Seminário em Manaus reúne governo, indústria e ciência para discutir como data centers podem diversificar a economia e, talvez, reduzir impactos ambientais.
O Governo do Amazonas oficializou nesta quarta-feira (17) um conjunto de compromissos voltados à criação de um polo de data centers sustentáveis e soberanos no estado. O anúncio ocorreu durante o seminário “Amazonas – Polo para Data Centers Soberanos e Sustentáveis”, realizado no auditório do Senai, em Manaus, reunindo representantes do setor público, especialistas e empresas de tecnologia.
Durante o evento, foi firmada parceria entre o governo estadual, a Planck Data Centers e a Positivo Tecnologia para a instalação de uma nova planta tecnológica no Polo Industrial de Manaus (PIM). Também foi celebrado um termo de colaboração com o Instituto Brasileiro de Soberania Digital (IBSD), com foco na aceleração da transformação digital da economia amazonense.

Com o objetivo de fortalecer a infraestrutura digital do estado, o encontro abordou temas como o uso responsável de energia e recursos hídricos, a expansão de redes de dados com integração internacional, além da aplicação de inteligência artificial em larga escala. O modelo modular E2DCaaS, desenvolvido pela Planck, foi apontado como solução estratégica para implantação rápida, eficiência energética e expansão conforme a demanda, requisitos essenciais para a operação de data centers sustentáveis.
Segundo o secretário de Energia, Mineração e Gás do Amazonas, Ronney Peixoto, o estado reúne vantagens competitivas para atrair operações digitais de alta complexidade. Entre os principais diferenciais está a matriz energética local, baseada sobretudo no gás natural onshore, a maior produção do país, o que contribui teoricamente para garantir estabilidade e sustentabilidade aos projetos de data centers sustentáveis.
A iniciativa está alinhada ao programa Nova Indústria Brasil e busca diversificar a economia regional. O seminário contou com a presença de instituições como a ABDC, Eneva, FGV Energia, Huawei, UEA e IPT, reforçando o compromisso do setor produtivo com a modernização tecnológica da região.
Contexto e ponderação sobre Data Centers
Apesar do avanço tecnológico e do discurso de eficiência que acompanha os projetos mais recentes, a expansão global dos data centers tem sido objeto de questionamentos recorrentes no campo ambiental. Um dos principais pontos sensíveis diz respeito ao elevado consumo de energia elétrica, especialmente em operações de grande escala voltadas à computação em nuvem, inteligência artificial e armazenamento massivo de dados. Críticos argumentam que, mesmo quando associadas a matrizes energéticas mais limpas, essas infraestruturas podem pressionar sistemas locais de geração e transmissão, exigindo investimentos adicionais e criando disputas pelo uso da energia em regiões onde o acesso ainda é desigual.
Outro aspecto frequentemente levantado refere-se ao uso intensivo de recursos hídricos para resfriamento dos equipamentos. Em diversos países, projetos de data centers passaram a enfrentar resistência social e regulatória devido à captação de grandes volumes de água, sobretudo em contextos de estresse hídrico ou eventos climáticos extremos. Ainda que novas tecnologias de resfriamento a seco ou em circuito fechado estejam em desenvolvimento, críticos apontam que sua adoção não é homogênea e que a transparência sobre o consumo real de água nem sempre acompanha os anúncios de sustentabilidade.
Há também preocupações associadas aos impactos territoriais e à pegada indireta dessas operações. A construção de data centers envolve obras civis, uso de materiais de alto impacto ambiental e, em alguns casos, ocupação de áreas estratégicas do ponto de vista urbano ou ecológico. Soma-se a isso o debate sobre a origem dos equipamentos, a obsolescência acelerada de servidores e a destinação de resíduos eletrônicos, frequentemente produzidos em cadeias globais pouco rastreáveis e com padrões ambientais e trabalhistas heterogêneos.
Por fim, parte da crítica se concentra na governança desses empreendimentos e na assimetria entre benefícios econômicos e custos ambientais. Questiona-se se a geração de empregos diretos é proporcional à escala dos incentivos públicos concedidos e se os ganhos fiscais e tecnológicos se distribuem de forma equilibrada no território. Nesse contexto, especialistas defendem que projetos de data centers, sobretudo em regiões ambientalmente sensíveis, sejam acompanhados de critérios claros de eficiência, transparência e compensação, de modo a alinhar a expansão da infraestrutura digital às metas climáticas e ao desenvolvimento regional de longo prazo.
