STF invalida marco temporal, mas pressão ruralista avança no Congresso com PEC 48

Ao derrubar o marco temporal, STF reafirma que direito indígena é originário e essencial para a preservação socioambiental da Amazônia e do Brasil.

O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria, nesta quarta-feira (17), para derrubar a tese do marco temporal, que restringia o reconhecimento de Terras Indígenas àquelas ocupadas em 5 de outubro de 1988. A decisão representa uma vitória histórica para os povos originários, ao reconhecer os efeitos de expulsões forçadas e deslocamentos ao longo do tempo, especialmente durante o regime militar, como impeditivos à fixação de um marco temporal.

O relator Gilmar Mendes, seguido por outros cinco ministros, afirmou que o país não pode manter “feridas abertas” de sua história colonial e defendeu que o direito indígena à terra não pode estar condicionado a uma data específica. O magistrado também propôs diretrizes administrativas para os processos de demarcação, como a fixação de um prazo de 10 anos para conclusão das demarcações pela União, e a possibilidade de permanência temporária de ocupantes não indígenas até o pagamento de indenizações.

Embora a maioria no STF já esteja consolidada, o julgamento do marco temporal será finalizado apenas nesta quinta-feira (18). A decisão, no entanto, não encerra a controvérsia: no Congresso, setores do agronegócio continuam pressionando pela aprovação da PEC 48, que tenta incorporar o marco temporal à Constituição. A proposta já passou pelo Senado e agora avança na Câmara dos Deputados.

Organizações indígenas e socioambientais veem na PEC 48 uma ameaça aos direitos garantidos pela Constituição de 1988 e alertam para os impactos socioambientais da medida. Estudos mostram que as Terras Indígenas estão entre os territórios mais preservados do país, funcionando como barreiras contra o desmatamento e a grilagem.

Em resposta à ofensiva legislativa, manifestações indígenas se intensificaram. Em Roraima, protestos bloquearam a BR-174. No Espírito Santo, comunidades Guarani interditaram trechos da ES-010. Os atos denunciam os riscos de retrocesso e reafirmam a luta por direitos originários e preservação dos modos de vida tradicionais.

Indígenas protestam contra o marco temporal bloqueando a BR-156 em Oiapoque, Amapá.
Indígenas bloqueiam a BR-156, em Oiapoque (AP), em protesto contra a PEC do marco temporal. Foto: PRF/Divulgação
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Mariano Cenamo: o homem que transformou a floresta em horizonte

"No Brasil Amazônia Agora, Mariano Cenamo ocupou um lugar...

El Niño no Brasil: Governo federal exige planos de prevenção dos estados em 30 dias 

El Niño no Brasil leva União a cobrar planos de prevenção contra incêndios, seca e impactos em lavouras, alimentos e energia.

34% das plantas da Amazônia usadas por povos tradicionais podem desaparecer 

Estudo alerta que 34% das plantas da Amazônia usadas por povos tradicionais podem desaparecer com a crise climática até 2080.

Quando a transparência deixa de ser exceção

A convivência saudável nasce quando falar a verdade deixa...