(In)segurança jurídica e desequilíbrio regional

“Que país é este em que um Projeto de Decreto Legislativo, no caso o 338/20, se impõe ao mandato constitucional que, justamente, nos concede 8% de compensação fiscal por estarmos numa região remota? E o que é mais irônico, o tal artifício parlamentar se respalda no mesmo argumento constitucional para conceder o benefício: reduzir as inaceitáveis desigualdades regionais entre o Norte e o Sul do Brasil. “

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é WhatsApp-Image-2020-08-28-at-18.07.59-473x630.jpeg
Antônio Silva é administrador de empresas, empresário, presidente da Federação das Indústrias do estado do Amazonas e vice presidente da CNI.

Antônio Silva
_______________

Quais os critérios que orientam o cancelamento de uma iniciativa industrial da Região Norte sob o argumento de que ela provocaria desequilíbrio regional no Sul e no Sudeste, as regiões mais aquinhoados do Brasil? Sustar a Portaria Interministerial 4/20, que estabeleceu, em janeiro último, o processo produtivo básico de luminária “com fonte de luz em estado sólido, a ser desenvolvido por indústrias instaladas na Zona Franca de Manaus, significa desequilibrar uma região próspera como o Sudeste ou negar emprego à região mais empobrecida do país?

Embargo de gaveta

Este PPB das luminárias de Led está engavetado desde 2008 e, por coerência e bom senso, o secretário de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos Alexandre da Costa, que conhece a seriedade do Programa ZFM, pôs um fim nessa injustiça. Mais do que injustiça, aqui se trata de um deboche da Lei, pois a Carta Magna impede contrapartida fiscal apenas para cinco itens: armas e munições, bebidas alcoólicas, cigarros, automóveis de passeio e perfumes. Qual o motivo de boicotar a produção de luminária de Led em Manaus? Costa considerou que as empresas do segmento de luminárias, instaladas no Brasil, em número reduzido, não atendem ao mercado nacional. Por isso, a liberação generosa nos índices de importação ajudaram e continuaram ajudando as referidas empresas. Anular o PPB de luminárias em Manaus, entretanto, implica em continuar gerando emprego em outros países, quando aqui temos capacidade industrial instalada e qualificação técnica para atender essa demanda.

Davi e Golias

Ademais, é preciso lembrar que o estado do Amazonas tem apenas 0,6% das indústrias instaladas no Brasil. Estado como o de São Paulo tem 30%. Desequilíbrio regional é impedir que essa quantidade reduzida de Indústrias em Manaus , possa gerar mais emprego, renda, interiorização do desenvolvimento e formação acadêmica para as atuais e futuras gerações. E, se antes estávamos nas mãos do GT-PPB, os técnicos da Indústria e de Ciência e Tecnologia, agora, qualquer parlamentar pode argumentar desequilíbrio regional para cancelar um processo transparente e coerente como este do Polo Industrial de Manaus?

Desequilíbrio regional?

O deputado paulista, autor da emenda legislativa, Carlos Zaratinni, que alegou argumentos sem qualquer respaldo econômico, social e Industrial, se refere a um estudo feito pela Associação Brasileira da Indústria da Iluminação (Abilux), com apoio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) para concluir que “…há perigo de desequilíbrio inter-regional”. Ora, não consta este estudo na FIESP, pois se assim houvesse, seríamos previamente informados.

Inaceitáveis desigualdades

Que país é este em que um Projeto de Decreto Legislativo, no caso o 338/20, se impõe ao mandato constitucional que, justamente, nos concede 8% de compensação fiscal por estarmos numa região remota? E o que é mais irônico, o tal artifício parlamentar se respalda no mesmo argumento constitucional para conceder o benefício: reduzir as inaceitáveis desigualdades regionais entre o Norte e o Sul do Brasil. É óbvio que interesses setoriais e inconfessos estão embasando essa inversão de valores e direitos.

A tele-governança da Amazônia é fértil em desajustes. Já tivemos que esperar por cinco anos pelo PPB de uma empresa cujo projeto era prospectar e produzir medicamentos genéricos a partir da biodiversidade amazônica. Desastrosa intromissão, nociva e incoerente, para prejudicar este programa, o maior de todos, de redução das desigualdades regionais chamado Zona Franca de Manaus.

Antônio Silva
Antônio Silva
Antônio Silva é administrador de empresas, empresário e presidente da Federação das Indústrias do estado do Amazonas e vice presidente da CNI.

Artigos Relacionados

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 -A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – Parte VIII

Economia brasileira pressionada por sistemas empresariais mal estruturados, crescimento...

Congresso acelera debate sobre mineração em terras indígenas após decisão do STF

Decisão judicial expõe disputa entre interesses econômicos, direitos indígenas...

Entre impostos , dívidas e apostas, a renda encurta 

“O Brasil entrou em uma fase curiosa e preocupante...

A Amazônia diante de um mundo em ruptura

Geopolítica instável, economia sob pressão e inteligência artificial reconfiguram...