“Congresso Internacional de Biologia de Peixes retorna à capital amazonense em 2028 e abre uma oportunidade estratégica para fortalecer a pesquisa, ampliar a cooperação científica internacional e transformar conhecimento sobre a biodiversidade em soluções para conservação, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável”
Quando um dos maiores encontros científicos do mundo dedicados à Biologia de Peixes escolhe Manaus como sua próxima sede, a notícia transcende o calendário acadêmico. Ela representa o reconhecimento de décadas de produção científica construída na Amazônia e projeta a região como protagonista de uma agenda global que reúne biodiversidade, mudanças climáticas, alimentação, inovação e desenvolvimento sustentável.
O anúncio de que o 17º Congresso Internacional de Biologia de Peixes (ICBF) será realizado em Manaus, em 2028, foi recebido com entusiasmo pela comunidade científica internacional durante o encerramento da edição realizada em Vancouver. Entre os responsáveis por essa conquista está o pesquisador Adalberto Luis Val, um dos maiores nomes da ciência amazônica e referência internacional em fisiologia de peixes.
Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Adalberto Val dedicou sua carreira a compreender como os peixes amazônicos respondem às transformações ambientais, aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e às peculiaridades dos ecossistemas de água doce da maior floresta tropical do planeta. Sua trajetória ajudou a consolidar o prestígio internacional da pesquisa produzida na Amazônia.
A escolha de Manaus também dialoga com uma história iniciada há cerca de meio século, quando a célebre Expedição Alpha Helix reuniu pesquisadores de diferentes países na Amazônia para realizar estudos pioneiros sobre a fisiologia dos peixes amazônicos. Aquela experiência inaugurou uma tradição científica que permanece viva no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM/INPA) e em diversos grupos de pesquisa espalhados pela região.
Passados mais de vinte anos desde que Manaus sediou o congresso, em 2004, o retorno do evento confirma que a Amazônia continua sendo um dos principais laboratórios naturais do planeta para o estudo da evolução, da adaptação, da biodiversidade e dos efeitos das mudanças climáticas sobre organismos aquáticos. Mas talvez o maior legado do congresso esteja além das conferências e apresentações científicas.
Durante uma semana, centenas de pesquisadores de todos os continentes compartilharão resultados, metodologias e experiências acumuladas em diferentes ecossistemas do mundo. Para estudantes, professores, pesquisadores e instituições amazônicas, trata-se de uma oportunidade rara de estabelecer novas redes de colaboração, construir projetos internacionais, ampliar intercâmbios acadêmicos e aproximar jovens cientistas de alguns dos principais especialistas do planeta.
A ciência contemporânea avança cada vez mais por meio da cooperação. Grandes descobertas dificilmente surgem de esforços isolados. Elas nascem da circulação de ideias, da comparação de resultados, da integração entre laboratórios e da formação de equipes multidisciplinares. Receber esse ambiente de diálogo em Manaus representa um ativo estratégico para toda a Amazônia.
Há ainda uma dimensão prática que interessa diretamente à sociedade.
A Amazônia abriga a maior diversidade de peixes de água doce conhecida. Essa riqueza biológica permanece apenas parcialmente compreendida. Muitas espécies apresentam potencial para .de produção, para a aquicultura tropical, para o desenvolvimento de novos alimentos e até para pesquisas biomédicas.
O congresso deverá ampliar discussões sobre manejo sustentável dos recursos pesqueiros, conservação dos ambientes aquáticos, recuperação de estoques naturais e uso racional da biodiversidade. São temas diretamente relacionados à segurança alimentar, especialmente em uma região onde o pescado representa uma das principais fontes de proteína para milhões de pessoas.
A valorização científica das espécies amazônicas também pode estimular pesquisas sobre qualidade nutricional, bioativos naturais, novas cadeias produtivas da bioeconomia e agregação de valor aos recursos da floresta e dos rios. Produzir conhecimento sobre a biodiversidade significa ampliar as possibilidades de utilizá-la com inteligência, responsabilidade e benefícios compartilhados.
Essa aproximação entre ciência, produção sustentável e desenvolvimento regional é uma das grandes vocações da Amazônia.
Ao reunir especialistas em fisiologia, genética, ecologia, comportamento, evolução, conservação e aquicultura, o congresso cria um ambiente fértil para reflexões que dialogam diretamente com os desafios da região: como produzir alimentos preservando os ecossistemas, como adaptar os recursos pesqueiros às mudanças climáticas e como transformar conhecimento científico em políticas públicas e oportunidades econômicas.
Nesse contexto, o trabalho desenvolvido por Adalberto Val ganha um significado ainda maior. Sua trajetória demonstra que a ciência produzida na Amazônia pode ocupar posição de liderança internacional quando recebe continuidade, investimentos e cooperação.
Em 2028, Manaus voltará a receber pesquisadores de todas as partes do mundo. Eles encontrarão muito mais do que uma floresta exuberante ou uma biodiversidade impressionante. Encontrarão uma comunidade científica madura, instituições reconhecidas internacionalmente e uma região que reúne desafios e oportunidades capazes de orientar algumas das questões mais importantes da ciência do século XXI.
A escolha de Manaus para sediar o ICBF representa, acima de tudo, um reconhecimento de que compreender a Amazônia é uma tarefa que interessa ao mundo inteiro. E poucas formas de construir esse futuro são tão promissoras quanto aproximar pesquisadores, compartilhar conhecimento e transformar a extraordinária diversidade da floresta em inteligência para conservar, alimentar e desenvolver.