“A revolução da indústria brasileira começará quando houver a capacidade de ouvir o outro lado, sem impor achados, experiências e opiniões como “certas”
O Brasil precisa de mais cooperação entre a indústria e a sociedade. Quanto mais cooperação houver, mais teremos chance de nos sobressair. A indústria de transformação desenvolve a economia, por atuar com várias etapas que agregam valor, com fornecedores depois da natureza e tendo clientes nos comércios e serviços. Gera mais impostos e empregos de melhor qualidade, permitindo muito além do que a extração da natureza.
Só que falta a cooperação. Uma boa parte da indústria perdeu a clareza sobre o que são as suas pautas e a distinção entre ela e o comércio. O livro “A Ilusão Neoliberal da Indústria” de Haroldo da Silva analisa algumas das razões da perda de capacidade. A indústria e suas representações também enfrentam a perda da capacidade de ouvir e de dialogar. Nossos barões industriais perderam, em grande parte, a capacidade de ouvir contrapartes. Sem diálogo e uma escuta atenta será difícil superar as barreiras complexas e sistêmicas que o país e o mundo de hoje enfrentam.
A construção da inovação tecnológica, ao contrário do que pregam alguns, não está na subordinação dos sistemas de educação para a formação de mais técnicos. Este modelo leva a formação de mão de obra treinada para a atuação como operários. Precisamos de operários, mas precisamos ainda mais de engenheiros e senso crítico para a criação do novo. A inovação vem da criatividade e da capacidade de ousar e desafiar os sistemas atuais. A inovação precisa da sociologia, para compreender as massas. A inovação precisa da ciência política, para a construção de um diálogo social.
O novo, como uma ação empreendedora e modificadora da realidade, irá além de um conformismo obediente. E não tem sido este o grande desafio colocado pelas indústrias nacionais. A produção do autocontrole, onde nos impomos regras e desafios, levando a uma sociedade produtiva não implicará na criação de inovações, pois ela atua contra a liberdade e entre em choque com a criatividade inovadora.
O desenvolvimento artístico e questionador tem mais possibilidade de construir uma inovação tecnológica do que a atuação excessivamente obediente da sociedade da disciplina, do controle e da punição. O sistema de inovação nacional não será transformado sem o diálogo empresário-universidade. Mas há tanto medo dos dois lados, que pouco se ouve da contraparte.
A revolução começará quando houver a capacidade de ouvir o outro lado, sem impor seus achados, experiências e opiniões como “certas”. A revolução da construção do conhecimento para a inovação e reconstrução da indústria nacional se dará quando cada um confessar as suas dificuldades e mazelas. Fora disso, seguiremos em um mundo ilusório achando que somos um “Brasil grande” ou um “Brasil rico”, enquanto a realidade é exatamente a oposta.
Em verdade estamos com muita ocupação informal, muito emprego de baixa remuneração e uma grande sede de crescimento e de transformação da realidade. Esta transformação se dará quando conseguirmos dialogar, sem impor. Isso vale para as regiões do Brasil e para os demais atuantes no debate público. Precisamos de menos prescrições para o outro e de mais entendimento sobre a necessidade de cada um. Fora disto, seguiremos a criar castas e desigualdades, que é algo que somos pródigos.

