Com possível pico entre 2026 e 2027, o El Niño ameaça safras e abastecimento. ONU cobra financiamento antecipado para proteger comunidades vulneráveis de secas e enchentes.
O risco de um El Niño de intensidade histórica levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a cobrar recursos para proteger populações vulneráveis antes que secas, enchentes e ondas de calor provoquem desastres. A preocupação envolve possíveis perdas agrícolas, dificuldades de abastecimento e aumento da demanda por assistência humanitária.
O apelo foi apresentado nesta quarta-feira (21), em Genebra, pela secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, e pelo chefe das operações humanitárias da ONU, Tom Fletcher. Os dirigentes defenderam que governos, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras internacionais antecipem o financiamento de medidas de proteção.
Segundo as projeções citadas pela OMM, o El Niño poderá alcançar seu pico entre o fim de 2026 e o início de 2027. Nesse período, o aquecimento das águas superficiais do Pacífico tropical poderá superar os registros disponíveis desde o início das medições modernas.
Projeções indicam aquecimento de até 3,8°C
A atualização sazonal apresentada pela organização aponta para possíveis anomalias de até 3,8°C acima da média no Pacífico equatorial entre novembro e janeiro. Se esse cenário se confirmar, o episódio poderá ultrapassar a intensidade registrada em 2015–2016, uma das principais referências históricas do fenômeno.
A OMM também estima uma probabilidade próxima de 100% de persistência do evento pelo menos até fevereiro de 2027. Os prognósticos reúnem análises de centros meteorológicos nacionais e internacionais, apoiadas em observações da atmosfera, satélites e boias oceânicas.
O El Niño resulta do aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial e interfere na circulação atmosférica. Seus efeitos variam conforme a região, enquanto algumas áreas enfrentam redução das chuvas, outras registram precipitações intensas e inundações.
O fenômeno ocorre em um cenário de aquecimento global e temperaturas oceânicas elevadas. Segundo a OMM, esse contexto pode agravar suas consequências, ampliando os riscos para comunidades expostas a extremos climáticos.
Recursos antes da emergência
A proposta defendida pela ONU é ampliar a chamada ação antecipada. Nesse modelo, previsões meteorológicas orientam a liberação de recursos e a execução de medidas antes que os impactos atinjam sua maior intensidade.
Entre as iniciativas estão transferências de renda, proteção de rebanhos, distribuição de sementes adaptadas a condições adversas e instalação de estruturas para armazenar água. O reforço da infraestrutura contra enchentes também integra as estratégias de preparação.
De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), agir previamente ajuda a preservar meios de subsistência, reduzir perdas e diminuir os custos da resposta emergencial.
Em julho, Fletcher já havia alertado que o atual El Niño poderia ter consequências mais severas que as do episódio de 2023–2024, quando dezenas de milhões de pessoas precisaram de apoio para alimentação, saúde, água potável e produção agrícola.
Alimentação e saúde sob pressão
Em junho, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) solicitaram financiamento para ações preventivas voltadas a quase nove milhões de pessoas em 22 países.
As áreas consideradas especialmente vulneráveis incluem partes da América Latina, do leste e do sul da África, da Ásia e do Pacífico. Em muitas dessas localidades, a exposição aos eventos extremos se soma à insegurança alimentar, aos deslocamentos populacionais e à fragilidade econômica.
Na saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, em setembro, uma análise sobre os riscos associados ao El Niño de 2026. A entidade defendeu a preparação dos serviços e o acompanhamento das populações mais vulneráveis.
Países andinos buscam resposta conjunta
Na América Latina, o episódio de 2023–2024 esteve associado a secas severas, calor extremo, prejuízos agrícolas e dificuldades no abastecimento de água, conforme relatórios da OMM.
Como esses impactos ultrapassam fronteiras, países andinos discutem uma atuação coordenada no Comitê Andino para a Prevenção e Alerta de Desastres (CAPRADE), vinculado à Comunidade Andina. Uma declaração conjunta dos chanceleres destaca a necessidade de cooperação e atenção às zonas fronteiriças.
Para as agências da ONU, as previsões ainda oferecem uma oportunidade de preparação. A prioridade é converter os alertas em financiamento e medidas de proteção antes que os extremos climáticos comprometam a alimentação, a saúde e a renda das populações expostas.