Levantamento da IRENA propõe acelerar a eletrificação até 2035 e alerta que instalar novas usinas renováveis sem substituir combustíveis fósseis é insuficiente para a transição energética.
A expansão das fontes renováveis precisa ser acompanhada pela substituição dos combustíveis fósseis e por investimentos em infraestrutura elétrica para manter o mundo em uma trajetória compatível com o limite de aquecimento de 1,5°C do Acordo de Paris. O alerta consta do relatório World Energy Transition Outlook 2026, divulgado em 13 de outubro pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).
O documento estabelece a eletrificação como prioridade até 2035 e ressalta que ampliar a geração limpa, isoladamente, não garante a transição energética. É necessário aumentar o uso da eletricidade no consumo final, melhorar a eficiência e desenvolver alternativas sustentáveis para atender à demanda.
No cenário apresentado pela agência, a capacidade mundial de geração renovável teria de passar dos atuais 5,2 terawatts (TW) para 38,2 TW em 2050, mais de sete vezes o volume instalado hoje. A eletricidade responderia por 35% do consumo final de energia em 2035 e ultrapassaria 50% até meados do século.
Solar e eólica juntas forneceriam mais de 80% da eletricidade em 2050. Para sustentar essa participação, porém, será preciso ampliar redes de transmissão e distribuição, armazenamento e mecanismos que permitam ajustar o sistema às variações da oferta e da demanda. Sem esses investimentos, a infraestrutura poderá limitar o avanço da transição energética.
Empregos e redução de custos
A IRENA também associa a transição energética a benefícios econômicos. Segundo suas projeções, o cenário compatível com 1,5°C proporcionaria ganhos acumulados de cerca de US$ 46 trilhões até 2050, em comparação com a manutenção da trajetória usual.
O emprego no setor de energias renováveis poderia crescer de pouco mais de 16 milhões de postos atualmente para 84 milhões no mesmo período. Já os preços da energia para o consumidor final poderiam cair 15% até 2050, à medida que os mercados de eletricidade se tornassem mais competitivos.
Para o diretor-geral da agência, Francesco La Camera, eletrificação, redes, armazenamento e eficiência constituem a base da transição energética. “A questão central é a rapidez com que podemos implementar essas soluções em conjunto, na escala necessária para manter a transição alinhada com o limite de 1,5°C, garantindo ao mesmo tempo segurança energética, acessibilidade, competitividade e maior aceitação social”, afirmou.
Avanço solar na África expõe lacunas nos dados
A expansão da energia solar na África evidencia também dificuldades para medir o crescimento das renováveis. Ember e African Tech Futures Lab projetam a instalação de 17 gigawatts (GW) no continente em 2026, volume 45% superior ao estimado para 2025. As organizações recorreram aos dados de importação de painéis chineses para contornar limitações das estatísticas nacionais. A China fornece 94% dos módulos instalados no continente.
Segundo as entidades, a África acrescentou 12 GW de capacidade solar em 2025, incluindo sistemas em telhados. A IRENA contabilizou apenas 3,8 GW, com cobertura concentrada em grandes parques, conforme informações divulgadas pela Folha. A diferença indica que parte relevante da expansão pode permanecer fora dos registros oficiais.