“Há empresas que crescem. E há empresas que amadurecem — ao ponto de entender que a Amazônia não é cenário: é método, matéria-prima, ética e destino”.
A Tutiplast, do Polo Industrial de Manaus, acaba de receber um reconhecimento nacional que não é apenas um troféu: é um sinal de que o Amazonas sabe competir sem pedir licença, e sabe inovar sem pedir perdão. Entre centenas de empresas avaliadas no país, foi selecionada como uma das 20 homenageadas na 1ª edição do Prêmio Médias Empresas de Valor, iniciativa do Valor Econômico em parceria com a revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios.
E o CIEAM, com razão, a colocou em evidência: a conquista reforça excelência de gestão, inovação e geração de valor — mas, sobretudo, revela algo maior: a indústria amazonense não é periferia do Brasil; é laboratório de futuro.
Esse futuro tem nome e direção.
A herança que não vira museu
Cláudio Barrela foi pioneiro — desses que constroem chão onde só havia distância. Ele ajudou a consolidar uma empresa com histórico sólido no setor de embalagens, e deixou uma lição simples e rara: crescer não é apenas expandir; é assumir responsabilidade sobre o território onde se cresce.
Agora, quem assume o movimento dos acertos e dos avanços é Mariana Barrela — CEO, conselheira do CIEAM e liderança que transforma legado em verbo, não em vitrine. Mariana não “administra” a herança: ela a empurra adiante, como quem entende que tradição, na Amazônia, só tem valor quando vira tecnologia, renda e permanência.
E é nesse ponto que a Tutiplast faz o que muitos ainda prometem: transforma biodiversidade em inovação — e inovação em cadeia produtiva.


O bioplástico como uma decisão política
A Tutiplast recebeu R$ 9,9 milhões da Finep para desenvolver um bioplástico sustentável a partir de fibras vegetais amazônicas — como ouriço da castanha-do-Brasil e curauá. Não é detalhe técnico. É uma escolha de rota.
Selecionado pela chamada pública Finep Amazônia – Bioeconomia e Desenvolvimento Regional, o projeto conecta a indústria urbana de Manaus a cooperativas agrícolas do interior. Em vez de tratar o interior como “fornecedor distante” ou “paisagem”, ele o reconhece como parte viva da solução.
É assim que se desenha uma nova economia: quando o valor não nasce apenas no produto final, mas na forma como ele é produzido.
As fibras fornecidas por agricultores e cooperativas chegam à indústria e devolvem algo que o Amazonas sempre exigiu do Brasil: desenvolvimento regional que não expulse pessoas do lugar, que não transforme comunidades em nota de rodapé, que não trate floresta em pé como obstáculo.
Aqui, a floresta deixa de ser retórica e vira engenharia.
Menos sintético, menos microplástico, mais Amazônia
O mundo está em disputa — e uma das disputas mais silenciosas é sobre o que fazemos com os materiais que nos cercam. A Tutiplast, ao investir em bioeconomia, mira reduzir insumos sintéticos e enfrentar, com pesquisa aplicada, o drama contemporâneo dos microplásticos.
Não se trata de “demonizar” o plástico com frases fáceis. Trata-se de requalificar suas possibilidades: um plástico que dialogue com o território, que diminua a carga de dano, que seja resultado de ciência e não de improviso. Um plástico que carregue Amazônia no DNA — sem caricatura e sem folclore.
A fala do gerente de novos negócios da empresa, Fábio Calderaro, revela o ponto de virada com nitidez:
“Graças ao apoio da Finep, o que antes era pesquisa de laboratório começa a ganhar escala industrial. O projeto une ciência, floresta e comunidades extrativistas, impulsionando o Amazonas como polo de inovação em biomateriais sustentáveis.”
Escala industrial: é aqui que muitas boas intenções fracassam. Porque escalar exige método, investimento, governança — e coragem para sustentar o caminho longo. Quando uma empresa do PIM decide escalar biomateriais com identidade amazônica, ela está dizendo ao Brasil: a bioeconomia não é só projeto bonito; é indústria possível.
E a Finep, por sua vez, não fala em financiamento como quem “apenas banca” uma pesquisa. Ela fala em remover barreiras, incentivar conservação, valorizar sociobiodiversidade. Henrique Vasques, gerente do Departamento de Indústria de Base e Extrativa Sustentáveis da Finep, registra o fundamento:
“Além de financiar o desenvolvimento tecnológico, é importante incentivar práticas de conservação, remover barreiras às comunidades locais e valorizar a sociobiodiversidade, promovendo uma bioeconomia inclusiva.”
Bioeconomia inclusiva: duas palavras que precisam virar regra, não exceção.
O Amazonas como polo de biomateriais: a ideia que já começou
Há uma ironia histórica: por décadas, falaram do Amazonas como “lugar de recursos”. Mas recursos, sem inteligência, viram saque. Agora, a Tutiplast ajuda a reescrever a frase: o Amazonas é lugar de recursos com tecnologia, de floresta em pé com produto no mercado, de interior com renda e de indústria com sentido.
Isso é mais que um projeto. É uma tese aplicada: a indústria pode ser aliada da conservação quando cria valor a partir de cadeias limpas, quando respeita o território e quando compartilha ganhos de maneira civilizada.
“E quando uma liderança como Mariana Barrela assume essa travessia, ela sinaliza algo que o CIEAM precisa, cada vez mais, tornar visível: a elite produtiva do Amazonas é capaz de propor futuro com lastro, com gestão e com chão”, diz o presidente-executivo da entidade, Lúcio Flávio Morais de Oliveira.
O modo amazônico de gerar oportunidades
No fim, o que a Tutiplast está fazendo é simples — e, por isso mesmo, revolucionário: ela está provando que a Amazônia não precisa escolher entre emprego e floresta; ela precisa escolher entre economia predatória e economia inteligente.
A Tutiplast inova e dá demonstrações eloquentes de determinação focada no binômio sustentabilidade e economia florestal. E, assim, exibe o plástico em suas possibilidades efetivas: não como símbolo do excesso, mas como campo de reinvenção — no modo amazônico de gerar oportunidades.
Mariana Barrela não está apenas conduzindo uma empresa. Está conduzindo uma ideia: a de que o Amazonas pode ser reconhecido nacionalmente — não apesar de ser Amazônia, mas porque aprendeu a transformar Amazônia em vantagem ética, produtiva e estratégica.
E quando isso acontece, o prêmio vira só um detalhe. O essencial é o recado:
A floresta, quando tratada com respeito, não atrasa a indústria.
Ela a inaugura.
Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br
