Sistemas fotovoltaicos em aldeias do Amapá passam a abastecer ateliês coletivos e mostram como povos indígenas incorporam transição energética na Amazônia à cultura local.
A instalação de sistemas de energia solar em aldeias indígenas mostra que a transição energética na Amazônia pode assumir caminhos próprios quando as comunidades participam diretamente das decisões sobre o uso da tecnologia. Na Terra Indígena Uaçá, no Baixo Oiapoque, no Amapá, comunidades Palikur-Arukwayene passaram a utilizar a energia fotovoltaica para fortalecer ateliês coletivos de cerâmica e marcenaria, integrando a eletricidade a práticas culturais e produtivas tradicionais.
A experiência é acompanhada por uma pesquisa em desenvolvimento no âmbito do pós-doutorado “Arte e técnica: regimes de conhecimento, aprendizagem e reformulações entre os povos da Terra Indígena Uaçá”, sob supervisão da antropóloga Artionka Capiberibe, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O estudo analisa os efeitos do projeto Energia Limpa Vida Sustentável, financiado pela iniciativa Amazônia+10, nas formas de produção, aprendizagem e transmissão de conhecimento nas aldeias.
Ao contrário de modelos de eletrificação pensados apenas para o consumo doméstico, os sistemas instalados passaram a atender demandas definidas pelos próprios moradores. A energia solar abastece ferramentas elétricas, tornos e equipamentos utilizados na confecção de esculturas em madeira, bancos cerimoniais e peças de cerâmica. Essas atividades têm importância econômica, social e ritual para os Palikur-Arukwayene.
Segundo os pesquisadores, o caso evidencia que tecnologias contemporâneas podem ser incorporadas aos modos de vida indígenas sem substituir os saberes tradicionais. A energia limpa, nesse contexto, atua como apoio à produção artesanal e à formação de jovens aprendizes, em diálogo com conhecimentos transmitidos por mestres e guardiões de saberes.
Um dos focos da pesquisa é o trabalho da ceramista Irabete Labonté, que aprendeu o ofício ainda criança com familiares, especialmente com sua avó, Nazaré Felício. A produção das peças envolve etapas que vão além da modelagem do barro. A escolha da argila, a coleta da casca da árvore caripé, usada para dar resistência térmica à cerâmica, e a seleção da madeira fazem parte de um repertório associado ao território e repassado entre gerações.
Os pesquisadores também registram dimensões cosmológicas envolvidas na produção. Na confecção de potes usados no ritual do Turé, por exemplo, há restrições sobre quem pode acompanhar o trabalho. De acordo com a tradição Palikur-Arukwayene, o chamado “ciúme” do barro pode provocar rachaduras durante a queima quando pessoas de fora observam determinadas etapas do processo.
A pesquisa ainda acompanha a retomada da produção de bancos cerimoniais esculpidos pelo artesão Natã dos Santos. O trabalho foi impulsionado pelo contato com fotografias e peças feitas por seu bisavô, recolhidas na década de 1920 pelo etnógrafo Curt Nimuendajú e preservadas atualmente no Museu da Cultura Mundial, na Suécia. Com o apoio da infraestrutura disponível nos ateliês, o artesão voltou a produzir esculturas na própria aldeia.
Para os pesquisadores, a experiência no Amapá contribui para ampliar o debate sobre transição energética na Amazônia, especialmente em territórios indígenas. O estudo indica que projetos de energia limpa podem gerar resultados mais consistentes quando deixam de ser apenas intervenções técnicas e passam a dialogar com prioridades locais, práticas culturais e formas próprias de organização comunitária.
Na Terra Indígena Uaçá, a energia fotovoltaica passou a apoiar não apenas atividades produtivas, mas também processos de aprendizagem, memória e continuidade cultural. Os próximos desdobramentos da pesquisa serão desenvolvidos em parceria com o Departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford, no Reino Unido. A proposta é ampliar o intercâmbio sobre energia limpa, povos indígenas, proteção da floresta, justiça climática e transição energética na Amazônia.