Acordo UE-Mercosul trava diante de divergências sobre regras ambientais e pesticidas

Especialistas alertam que cláusulas ambientais frágeis e uso de pesticidas proibidos na Europa dificultam a ratificação do acordo UE-Mercosul por países como França e Itália.

A assinatura do acordo UE-Mercosul, prevista para este sábado (20), voltou a ser colocada em xeque após novas declarações contrárias vindas da França. O presidente Emmanuel Macron reiterou que o país não apoiará o tratado sem garantias adicionais para os produtores locais, em meio a críticas crescentes sobre a discrepância entre os padrões ambientais e sanitários dos blocos.

Emmanuel Macron faz discurso oficial reforçando oposição francesa ao acordo UE-Mercosul.
Presidente francês Emmanuel Macron declarou que a França não apoiará o acordo UE-Mercosul sem garantias ambientais e proteção a agricultores locais. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Para agricultores franceses e especialistas ouvidos pelo Le Monde Diplomatique, a proposta da Comissão Europeia ainda apresenta salvaguardas insuficientes. Um dos principais pontos de impasse está nas diferenças regulatórias: países do Mercosul; como Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, seguem normas menos rigorosas em relação ao uso de pesticidas e à proteção ambiental.

A Comissão Europeia chegou a apresentar cláusulas de salvaguarda que preveem a imposição de tarifas caso o mercado europeu sofra desestabilização. No entanto, segundo Maxime Combes, da organização francesa AITEC, voltada para a justiça social, econômica e ambiental, “o mecanismo pode ser usado para gerenciar uma situação de emergência ao longo do tempo, mas não foi concebido para resolver as diferenças de competitividade entre os países europeus e os países do Mercosul”.

Além disso, especialistas apontam que a aplicação dessas salvaguardas é incerta. “A UE pode dar sua interpretação da cláusula de salvaguarda, mas os países do Mercosul podem não concordar com a duração das investigações ou com os limiares de ativação. Isso não é uma garantia real e pode levar a confusão jurídica”, alertou Mathilde Dupré, do Institut Veblen.

Paralelamente, a Comissão Europeia propôs a redução dos Limites Máximos de Resíduos (LMRs) de pesticidas mais perigosos em produtos importados. Embora vista como avanço, a medida é limitada. “É um primeiro passo, mas só resolve parte do problema. Das 72 substâncias proibidas na UE e afetadas por esses LMRs, apenas um quarto teria seus limites reduzidos”, destacou Dupré.

A abordagem atual se restringe aos resíduos presentes no produto final, sem considerar os impactos ao longo do ciclo produtivo. Para Thomas Uthayakumar, da Fundação para a Natureza e o Homem, isso não impede os danos à saúde dos trabalhadores, nem aos solos e ecossistemas dos países produtores. Ainda assim, ele avalia que medidas de reciprocidade podem incentivar mudanças positivas, pesquisas recentes indicam que a maioria dos agricultores franceses apoiaria a transição agroecológica caso as regras de comércio fossem mais equilibradas.

Diante dessas controvérsias, cresce a pressão por ajustes antes da formalização do acordo UE-Mercosul, que ainda enfrenta desconfiança em outras nações europeias como Itália, Polônia e Hungria. Para ambientalistas e especialistas em comércio, o futuro do tratado dependerá da capacidade de alinhar padrões e garantir benefícios mútuos, sem retrocessos socioambientais. O impasse mostra que, mais do que uma negociação econômica, o acordo UE-Mercosul é também um teste para a coerência das políticas verdes da União Europeia.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Embrapa investiga como mudar a digestão do gado para reduzir emissões de metano 

Embrapa identifica alvos na microbiota do gado Nelore que podem ajudar a reduzir emissões de metano e melhorar a eficiência alimentar.

Lula assina decreto que põe minerais críticos no Brasil em ordem de prioridade

Lula define três níveis de prioridade para minerais críticos no Brasil, com critérios de abastecimento, relevância econômica e impacto ambiental.

Desastre de Mariana completa 11 anos com registros de peixes com tumores e deformidades

Onze anos após o desastre de Mariana, monitoramento registra tumores e deformidades em peixes, apesar da redução da contaminação.