‘Politizar a atividade científica está causando danos irreparáveis ao Brasil’, diz Marcus Lacerda, infectologista e pesquisador

alfredo
Alfredo é consultor
do CIEAM e editor-geral
do BAA.

O debate sobre a eficácia da cloroquina ou hidroxicloroquina para combater a Covid-19 não pode ser meramente político. Isso é uma questão científica com implicações na vida das pessoas. E dá uma exata medida dos danos que a mistura entre ciência e política partidária pode provocar na vida social, de um Brasil rachado pelo discurso do ódio entre grupos políticos e flagelado pela pandemia. Por isso, procuramos Marcus Lacerda, um cientista que reúne pesquisa com vivência de UTI e é um dos infectologistas mais respeitados do país. Confira!

Alfredo Lopes
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1. Follow Up – As redes sociais se locupletam da demagogia do ódio, que tem colocado os brasileiros em conflito permanente, prestando mais um péssimo serviço ao interesse público: politizar a ciência e as iniciativas corajosas para combater a pandemia. Como você enxerga a questão?

MARCUS LACERDA – A pandemia no Brasil chegou em péssimo momento, em que a política começava a se organizar para as eleições municipais de 2020, que são na verdade uma prévia de acordos estabelecidos para as eleições majoritárias de 2022, para governadores e presidente. Com a clara perspectiva de recessão econômica, atuais líderes se viram diante de decisões muito complexas, com clara repercussão em suas carreiras. As decisões frente a uma crise podem destruir ou projetar a carreira de um político. Doenças infecciosas sempre interferiram na política. Como exemplo disso, no Brasil, o ex-ministro da Saúde José Serra fez um excelente trabalho na pasta, e se candidatou à presidência da República. Uma epidemia de dengue expôs as fragilidades da saúde e ele não se elegeu. É conhecido na literatura científica como o ‘Presidengue’.

Num país já dividido politicamente, a pandemia de Covid-19 apenas contribuiu para exacerbar conflitos ideológicos. A forte e tradicional ligação da ciência brasileira com a esquerda também não ajudou, dando a impressão de que cientistas estavam ajudando a disseminar o caos e contradizendo recomendações de governo. É uma grande pena para o Brasil.

Marcus Lacerda, infectologista e pesquisador

2. Fup – No início de março passado, a Novartis, empresa suíça das mais respeitadas pelo mundo científico, anunciou a doação de 130 milhões de doses de hidroxicloroquina para combater a Covid-19.  Existe alguma relação dessa notícia com sua pesquisa em Manaus?

ML – Desde o momento em que se aventou a possibilidade de ação da cloroquina e da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus, houve rápido movimento para dar acesso a essas medicações a todos os acometidos pela doença. Isso não anteviu qualquer estratégia de se avaliar a segurança da medicação no contexto da nova doença. Ou seja, passou-se de uma fase de laboratório diretamente para o uso maciço da medicação, o que não é, de maneira alguma, justificável, mesmo em tempos de crise. A cloroquina tem boa segurança em pacientes com malária e com doenças reumáticas, nas doses recomendadas que constam em bula. Para Covid-19, as doses precisam mesmo ser maiores, de acordo com os estudos de laboratório, além disso, os pacientes mais acometidos são pessoas acima de 60 anos de idade, que têm mais predisposição a arritmias cardíacas, que é o principal efeito colateral da medicação. Em Manaus, fizemos o primeiro estudo de segurança usando duas doses de cloroquina em pacientes graves. A dose mais alta (por 10 dias) não foi segura, e esse grupo não continuou. A dose mais baixa (por 5 dias) é mais segura, mas tampouco elimina vírus na secreção respiratória, como foi anunciado em estudo realizado em Marselha, na França.

Muitas pessoas que não leram o nosso artigo entenderam equivocadamente que tínhamos usado apenas uma dose alta mais tóxica e acharam que nossa conclusão era de que a cloroquina não poderia mais ser usada. Não foi nada disso. Apenas estabelecemos a dose que foi mais segura para uso em Covid-19.

Marcus Lacerda, infectologista e pesquisador

3. Fup – Por suas pesquisas, você foi acusado pela morte de pacientes que você tentava salvar e que já estavam em estado avançado da doença. O que você tem a dizer a respeito?

ML – Há muitos interesses políticos que acabaram contaminando a liberdade do pesquisador brasileiro. Talvez por isso nada mais tenha sido divulgado de pesquisas em andamento no país, por medo das consequências. Eu, minha família e meu grupo fomos ameaçados em redes sociais por leigos e tivemos nosso estudo criticado em todos os grupos de WhatsApp. A notícia propositadamente foi espalhada como se tivéssemos submetido pessoas a doses altas de cloroquina de propósito, para mostrar que ela matava, para contrariar os governantes que acham que ela é a solução para a Covid-19. Para dar mais credibilidade a fake news (notícia falsa), disseram que os pesquisadores eram vinculados ao Partido dos Trabalhadores e ativistas de esquerda, o que não é verdade.

Curiosamente, sem conhecerem o currículo dos pesquisadores envolvidos, e sua seriedade, muitos brasileiros acreditaram nisso, o que nos deixa em situação muito vulnerável. Se um país tem pesquisadores capazes de matar pessoas por convicções políticas, estamos realmente perdidos como nação.

Marcus Lacerda, infectologista e pesquisador

4. Fup – Quem é Marcus Lacerda e que entidades lhe deram amparo?

M.L. – Marcus Lacerda é um cidadão brasileiro, nascido na periferia de Brasília, que migrou para Manaus em 2000 para se dedicar ao estudo das doenças tropicais, tais como a malária. Tem ampla experiência como médico infectologista e na realização de estudos clínicos com medicações e vacinas para doenças infecciosas. Tem quase 300 artigos publicados em revistas nacionais e internacionais, orienta alunos de mestrado e doutorado, e já foi presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. Seu único compromisso é com a divulgação honesta dos resultados de suas pesquisas, independente de suas repercussões políticas. Fui amplamente apoiado pelas principais entidades científicas do Brasil, como a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, a Sociedade Brasileira de Virologia, a Sociedade Brasileira de Imunologia, a Sociedade Brasileira de Bioética, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Academia Brasileira de Ciências, a Academia Nacional de Medicina, entre outras.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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