está ocorrendo simultaneamente. A Terra também está absorvendo mais radiação solar.

Os dados mais recentes do CERES indicam aumento da radiação solar absorvida de aproximadamente 0,89 W/m² por década desde 2000. O comportamento do sistema resulta da combinação entre gases de efeito estufa, aerossóis, vapor d’água, gelo, temperatura dos oceanos e, sobretudo, nuvens. (Ceres⁠)

É aqui que entra o albedo.

Albedo é a parcela da radiação solar que uma superfície reflete. Neve e gelo, muito claros, refletem grande quantidade de luz. Oceanos e florestas, mais escuros, absorvem proporcionalmente mais energia. Na atmosfera, as nuvens exercem papel decisivo.

Quando gelo e neve desaparecem, superfícies mais escuras ficam expostas. Passam a absorver energia que antes seria refletida.

O aquecimento produz perda de gelo; a perda de gelo aumenta a absorção de calor; o aumento da absorção favorece mais aquecimento.

É um exemplo clássico de retroalimentação positiva do sistema climático, mecanismo conhecido e incorporado há muito tempo às avaliações do IPCC. (IPCC⁠)

A surpresa científica recente está menos na existência desses feedbacks do que na intensidade com que alguns deles parecem estar se manifestando.

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Poucas coisas são tão importantes e difíceis de representar nos modelos climáticos quanto as nuvens.

Dependendo da altitude, da espessura, da composição, da localização e do horário, elas podem tanto resfriar quanto aquecer o planeta.

As nuvens baixas e claras sobre os oceanos são particularmente importantes porque devolvem ao espaço uma parcela considerável da radiação solar.

Um estudo publicado em 2024 encontrou um problema relevante nos modelos analisados. A resposta das nuvens baixas ao aquecimento, estimada a partir das observações, apresentou um feedback médio de aproximadamente 0,45 W/m² por grau de aquecimento, cerca do dobro da média de 16 modelos climáticos avaliados, de aproximadamente 0,22 W/m² por grau. Segundo os pesquisadores, parte da discrepância decorre de os modelos subestimarem a quantidade atual de nuvens marinhas baixas e sua sensibilidade às mudanças ambientais. (Repositório Institucional NOAA⁠)

Isso merece atenção.

Os modelos climáticos nunca foram simples máquinas destinadas a fornecer uma data exata para o futuro. São representações matemáticas de um sistema físico extraordinariamente complexo. À medida que séries observacionais aumentam e satélites permitem enxergar processos antes pouco conhecidos, parâmetros e mecanismos precisam ser testados novamente.

É exatamente isso que está acontecendo.

A NASA iniciou inclusive um exercício específico de comparação de modelos, o CERESMIP, concentrado no período coberto pelas observações de satélite e destinado, entre outros objetivos, a investigar o desequilíbrio energético e os feedbacks atmosféricos. (NASA Technical Reports Server⁠)

O calor global extraordinário registrado em 2023 tornou o problema ainda mais evidente.

O fenômeno El Niño contribuiu para elevar as temperaturas. A concentração crescente dos gases de efeito estufa também já estabelecia um patamar climático mais quente.

Ainda assim, uma parte do salto chamou a atenção.

Pesquisadores identificaram um albedo planetário excepcionalmente baixo naquele ano, associado em grande medida à redução de nuvens baixas em determinadas regiões tropicais e de latitudes médias. A grande questão científica passou a ser descobrir quanto dessa redução decorre da variabilidade natural, quanto está relacionado à diminuição dos aerossóis e quanto poderia representar um feedback das próprias nuvens em um planeta progressivamente mais quente.

Essa distinção tem enormes consequências.

Se predominarem oscilações naturais, parte do fenômeno poderá se reverter.

Se a redução das nuvens estiver relacionada principalmente à queda de aerossóis produzidos pela poluição, haverá um ajuste ligado à retirada de um efeito de resfriamento que mascarava uma parcela do aquecimento.

Se, porém, uma fração significativa representar um feedback persistente das nuvens à elevação da temperatura, a sensibilidade do sistema climático poderá ser maior do que alguns modelos vinham representando.

É justamente essa pergunta que está sendo investigada.

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Sim, mas é necessário definir o significado dessa revisão.

As grandes projeções que associavam aumento das concentrações de gases de efeito estufa ao aquecimento global continuam fundamentalmente corretas. O que está sendo atualizado é a compreensão da velocidade de determinadas respostas do sistema e da contribuição relativa de alguns mecanismos.

A atualização mais recente dos Indicadores da Mudança Climática Global, publicada em 2026, estima que o aquecimento provocado pela atividade humana atingiu cerca de 1,37°C em 2025 em relação ao período pré-industrial, crescendo a aproximadamente 0,27°C por década entre 2016 e 2025. Os autores associam essa velocidade recorde à combinação entre emissões de gases de efeito estufa persistentemente elevadas e redução do resfriamento provocado pelos aerossóis. (ESSD⁠)

O mesmo levantamento estima que o orçamento restante de carbono para uma chance de 50% de limitar o aquecimento a 1,5°C caiu para cerca de 130 bilhões de toneladas de CO₂ a partir do início de 2026. (ESSD⁠)

Portanto, a janela temporal está se estreitando.

Isso não autoriza afirmar que existe uma data determinada para um “colapso climático” ou que eventos anteriormente previstos para 2050 ocorrerão necessariamente nos próximos anos. A ciência não trabalha com um calendário único de colapso planetário.

O que os dados permitem afirmar é mais preciso e suficientemente preocupante: o sistema está acumulando energia rapidamente, o aquecimento provocado pelo homem segue em ritmo elevado e determinados riscos associados a temperaturas mais altas podem ser alcançados antes caso o aquecimento continue nessa trajetória.

O oceano ajuda a entender por que esse processo não desaparece quando um ano seguinte apresenta temperatura superficial ligeiramente menor.

A atmosfera responde rapidamente. O oceano acumula.

Grande parte da energia excedente produzida pelo desequilíbrio energético terrestre é armazenada pelas águas oceânicas. Esse calor contribui para ondas de calor marinhas, expansão térmica e elevação do nível do mar e influencia a circulação atmosférica e oceânica.

Por isso, o conteúdo de calor dos oceanos tornou-se um dos indicadores mais importantes da mudança climática.

Um planeta pode sair de um El Niño e apresentar uma pequena redução temporária da temperatura média do ar. Se seus oceanos continuam acumulando energia, o problema físico fundamental permanece.

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A ligação exige alguma cautela.

A floresta amazônica tem albedo relativamente baixo porque sua superfície escura absorve bastante radiação. Sua importância climática não pode ser reduzida à ideia de que árvores funcionam como grandes espelhos solares.

O papel da Amazônia aparece por outros caminhos extraordinariamente importantes.

Uma floresta tropical transforma enorme quantidade da energia que recebe em evapotranspiração. As árvores retiram água do solo e liberam vapor para a atmosfera. Parte dessa água participa da formação de nuvens e da reciclagem de precipitação. A transferência de energia na forma de calor latente também ajuda a resfriar a superfície e organiza a circulação atmosférica regional. Observações da NASA há décadas mostram a estreita conexão entre transpiração da floresta, vapor d’água e formação de nuvens amazônicas. (NASA Science⁠)

Há ainda a química atmosférica.

Pesquisas recentes na floresta mostram que compostos orgânicos, partículas produzidas ou transformadas sobre a Amazônia e processos dentro das próprias nuvens participam da formação dos chamados núcleos de condensação, pequenas partículas em torno das quais gotículas podem se formar. (Nature⁠)

Isso significa que existe uma verdadeira maquinaria biológica, química e física conectando floresta e atmosfera.

Quando a floresta é substituída, alteram-se simultaneamente evapotranspiração, umidade, temperatura superficial, formação de nuvens, precipitação e armazenamento de carbono. Estudos recentes mostram que os efeitos podem variar conforme região e estação, justamente porque atmosfera e vegetação formam um sistema acoplado muito mais complexo que uma simples comparação entre superfícies claras e escuras. (Nature⁠)

A Amazônia, portanto, precisa ser compreendida dentro da engenharia climática natural do continente.

Há uma mudança importante de perspectiva nessa nova etapa da ciência climática. Durante muito tempo, a pergunta central foi quanto CO₂ a humanidade colocaria na atmosfera. Agora outra questão ganha peso crescente. Como o próprio planeta está reagindo ao aquecimento que já produzimos?

Gelo, nuvens, oceanos, florestas, solos, vapor d’água e aerossóis participam de mecanismos capazes de amplificar ou amortecer as mudanças iniciadas pelo aumento dos gases de efeito estufa.

A Terra ainda devolve grande quantidade de energia ao espaço. Ainda possui oceanos capazes de absorver calor. Ainda possui grandes florestas capazes de armazenar carbono e reciclar água.

Mas esses mecanismos têm limites e respostas próprias.

O sinal dos satélites merece atenção justamente porque mostra que a diferença entre a energia que entra e aquela que sai está crescendo.

Em 2026, depois de mais de duas décadas acompanhando o planeta do espaço, a equipe científica do CERES resumiu a situação com elevado grau de confiança: o desequilíbrio energético da Terra está aumentando. (Ceres)

A discussão climática entra, assim, em uma fase diferente.

Já sabemos que os gases de efeito estufa estão aquecendo a Terra. O desafio científico agora inclui compreender com muito mais precisão como esse aquecimento modifica os próprios sistemas que controlam a quantidade de energia retida pelo planeta.

E nesse campo, as nuvens talvez guardem uma das respostas mais importantes das próximas décadas.

Para a Amazônia, a conclusão é especialmente relevante. Preservar a floresta significa conservar um gigantesco sistema de circulação de água, energia e carbono num momento em que o equilíbrio térmico da Terra está mudando rapidamente.

O planeta está mostrando, pelos satélites, que sua capacidade de administrar o excesso de energia que produzimos está sendo tensionada. Entender essa mensagem com precisão talvez seja tão importante quanto observar o termômetro.

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  1. NASA CERES Science Team — “State of CERES” (2026), Norman G. Loeb
  2. Forster et al. — “Indicators of Global Climate Change 2025”, Earth System Science Data, 2026
  3. Ceppi, Myers, Nowack, Wall & Zelinka — “Implications of a Pervasive Climate Model Bias for Low-Cloud Feedback”, Geophysical Research Letters, 2024
  4. Paulo Ceppi et al. — “Observed cloud sensitivities and implications for Earth energy imbalance”, CERES Science Team Meeting, 2026
  5. NASA — CERES, Clouds and the Earth’s Radiant Energy System
  6. IPCC — Sixth Assessment Report, Working Group I
  7. Ceppi et al. e literatura CMIP6 sobre feedback de nuvens
  8. Nature Geoscience — “Frequent rainfall-induced new particle formation within the canopy in the Amazon rainforest”, 2024
Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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