Lições de uma aula em tempos de pandemia

Aprendi com eles, constatei nossa diversidade e tive a oportunidade de admirar alunos motivados, mostrando o efeito de suas pesquisas diretamente e ao vivo, desde lugares como um sítio de interior, detalhando como a biotecnologia pode ajudar a Amazônia

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Augusto é professor da UFAM

Augusto César Barreto Rocha (*)

Esta semana tive a experiência intensa, agradável e cansativa de conduzir a disciplina Inovação Tecnológica para mais de 120 alunos de Mestrado e Doutorado, do curso de Biotecnologia da Rede Bionorte, espalhados pela UFAM, UEA, UFPA, UNIR, UFRR, UFMT, UFRA, IFAC, UFMA, UFTO, Embrapa e outras instituições, por meio da Internet – ao vivo e gravado. Tipicamente esta disciplina era em uma sala de aula, com os alunos de Manaus, e ao vivo para as demais instituições, em vídeo conferência. Desta vez, saiu de meu apartamento para todos. Agradeço aos alunos pelo esforço, pontualidade, diligência nas tarefas e por compartilhar esta caminhada. Também agradeço à Coordenação pela oportunidade e constante apoio.

Ciência, Tecnologia e Inovação

Minha preparação, junto com outro professor, passou pelo desafio de selecionar o software, que culminou com a adoção da plataforma da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), que é uma O.S. ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que tem em seu histórico a inserção da Internet no Brasil. Passada esta fase, identificar o melhor microfone e câmera foi fácil. O difícil foi resolver o problema da convivência com uma luz no rosto e com a necessidade de ficar parado ao longo da aula – difícil para a vista, mente e costas. Mas foi amenizada pelas piadas gentis de YouTuber de meu colega.

A surpresa que agrega

Foi uma aventura cheia de surpresas características do momento, incluindo, ruídos estranhos, cantar de galo, latidos de cachorro e gritos de criança. Em meio a tudo, uma aluna relata que sua filha também assistia a aula e gostaria de fazer uma pergunta. O que responder nesta hora? É claro que a filha seria bem-vinda, mas o que viria de lá? Seria uma criança? Após o suspense, fomos presenteados com sorrisos, seguido de reflexão e questão muito apropriadas ao momento, que demandaram conteúdo adicional para o site da disciplina, para poder responder completamente ao que foi perguntado.

Adesão e aprovação

Dia a dia fui ganhando agilidade e leveza no ambiente. Nos últimos dias tinha trilha sonora antes do início da aula e no intervalo. Os alunos gostaram da experiência, pelas observações do chat e pela resposta quase unânime: uma pessoa neutra e todas as demais com expectativas excedidas ou atendidas. Ninguém insatisfeito – algo relativamente raro em ambientes acadêmicos, recheados de rebeldes. Também sei que a Coordenação aprovou o experimento. Eu aprovei? Sob o aspecto da minha cozinha em relação a qualquer cantina de Campus? Um sonoro sim. E quanto aos aspectos didáticos? 

Dúvidas e Acertos

Minha insegurança é sobre qual a parcela do tempo total que os alunos estão com corpo, mente, atenção e alma imersos na aula? A ausência da retroalimentação dos rostos atentos ou amorfos é o maior ponto de dúvida. Para os alunos, é como mergulhar no filme “Click”, e encarnar o papel do Adam Sandler, pois eles passam a ter a chance de pausar, avançar, mudar de canal e tudo o mais. O lado negativo, como no filme, é que, neste caso, eles perderão os contrastes entre os temas mais e menos interessantes e partes que parecem tolas, mas que ganham valia no longo prazo.  

Quem ensina, quem aprende

Aprendi com eles, constatei nossa diversidade e tive a oportunidade de admirar alunos motivados, mostrando o efeito de suas pesquisas diretamente e ao vivo, desde lugares como um sítio de interior, detalhando como a biotecnologia pode ajudar a Amazônia, com livros ao fundo, uma xícara de café ao lado, o Sol brilhando na floresta e o som de um galo, em meio a um comentário sobre patentes. Foi encantador e revigorante. São muitas as vantagens em relação às desvantagens. Repetiria a empreitada? Sem dúvida. É mais uma forma disponível no arsenal didático, mas é uma pena ainda não haver solução para o problema do insubstituível contato do olhar e dos aborrecimentos não resolvíveis pelo botão de mudo. Aqui está a rota tecnológica a ser trilhada.

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Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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