Polo industrial de Manaus: O estudo que o Brasil ignorou – Parte II

“A propósito, o Brasil prometeu ao mundo – no Acordo de Paris de 2015 – reconstruir 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. A Amazônia — por um caminho menos celebrado — já oferece uma “obra” paralela: a floresta que não caiu.”

Coluna Follow-Up

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Há uma crença recorrente — quase um vício analítico — na discussão nacional sobre desenvolvimento e meio ambiente: a de que a Zona Franca de Manaus é apenas um arranjo fiscal, uma renúncia localizada, uma política regional compensatória. Mas essa leitura, além de rasa, omite o que a ciência brasileira já demonstrou, com dados, modelos e rigor internacional:

E não se trata de opinião. Trata-se de evidência econométrica revisada por pares, exposta no estudo financiado pela SUFRAMA e pela Nokia, e desenvolvido por alguns dos maiores pesquisadores da região. Instrumentos Econômicos para a Proteção da Amazônia – A experiência do Polo Industria de Manaus, José Alberto Costa Machado, José A.Mota, Alexandre Rivas e Denis Minev.

1. O resultado que ninguém quis ver: o PIM reduz entre 70% e 84% do desmatamento potencial no Amazonas

O estudo construiu três modelos econométricos independentes. O terceiro — o mais robusto — estimou diretamente o “Efeito PIM”, isto é, a capacidade do Polo de reduzir o desmatamento em comparação com um cenário sem PIM.

E o resultado foi monumental:

  • 70% a 77% de redução do desmatamento segundo a r modelagem econométrica;
  • chegando a 84% dependendo da configuração do modelo.(Resultados descritos no estudo: linhas L5–L14 do trecho )

Esse percentual não é inferência política — é cálculo, com base em dados de 2000 a 2006, utilizando painel econométrico e análises contrafactuais.

O que isso significa?

E se o Amazonas tivesse seguido a trajetória do Pará no mesmo período, como o próprio estudo compara, a perda florestal seria ecologicamente catastrófica e politicamente irreversível.

2. A evidência do carbono: bilhões de dólares em emissões evitadas

O estudo avançou além da redução do desmatamento. Ele estimou a quantidade de carbono cuja emissão foi evitada graças à floresta que deixou de ser derrubada pela presença do PIM.

Resultado:

  • Entre 1,1 bilhão e 10 bilhões de dólares em emissões evitadas no período analisado (2000–2006).
  • Um benefício anual entre US$ 160 milhões e US$ 1,4 bilhão.

Esses valores consideram apenas o carbono estocado, sem incluir serviços ecossistêmicos adicionais, como:

  • ciclagem da água, que viabiliza o agronegócio do Centro-Oeste, prevenção de incêndios, proteção da biodiversidade e sua expansão, oferta de bioativos e respectiva bioprospecção.

O estudo reconhece explicitamente que, se esses fatores fossem incluídos, o valor seria muito maior. 

3. O que o estudo conclui — e o País não quis acolher…

O estudo chega a afirmar que uma eventual extinção do Polo:

    *   aumentaria o desmatamento,

  • criaria novos vetores de degradação em áreas hoje estáveis,
  • e poderia até comprometer a soberania nacional sobre regiões remotas.

Em outras palavras:

4. Por que ignorar uma verdade tão poderosa?

Porque reconhecer a ZFM como política ambiental obrigaria o país a reescrever seu próprio debate climático:

  • Não se trata apenas de incentivos fiscais;
  • Não se trata apenas de desenvolvimento regional;
  • Não se trata apenas da Amazônia.

Trata-se de um modelo único no planeta, onde atividade industrial reduz desmatamento, o inverso do que ocorre em todos os outros biomas tropicais industrializados.

E isso incomoda.

Incomoda porque desmonta a narrativa simplista de que a Amazônia só pode ser preservada através da contenção da economia.

A ciência mostra o contrário:

5. O que a Follow Up propõe agora

Se a ciência já demonstrou, por que o debate público continua agachado?

A partir de 2026, o desafio é outro:

  • Atualizar o estudo com dados de 2007–2025.
  • Recalcular o Efeito PIM em um período de expansão industrial e transformações climáticas.
  • Incorporar métricas de emissões reais e potenciais pela metodologia do IPCC.
  • Construir um sistema de MRV (Monitoramento, Relato e Verificação) que permita certificar o PIM como política ambiental de preservação indireta — algo já sugerido pela literatura desde 2008.

E, sobretudo:


E assim, a pergunta pede passagem…

A pergunta que abriu esta reflexão —

“O que significaria demonstrar com ciência e transparência, que o PIM neutraliza — por preservação indireta — o carbono que emite?”

— já tem resposta:

O estudo existe. Os números existem. A ciência existe. Falta apenas coragem para admitir o óbvio.

A propósito, o Brasil prometeu ao mundo – no Acordo de Paris de 2015 – reconstruir 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. A Amazônia — por um caminho menos celebrado — já oferece uma “obra” paralela: a floresta que não caiu. E aqui emerge a tese que incomoda os mapas mentais fáceis: o Polo Industrial de Manaus, ao concentrar emprego, renda e cadeia urbana numa economia de baixa dependência direta da derrubada, pode operar como infraestrutura econômica de contenção do desmatamento.

No recorte 2000–2006, o “efeito PIM” é traduzido como desmatamento evitado entre 1,53 e 2,19 milhões de hectares no Estado do Amazonas — o que recoloca a ZFM no lugar que falta na política climática: não apenas indústria na floresta, mas floresta preservada por uma engenharia econômica.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora

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