Os mercados regionais brasileiros

“[…] com a brusca redução na produtividade dos recursos naturais (desmatamentos, assoreamento dos rios, perda da biodiversidade, etc.), muitas áreas no Vale do Jequitinhonha, no Vale do Mucuri, em Microrregiões do Rio Doce, tornaram-se áreas economicamente deprimidas. Atualmente, o mercado regional não é totalmente inexpressivo graças às intensas transferências de renda do Governo Federal para as famílias e as transferências fiscais para as Prefeituras locais, as quais ampliam o poder de compra local.”

Paulo R. Haddad
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Quanto maior a população, quanto mais bem distribuída a renda e a riqueza e, principalmente, quanto maior a produtividade total dos fatores de produção, maior será o tamanho do mercado da região, o qual evolui com mudanças nesses três vetores, passando por fases de auge, de
estabilidade e de declínio. Vejamos uma ilustração histórica.

Em 1960, o Centro-Norte do Mato Grosso era um grande vazio econômico, com grande parte de sua escassa população vivendo em nível de subsistência. Após 1970, quando ocorreu a revolução econômica dos Cerrados, através de inovações científicas e tecnológicas sob a liderança do Ministro Alysson Paolinelli, a Região se transformou em um dos principais celeiros mundiais da produção de proteína animal e vegetal.

A população cresceu geometricamente (Primavera do Leste, Sorriso, Sinop, Nova Mutum, etc.), a produtividade total dos fatores de produção superou algumas regiões do Meio Oeste dos EE.UU. e houve a emergência de uma classe média de renda alta nas zonas rurais. Resultado:
criou-se um amplo e diversificado mercado regional e a prosperidade econômica deve permanecer por algumas gerações.

O contraposto: em 1960, o Leste de Minas era uma região populosa, de grande potencial econômico, com diversidade de recursos naturais renováveis e não renováveis e futuro econômico promissor. Contudo, de Muriaé a Governador Valadares, segundo a Fundação Bioatlântica, instalaram-se cerca de 200 serrarias, que exploraram predatoriamente a Mata Atlântica para negócios com carvão vegetal, madeira para construção civil e movelaria, com novas pastagens de pecuária extensiva, etc. Resultado: com a brusca redução na produtividade dos recursos naturais (desmatamentos, assoreamento dos rios, perda da biodiversidade, etc.), muitas áreas no Vale do Jequitinhonha, no Vale do Mucuri, em Microrregiões do Rio Doce, tornaram-se áreas economicamente deprimidas. Atualmente, o mercado regional não é totalmente inexpressivo graças às intensas transferências de renda do Governo Federal para as famílias e as transferências fiscais para as Prefeituras locais, as quais ampliam o poder de compra local.

A direção das grandes empresas, ao alocar os recursos em publicidade, em logística ou em novos investimentos, pode ser iludida pelo trabalho de promoção econômica de Estados e Municípios, que, algumas vezes, projetam uma imagem distorcida de suas realidades socioeconômicas. Pode, também, se equivocar sobre as áreas das Macrorregiões que se encontram em processo lento, mas contínuo, de decadência econômica. Pode não perceber que, ao formular suas estratégias de marketing e de investimentos, a expansão dos mercados regionais tende a estar estritamente vinculada aos efeitos transitórios do estilo da política macroeconômica prevalecente. Infelizmente, quando o sol nasce, não ilumina igualmente todas as regiões.

PauLo Haddad 2
Paulo R. Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.
Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad
Paulo Roberto Haddad é professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

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