“O Amazonas conhecia o calendário do fogo, os municípios críticos e o risco de setembro. Com Manaus sob uma atmosfera tóxica, a sociedade precisa saber o que foi prometido, o que já foi executado e por que medidas essenciais chegaram tão tarde”
O calendário do fogo era conhecido. Os municípios de maior risco estavam mapeados. O pico das queimadas havia sido previsto para setembro. Ainda assim, o Amazonas chegou ao período mais perigoso do ano com parte de seus principais instrumentos de prevenção em processo de formalização.
Enquanto Manaus respirava fuligem e o Estado liderava o número de focos de calor no país, planos, proibições e estruturas de coordenação que deveriam anteceder a estiagem ainda buscavam sair do papel. A fumaça que encobre a cidade expõe uma pergunta incômoda: o que deixou de ser feito quando ainda havia tempo para prevenir?
O perigo que entra pela respiração
Na quinta-feira, 17 de setembro, a concentração média de partículas finas em Manaus chegou a 94,7 microgramas por metro cúbico, nível classificado pela própria prefeitura como “muito ruim”. Segundo o comunicado municipal, a fumaça vinha principalmente das queimadas em Itacoatiara, Careiro da Várzea, Iranduba e Manacapuru.
O material particulado conhecido como MP2,5 é formado por partículas microscópicas capazes de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar os alvéolos. A exposição aumenta o risco de irritação, crises de asma, agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes, trabalhadores expostos ao ar livre e pessoas com doenças crônicas suportam a parcela mais pesada dessa conta.
A fumaça, portanto, ultrapassa a competência isolada dos órgãos ambientais. Ela alcança a saúde pública, a educação, o trabalho, a assistência social e o funcionamento cotidiano da cidade. Quando respirar se torna um risco, a queimada deixa de ser apenas uma prática rural mal controlada e passa a configurar uma emergência coletiva.
Uma crise conhecida com antecedência
Entre 1º e 7 de setembro, o Amazonas registrou 1.167 focos de calor, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O número colocou o Estado na liderança nacional naquele período, à frente do Pará e da Bahia. Seis municípios amazonenses apareciam entre os dez com mais focos registrados no país.
Até 7 de setembro, o Estado já acumulava 3.698 focos em 2026, aproximando-se dos 4.545 registrados durante todo o ano de 2025. Em julho, o próprio comando do Corpo de Bombeiros já havia informado que o pico das ocorrências seria esperado para setembro.
A previsão estava apoiada em uma experiência longa e dolorosa. O plano estadual reconhece que agosto e setembro concentram historicamente os maiores números de queimadas. O documento também registra uma tendência de crescimento a partir de 2019 e lembra que, em 2024, o Amazonas atingiu o recorde de 25.499 focos de calor.
As crises de 2023 e 2024 já haviam mostrado como incêndios na Região Metropolitana e em áreas próximas aos rios podem transportar fumaça até Manaus e mantê-la sobre a cidade durante semanas. Havia dados, memória institucional, imagens de satélite e previsão climática suficientes para antecipar a resposta.
O fogo pode ser planejado
O uso do fogo ainda faz parte da realidade produtiva de milhares de agricultores familiares, comunidades tradicionais e povos indígenas. A legislação brasileira reconhece a queima controlada, a queima prescrita e o uso tradicional e adaptativo. Esse reconhecimento vem acompanhado de critérios técnicos e responsabilidades.
Uma queima controlada exige autorização, avaliação das condições meteorológicas, delimitação da área, construção de aceiros, comunicação aos vizinhos, disponibilidade de pessoal treinado e acompanhamento até a extinção completa do fogo. Quando o risco climático se eleva, as autorizações precisam ser suspensas.
A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei nº 14.944, de 2024, define a prevenção como uma atividade contínua. Também determina a articulação entre União, estados, municípios, sociedade civil e setores produtivos, além de estimular assistência técnica e alternativas agrícolas que reduzam gradualmente a dependência do fogo.
Planejar o uso significa conhecer antecipadamente quem pretende queimar, onde, quando, com qual finalidade e sob quais condições. Significa cruzar autorizações com o Cadastro Ambiental Rural, imagens de satélite, previsões de chuva, umidade do solo e direção dos ventos. Significa ainda acompanhar cada ocorrência desde a ignição até o encerramento da operação.
Fora desses critérios, a queimada transforma-se em uma aposta feita com a saúde de milhões de pessoas.
Quando a providência chega no meio da fumaça
A quinta fase do Plano Estadual de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas, com vigência prevista para 2026–2028, foi formalmente instituída pelo Decreto nº 55.338 em 16 de setembro de 2026. Na mesma data, o Decreto nº 55.339 estabeleceu o período proibitivo para o uso do fogo e anunciou medidas relacionadas à qualidade do ar.
Quando esses atos foram publicados, o Amazonas já havia liderado os focos de calor na primeira semana do mês e Manaus já enfrentava sucessivos dias de fumaça.
Há também uma questão de planejamento. O Plano de Manejo Integrado do Fogo do Amazonas ainda aparecia publicamente como minuta em agosto. A oficina que iniciou sua construção ocorreu nos dias 28 e 29 de abril, reunindo órgãos estaduais, federais e parceiros técnicos. O documento contém um plano operativo para 2026, embora sua consolidação tenha avançado às vésperas da etapa mais crítica da estiagem.
O governo estadual tomou providências. Em maio, anunciou a contratação de 153 brigadistas e o envio de mais de cem bombeiros ao interior, ampliando a capacidade disponível. O esforço precisa ser reconhecido e, ao mesmo tempo, examinado diante da dimensão alcançada pela crise. Quantas equipes estavam efetivamente instaladas nos municípios críticos? Quais equipamentos possuíam? Quanto tempo levavam para alcançar os focos? Quantas queimadas foram interrompidas antes de se transformarem em incêndios?
O que deveria estar funcionando
O próprio Plano Estadual de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas descreve os instrumentos necessários. Entre eles está a elaboração anual de um plano operativo que defina áreas prioritárias, equipes, equipamentos, recursos financeiros, calendário de ações preventivas, métodos de combate e responsabilidades institucionais.
O documento também prevê a criação do Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional do Amazonas, o Ciman Estadual. Durante a estiagem, esse centro deveria reunir-se semanalmente, integrando Corpo de Bombeiros, Sema, Ipaam, Defesa Civil, Sipam e prefeituras sob uma estrutura coordenada de decisão.
Outra medida prevista é o funcionamento de uma sala interinstitucional de monitoramento e alerta de focos de calor. Essa estrutura deveria acompanhar, em tempo real, a localização das ocorrências, o risco de propagação, as condições meteorológicas, a direção da fumaça e a disponibilidade das equipes de resposta.
O plano estabelece ainda a formação e a reativação de brigadas municipais, a criação de postos locais de alerta e denúncia, a elaboração de planos municipais de prevenção, a fiscalização por imagens de alta resolução e o desenvolvimento de mecanismos de autuação remota.
Na área produtiva, atribui à Sema, ao Ipaam, ao Idam e à Sepror a responsabilidade de orientar produtores, divulgar técnicas alternativas ao fogo e oferecer capacitação para as situações em que a queima controlada ainda seja necessária.
Essas ações deveriam ganhar força antes de julho, quando começa a fase mais seca em grande parte do Estado. Em setembro, a prioridade já deveria estar concentrada no combate rápido, na proteção da população e na responsabilização dos infratores.
A fragilidade admitida pelo próprio Estado
O diagnóstico oficial reconhece limitações que ajudam a compreender a distância entre os planos e a realidade. São citadas a falta de infraestrutura adequada, a insuficiência de recursos, a dificuldade de acesso aos pontos de alerta, a demora burocrática no encaminhamento dos processos e a necessidade de manutenção das viaturas.
Em determinada etapa da operação estadual, 14 viaturas ficaram inutilizadas em apenas seis meses. Em um território de 1,57 milhão de quilômetros quadrados, com grandes distâncias, poucas estradas e comunidades acessíveis apenas por rios, a indisponibilidade de veículos, embarcações ou aeronaves compromete justamente o elemento decisivo no combate ao fogo: o tempo de resposta.
A fiscalização também precisa produzir consequências. Identificar um foco pelo satélite constitui apenas o início do trabalho. É necessário chegar à área, caracterizar a ocorrência, verificar a existência de autorização, interromper a propagação, identificar os responsáveis e acompanhar a cobrança das multas e a recuperação dos danos.
Sem essa sequência, acumulam-se mapas, alertas e relatórios enquanto a fumaça continua avançando.
Transparência para respirar e prevenir
Diante da gravidade do quadro, o Governo do Amazonas e as prefeituras envolvidas precisam tornar públicos, com ampla divulgação e em linguagem acessível, os compromissos assumidos para a temporada de queimadas de 2026 e o estágio de execução de cada medida.
A sociedade tem o direito de conhecer o Plano Operativo de Prevenção e Combate de 2026, sua data de aprovação e seu orçamento. Precisa saber se o Ciman Estadual foi instalado, quantas reuniões realizou e quais decisões tomou. Também deve ter acesso à distribuição das brigadas, dos bombeiros, das viaturas, das embarcações e dos equipamentos em cada município.
É necessário divulgar ainda o número de autorizações de queima concedidas e suspensas, as propriedades fiscalizadas, os autos de infração emitidos, os incêndios controlados e o tempo médio de resposta. Itacoatiara, Careiro da Várzea, Iranduba e Manacapuru precisam apresentar seus planos municipais, suas estruturas de combate e os resultados das operações realizadas.
A saúde pública também deve prestar contas. Manaus e o Amazonas necessitam de boletins diários sobre a qualidade do ar, evolução dos atendimentos por doenças respiratórias, protocolos para escolas, distribuição de máscaras adequadas e orientação específica aos grupos mais vulneráveis.
Essa transparência permitirá identificar o que foi planejado, o que saiu do papel, o que chegou tarde e o que permanece pendente. Quando milhões de pessoas são submetidas a uma atmosfera tóxica, informar apenas que a situação está sendo monitorada oferece muito pouco.
É preciso apresentar datas, responsáveis, orçamento, ações executadas e resultados verificáveis. O Amazonas conhece há muitos anos o calendário da seca e das queimadas. A prevenção precisa obedecer ao mesmo calendário.