US$ 68 Trilhões em ativos apostam no ESG: o que isso significa para a Indústria da Amazônia?

A preservação da Amazônia e o desenvolvimento sustentável não podem ser apenas compromissos discursivos; precisam ser ativos estratégicos para o crescimento econômico da região. A indústria da Amazônia, impulsionada pela Zona Franca de Manaus, já mostrou que é possível conciliar industrialização e conservação ambiental. Agora, com os holofotes do mundo voltados para o ESG, é hora de transformar esse modelo em um case global de sucesso

A decisão de um grupo de investidores, que juntos administram impressionantes US$ 68 trilhões em ativos, de pressionar a União Europeia para manter suas políticas ESG reflete uma mudança estrutural no mercado global. Esses investidores não estão apenas defendendo um ideal ambiental ou social; eles estão protegendo seus próprios ativos e garantindo a longevidade de seus investimentos em um mundo onde riscos climáticos, desastres ambientais e desigualdades sociais impactam diretamente a economia. Ao reafirmar o compromisso com o ESG, eles não apenas asseguram a continuidade de uma agenda sustentável, mas também pavimentam um caminho para empresas que adotam boas práticas obterem acesso privilegiado a capital, mitigando riscos e ampliando sua competitividade no cenário global.

A decisão de manter a pressão por políticas ESG não ocorre por acaso. Grandes fundos de investimento e instituições financeiras já perceberam que o risco climático se traduz diretamente em risco financeiroSecas prolongadas, enchentes, ondas de calor e outros fenômenos extremos geram prejuízos bilionários em infraestrutura, produção agrícola e cadeias de suprimentos globais. Empresas que não se adaptam a essa nova realidade ficam expostas a impactos regulatórios, dificuldades operacionais e boicotes do próprio mercado consumidor.

Além disso, os investimentos em empresas comprometidas com o ESG costumam apresentar melhor desempenho no longo prazo. Isso se deve a fatores como maior eficiência no uso de recursos naturais, redução de desperdícios e maior governança interna, o que diminui casos de corrupção, processos trabalhistas e passivos ambientais. Não por acaso, estudos da própria União Europeia mostram que fundos de investimento ESG têm se mostrado mais resilientes, especialmente em períodos de crise econômica.

Outro fator determinante para a manutenção do ESG como critério central nos investimentos é a pressão dos consumidores e da sociedadeMarcas que ignoram essa agenda enfrentam crises de reputação e perdem espaço para concorrentes que demonstram responsabilidade ambiental e social. Cada vez mais, clientes escolhem produtos e serviços com base em transparência, compromisso com a redução de emissões de carbono e impacto social positivo. Os investidores estão atentos a essa tendência e sabem que empresas bem-posicionadas nesse campo terão vantagem competitiva significativa.

No caso da Zona Franca de Manaus (ZFM), essa reafirmação global do ESG reforça ainda mais a relevância do modelo econômico sustentável já adotado na região. Diferente de outros polos industriais, que muitas vezes operam à custa de grandes impactos ambientais, a ZFM não só evita o desmatamento, como também contribui diretamente para a sua prevenção.

INDUSTRIA DA AMAZONIA
Foto divulgação

Isso ocorre porque o modelo da Zona Franca concentra a atividade industrial em Manaus, reduzindo a pressão sobre os recursos naturais do interior da Amazônia. Como consequência, o Amazonas mantém mais de 90% de sua cobertura florestal original, uma estatística que evidencia o sucesso desse arranjo produtivo como ferramenta de preservação. Além disso, a ZFM impulsiona a economia regional e melhora as condições sociais de milhares de trabalhadores, gerando empregos formais e reduzindo a dependência de atividades predatórias, como garimpo ilegal e desmatamento para pastagens.

Às vésperas do II Fórum ESG Amazôniaessa movimentação dos investidores globais representa uma grande oportunidade para posicionar a indústria da ZFM no cenário internacional. O evento reunirá lideranças empresariais, especialistas e tomadores de decisão para discutir como a Amazônia pode se consolidar como protagonista na nova economia verde.

Se investidores estão dispostos a manter trilhões de dólares atrelados, a indústria da ZFM precisa se colocar na vanguarda dessa transformação, demonstrando a critérios ESG que já opera de acordo com os princípios de uma economia sustentável. Isso não só fortalecerá sua imagem global, como também poderá abrir portas para novas linhas de financiamento, investimentos em inovação e ampliação de mercados.

A preservação da Amazônia e o desenvolvimento sustentável não podem ser apenas compromissos discursivos; precisam ser ativos estratégicos para o crescimento econômico da região. A Zona Franca de Manaus já mostrou que é possível conciliar industrialização e conservação ambiental. Agora, com os holofotes do mundo voltados para o ESG, é hora de transformar esse modelo em um case global de sucesso.

Rildo Silva, empresário, engenheiro e presidente do SINAEES e membro da Comissão ESG do Centro da Indústria do Estado do Amazonas.
Rildo Silva
Rildo Silva
É empresário e presidente do SINAEES – Sindicato da Indústria de Aparelhos EletroEletrônicos e Similares e membro da Comissão ESG do Centro da Indústria do Estado do Amazonas.

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