ZFM, a decisão de fazer e a união para realizar

Inventaram o PPB para embargar nosso direito legal de fabricar qualquer coisa que nos aprouvesse em Manaus, com incentivos fiscais vetados a apenas 5 categorias de produtos. Isso complicou muito nosso meio de campo. Nos tirou o direito, por exemplo, de seguir fabricando celulares e computadores com vantagens competitivas. Fomos o primeiro a fabricar estes dois itens no Brasil.

NELSON
(*) Nelson é economista, empresário e vice-presidente da FIEAM e presidente do SIMMMEM.

Nelson Azevedo (*)
__________________

É importante olhar pelo retrovisor da memória, não para repetir o passado tal e qual,  mas para saber de onde nós partimos e ter muito claro para onde estamos indo. Essa retomada está diretamente relacionada com nossa disposição – como empresários atuantes nas entidades de classe – de planejar a economia pós-pandemia. Isso tem sido objeto das últimas reflexões, sobretudo a partir da constatação de que podemos retomar o papel original da Zona Franca de Manaus, como substituição dos importados, para não sofremos, de novo, as consequências de depender da cadeia asiática de suprimentos.

Resistência e verticalização

Permito-me relatar um momento de paradoxal importância em nossa história de desenvolvimento. Corria o ano de 1976, quando a Moto-Honda da Amazônia, da qual fui diretor-residente, começou a fabricar motocicletas em Manaus. A empresa viera para o Brasil, em 1971, com intuito de importar motocicletas do Japão, criando no país uma estrutura de distribuição, concessionárias e assistência técnica. Em poucos anos, os fatos empurraram a empresa a abrir uma fábrica na ZFM, e assim foi feito. 

Linhas de montagem, e só! 

Uma Portaria, na ocasião, nos surpreendeu a todos.  Foi a de n° 308, de 11 de agosto de 1976.  Ainda estávamos vivendo  o ciclo da ZFM comercial, encerrado com uma canetada logo em seguida. Entretanto, já tínhamos clareza do rumo a seguir, para substituir importações. A economia começara a se ampliar com a chegada das primeiras indústrias em Manaus. Eis, entretanto, o que estabelecia a tal Portaria em poucas palavras: na ZFM, somente ocorreria a montagem simples de produtos industrializados, contando com insumos estrangeiros e com insumos nacionais. Ou seja, nenhuma palavra em termos de absorver e abrasileirar a tecnologia. Um susto e um paradoxo. Sem mexer em seu planejamento, a MotoHonda da Amazônia, em poucos anos, em vez de se intimidar, passou a ser a empresa mais verticalizada fora do Japão. E com pouco tempo, missão cumprida, voltaram  pra casa os japoneses que vieram implantar o modo Honda de produzir e verticalizar, deixando-nos sob a responsabilidade dos curumins e das cunhatãs nativos.

Usurpação burocrática 

Esta é uma lição preciosa para todos nós que nos colocamos o desafio de superar, em mais de cinco décadas, adversidades, burocracias, medidas arbitrárias e de deformação constitucional. Inventaram o PPB para embargar nosso direito legal de fabricar qualquer coisa que nos aprouvesse em Manaus, com incentivos fiscais vetados a apenas 5 categorias de produtos. Isso complicou muito nosso meio de campo. Nos tirou o direito, por exemplo, de seguir fabricando celulares e computadores com vantagens competitivas. Fomos o primeiro a fabricar estes dois itens no Brasil.

O que queremos produzir?

O que queremos produzir? E por que voltamos a falar no assunto? A razão é muito simples. Não temos mais desculpas para não fazer. Temos, apenas, que definir o que importa  produzir. Houve muito avanço, mas ainda insuficiente, em fazer retornar para o Conselho da Suframa algumas das decisões que dizem respeito à ZFM. Depende de nós para que isso permaneça com a gestão subitamente interrompida do titular Alfredo Menezes. A ele, não temos dúvidas, devemos um novo marco regulatório para o PPB, que precisa ser assimilado e invocado por todos-lideranças patronais e de trabalhadores, parlamentares e, no limite, – ser respeitado perante a justiça. Isso, entretanto, supõe a decisão de fazer e a união para realizar.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

Artigos Relacionados

Academia, economia e tecnologia: uma aproximação urgente

O Polo Industrial de Manaus reúne empresas, universidades, institutos,...

O que existe por trás de uma indústria certificada

"Da bateria que alimenta um smartphone aos grandes sistemas de armazenamento de energia, qualidade, segurança e responsabilidade ambiental precisam acompanhar cada etapa da produção. Em Manaus e Extrema, padrões internacionais transformam mais de 50 anos de experiência industrial em confiança para os novos desafios do setor energético"

Problemas complexos exigem propostas sistêmicas

"Problemas complexos exigem visão sistêmica, comparação de alternativas e...

A usina que pretende trazer a energia das estrelas para a Terra

“Na Alemanha, uma antiga central nuclear torna-se laboratório da...

Eleições 2026: Conheça as propostas dos candidatos à presidência

Eleições 2026: compare as propostas de Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Ronaldo Caiado para meio ambiente, clima e transição energética.