Das veias abertas ao protagonismo amazônico

Com o retumbante sucesso da estratégia de “inundar a área” (“flood the zone”) é difícil enxergar o mundo sem as modificações impostas ao cotidiano pela nova postura dos EUA. Afinal, cerca de metade do território da Venezuela é considerado “Amazônia” e, como morador da Amazônia brasileira, é inevitável colocar em contraponto o que se passa aqui com o que se passa por lá.

A construção de infraestrutura na Amazônia segue sendo uma necessidade e, nestes tempos, a ocupação com atividades econômicas que não seja mais das “veias abertas da América Latina” (como já esclareceu detalhadamente o Eduardo Galeano).

A questão que se impõe é: como fazer para e pelo interesse nacional? Afinal, não faltam os “comissionistas”, que vão encontrar um jeito de entregar riquezas para estrangeiros. Como mudar esta ordem é que vira o desafio para todos nós, pois as veias abertas não são mais disfarçadas – elas estão escancaradas. Felizmente o Brasil possui uma boa relação com os EUA, nas várias dimensões. A questão que nos toca é como manter as boas relações, ao mesmo tempo em que passamos a gerar mais riquezas para reduzir a desigualdade nacional frente aos países mais ricos.

protagonismo amazonico
Balsa leva contêineres no Amazonas: na vazante, navegação fica mais difícil (Foto: Sndarma/Divulgação)


Numa eventual ausência de riqueza ou de força, a soberania poderia ser colocada em dúvida. Por isso, é fundamental começarmos a transformar por nós mesmos a realidade local, para que não se repita o que aconteceu com a borracha em tantas outras
possibilidades que a natureza amazônica pode oportunizar. Como nunca tivemos um passado próspero, o que precisamos é trazer o “país do futuro” para o país do presente.

Sem isso, poderemos nos tornar colônia de algum dos impérios globais que estão se formando. A ordem internacional abalada precisa nos levar a construir uma nova postura interna, tanto de geração de riqueza, saindo de uma autodefesa pela amizade, para uma autodefesa pela riqueza e pela própria força.


Para isso necessitaremos sair das commodities tradicionais e passar para a presença de capital nacional, empresas nacionais e geração de tecnologias e produtos nacionais, tanto para o mercado brasileiro quanto para o exterior. Será impossível fazer isso apenas com o agro ou o extrativismo mineral: precisamos adicionar valor, para não seguir sendo uma colônia virtual, pois, se for assim, poderemos nos tornar uma colônia real.

A transformação brasileira pode manter tudo o que temos de bom, inclusive ser amigo dos EUA, China, Europa e Rússia. Ao mesmo tempo em que, precisaremos aumentar a capacidade de gerar riqueza e proteção. Tecnologia e capital nacional são fundamentais para isso. Não será atraindo mais capital estrangeiro que reduziremos as nossas dependências. O mundo mudou e precisaremos mudar com ele. Com isso, usar melhor as nossas veias e baixar o juro ajudará a chegar neste caminho.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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