Moda sustentável: corante à base de mandioca e tecido de cânhamo

Moda sustentável – em 2021, dados da empresa Loga — responsável pela coleta, tratamento e destinação final do lixo na cidade de São Paulo — indicaram que 20 toneladas de roupas pós-consumo e 35 toneladas de resíduos têxteis são descartadoas no município diariamente. Esses tecidos são, em grande parte, gerados pelas empresas de confecção dos bairros do Brás e Bom Retiro, localizados na região central, e descartados em aterros sanitários indevidamente. 

Para buscar soluções efetivas para os impactos causados pela indústria têxtil e de moda, como o descarte inadequado de resíduos têxteis, o Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) Sustexmoda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP realiza diversas iniciativas socioambientais para disseminar informações sobre o tema. 

Desde 2019, o grupo desenvolve um projeto de lives para possibilitar rodas de conversas com pessoas envolvidas na esfera sustentável da cadeia produtiva fashion. A realização das lives é uma iniciativa de alunos de mestrado da USP e de pesquisadores do NAP Sustexmoda. 

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Foto: Instagram/Sustexmoda

No início de 2022, as lives foram redirecionadas para o YouTube com o objetivo de atingir um público mais abrangente. Semanalmente, o projeto reúne convidados de diversas áreas profissionais para discutir temas relevantes e urgentes no universo da moda e, portanto, agregar diferentes perspectivas sobre estas problemáticas.

De acordo com Juliana Bastos, mestranda do curso de Têxtil e Moda da USP, voluntária do Sustexmoda e mediadora do bate-papo, a iniciativa demonstra o quanto a moda pode ser interdisciplinar. “Já conversei com estilistas e costureiros, mas também com engenheiros, professores e profissionais de órgãos públicos”, explica.

Foto: Arquivo pessoal
Juliana Bastos, pesquisadora do Sustexmoda e mediadora das lives – Foto: Divulgação / Sustexmoda

Segundo a professora Francisca Dantas Mendes, coordenadora do Sustexmoda, a sustentabilidade envolve três pilares: economia, sociedade e meio ambiente,  e por conta disso a gama de convidados é variada. O grupo procura pessoas que possuam experiências para compartilhar e busquem fazer diferença no universo da moda.

“Inicialmente trouxemos pessoas que iam se apresentar no I Congresso de Sustentabilidade Têxtil e Moda, que aconteceu em maio de 2019. Fizemos uma maratona de lives, falando de moda sustentável, trazendo o olhar de pesquisa, soluções e histórias para contar sobre cada pilar, com pessoas relacionadas a essas questões e aos impactos. Gostamos de contar notícias boas ou trazer soluções possíveis para os impactos negativos.”

Diferentes temáticas inseridas no âmbito da moda sustentável já foram abordadas nas lives, desde o upcycling — que transforma resíduos têxteis em novas roupas, alongando seu ciclo de vida — até a inclusão e diversidade na moda. Outros tópicos como a circularidade da moda, preservação de saberes ancestrais e a possibilidade de transformação dos resíduos têxteis em energia também foram destaque. Atualmente, a iniciativa possui prioridade na agenda do Sustexmoda.

Moda, modus: tecnologias originárias na atualidade

Em uma das últimas lives que foram ao ar, Juliana Bastos conversou com Sioduhi Piratapuya, pós-graduando em Negócios e Estética da Moda na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e fundador/diretor criativo da empresa Sioduhi Studio. O estilista é da etnia Piratapuia, do território indígena do Alto Rio Negro, localizado em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. 

Sua marca tem como referência o futurismo indígena, movimento que visa resgatar os saberes ancestrais dos povos originários por meio de obras que dialogam com novas tecnologias, como a moda. Sioduhi afirmou que seu interesse pela moda se iniciou em sua comunidade, onde existiam escolas de alfaiataria e as peças eram concebidas com materiais naturais. Para ele, os conhecimentos indígenas são a base que permeia a sustentabilidade. 

O estilista também desenvolveu a tecnologia Maniocolor, um corante têxtil à base de mandioca. A ideia surgiu quando Sioduhi incluiu o tingimento natural em sua coleção Pamiri 23, a partir da extração de aroeira. Por conta da ameaça de extinção da planta, ele começou a utilizar cascas de mandioca brava — espécie tóxica aos humanos e animais — para a produção de um novo corante. A mandioca-brava foi escolhida devido à sua pigmentação forte e grande potencial de reaproveitamento e replantio, oferecendo mais serventia ao território indígena. 

A Sioduhi Studio fomenta o protagonismo indígena em todos os processos que fazem parte da cadeia de criação. Além disso, a marca incentiva jovens a manterem essa prática de manuseio com fibras naturais e utilização de material originário. É desse modo que histórias invisibilizadas na moda e na história de modo geral podem ser contadas, de acordo com o fundador. 

Durante o diálogo, Sioduhi também ressaltou que desenvolver uma marca sustentável é um processo gradual. “Quando falamos de sustentabilidade, é necessário ter cautela. Quando começamos, nem sempre vamos ter acesso às matérias-primas menos agressivas ao meio ambiente. Elas são caras hoje em dia. É preciso começar a se movimentar aos poucos e em certo ponto criar mais corresponsabilidade para com o que estamos criando.” Assista à live na íntegra clicando aqui.

O futuro da moda é circular

Em 2022, Natália Ba, bacharel em Negócios da Moda, mestre em Gestão de Design e criadora da marca Guilla Brazil, conversou com a mediadora Juliana Bastos sobre algumas questões que envolvem a circularidade da moda. A convidada desenvolve e gerencia produtos sustentáveis, voltados para empresas que desejam adaptar seu modelo de negócios à economia circular da indústria da moda. 

Ela explica na live que, de modo geral, o que rege a indústria da moda atualmente é a economia linear, que compreende os processos de extração, produção, consumo e descarte de um produto. Na economia circular, a cadeia têxtil deve acontecer em um círculo fechado, onde a matéria que entra jamais pode ser descartada, ela deve ser reaproveitada e passar por um novo ciclo de usabilidade. Os princípios bases desse ecossistema englobam um ciclo biológico e um ciclo técnico. 

O ciclo biológico procura eliminar resíduos e poluição desde o princípio da produção, manter os materiais em uso e regenerar os sistemas naturais. Já no ciclo técnico, a matéria deve passar por processos que mantenham ou prolonguem seu ciclo de vida, sejam eles reciclagem, remanufatura, reutilização ou redistribuição. Para Natália, não há como discutir sustentabilidade sem abordar a economia circular.

Durante a live, ela também diz que desenvolveu sua tese de mestrado voltada para todos os agentes responsáveis pela produção e descarte indevido de lixo têxtil. Para além das ações de empresas, ela investigou de que maneira os consumidores poderiam participar e colaborar para o desenvolvimento de uma cadeia têxtil mais sustentável.

anto sua pesquisa quanto um relatório sobre consumidores responsáveis do Instituto Akatu — organização sem fins lucrativos que mobiliza o consumo consciente — indicaram que o público deseja que as marcas atuem de forma sustentável, mas não querem se responsabilizar com o descarte da compra. “Se o consumidor quiser jogar uma peça no lixo, não temos o que fazer. Mas se nós, marcas e professores, fizermos uma pesquisa e educarmos esse consumidor, acredito que conseguiremos mudar isso”, afirmou Natália. 

Algumas soluções encontradas pela convidada seriam o upcycling, o downcycling e a reciclagem. O upcycling, como citado anteriormente, é um processo de transformação de resíduos têxteis em novos materiais com melhor qualidade e valor ambiental. A reciclagem é a recuperação de um produto para que ele possa ser reutilizado sem perder suas características técnicas.

Já o downcycling é um método de reciclagem geralmente utilizado em materiais que não podem ser reciclados continuamente, como o plástico. Esse processo confere menor qualidade e durabilidade ao objeto, ainda que auxilie a diminuir o descarte inapropriado. 

Além dessas práticas, Natália cita a logística reversa, processo no qual o consumidor devolve um produto usado para o comerciante e/ou distribuidor do qual comprou, concedendo a oportunidade de reaproveitamento do material para a empresa. 

O aspecto mercadológico da problemática também foi abordado durante o bate-papo. Segundo Natália, é necessário observar quais processos são empregados em cada empresa para ser possível revertê-los em estratégias sustentáveis gradualmente. Mas ela alerta que é preciso ter cuidado para não praticar o greenwashing — técnica de marketing que promove discursos, ações e propagandas sustentáveis que não se sustentam na prática. 

Assista à live na íntegra neste link.

Sobre o Sustexmoda

O Sustexmoda surgiu em 2014 devido às inquietações de um grupo de pessoas quanto aos impactos negativos causados pelo universo que compreende a moda. Em 2017, foi homologado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) da USP como o Núcleo de Pesquisa (NAP) Sustexmoda, coordenado pela professora Francisca Dantas Mendes. 

Os pesquisadores realizam estudos e publicações sobre a sustentabilidade na moda, desenvolvem projetos socioambientais e eventos acadêmicos com o objetivo de disseminar informações e buscar soluções efetivas para os impactos causados na economia, sociedade e meio ambiente pela cadeia têxtil e indústria da moda. 

Entre as iniciativas do núcleo de pesquisa estão os projetos socioambientais Ubuntu, Botão de Flor, Girassol, Fashion Upcycling Industrial, Silk Social e Mobile Upcycling Industrial, o Congresso Internacional de Sustentabilidade em Têxtil eModa, o Residômetro têxtil e as lives semanais no YouTube. 

Para saber mais, acesse a página do grupoInstagram e Facebook do Sustexmoda. Também assista a outras lives disponíveis no YouTube  clicando aqui.

Texto publicado em Jornal da USP

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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